Água só para a primeira classe
Os serviços das companhias aéreas têm se tornado tão modestos que em alguns voos os passageiros chegam a passar sede
Deveria ter sido um retorno tranquilo. O brasileiro Tales Elias, 12 anos, estava feliz. Acabara de passar uma semana nos parques temáticos Disney World, em Orlando, nos Estados Unidos. Tinha uma porção de histórias divertidas para contar. Mas os dias de fantasia logo ficaram para trás. Tales levou um choque de realidade ao botar os pés no avião, numa quarta-feira de fevereiro. “Mãe, quero água.” Ao ouvir o pedido do filho, a executiva Jô Elias, 42 anos, notou que o pai de uma garotinha que também tinha sede já havia chamado a aeromoça. Constrangida, a funcionária afirmou que o tempo de viagem até Miami seria curto e que, por isso, não haveria serviço de bordo. “É só um copo d’água. Isso é um absurdo”, reagiu Jô. “Também acho. Mas, infelizmente, a situação é essa”, respondeu a aeromoça da American Airlines. No meio do burburinho, alguém cedeu uma garrafa para a garotinha. Tales continuou sedento até que um escocês foi ao fundo da aeronave argumentar com a tripulação. Assim que ele voltou, a aeromoça surgiu com um copinho plástico d’água na mão. Jô fez dez viagens nacionais e internacionais apenas no ano passado. Apesar de estar habituada ao atendimento cada vez mais mófotodico das companhias aéreas, se surpreendeu com a saia-justa. Em nota enviada à ISTOÉ, a American Airlines afirma que o tempo dos voos de curta duração – como o de Orlando a Miami (35 minutos) – “torna impossível que os comissários ofereçam o serviço (de bordo) com segurança” na classe econômica. E que está “investigando” o ocorrido com a família Elias. “Muitas companhias não oferecem serviço de bordo. Mas, normalmente, os passageiros são avisados e os que quiserem bebidas podem retirá-las nos galleys (espécie de despensa do avião)”, diz Graziella Baggio, presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas. Graziella lembra que, “nos tempos áureos da aviação brasileira”, serviam-se suco, refrigerante e até cafezinho nos voos entre Brasília e Goiânia – num trecho de 15 minutos. Nas décadas de 80 e 90, a Transbrasil servia feijoada em certos voos no horário do almoço. Sob o pretexto de baratear as passagens, muitas companhias cobram pelos lanches consumidos a bordo. Recentemente, a Continental Airlines aderiu à prática. Na semana passada, em entrevista ao jornal “Valor Econômico”, a nova vicepresidente de mercado da Gol, Cláudia Pagnano, disse que o serviço de bordo pago, que já existe em 42 trechos operados pela empresa, será estendido a 500 voos. Além da alimentação, itens que anteriormente eram gratuitos, como travesseiros e cobertores, já são taxados por algumas companhias. Em 2009, a irlandesa Ryanair cogitou cobrar cerca de R$ 3 pelo uso dos banheiros e provocou uma polêmica internacional ao propor um estudo para que os passageiros pudessem viajar de pé. Há ocasiões em que a Ryanair oferece voos de Dublin a Paris por R$ 20. Em compensação, o passageiro é obrigado a pagar uma série de taxas, como para despachar uma única mala ou por levar um bebê no avião – mesmo que seja no colo.
BONS TEMPOS
No passado, as empresas aéreas ofereciam refeições completas
Thiago Batticelli
EM 03/04/2010 13:11:57
Realmente é uma vergonha o que aconteceu visto que água é o mínimo que uma companhia aérea pode oferecer aos passageiros. Pelo menos no Brasil ainda oferecem água...
Josimar Costa
EM 03/04/2010 11:53:17
Agora, a matéria em questão tem que ser usada de bom senso. Ora, o que custa conseguir um copo d'água para um passageiro específico?! Assustei me quando viajava da Flórida para o Las Vegas e ví todos os passageiros comprando lanches antes do embarque. Só durante a viagem percebí o por que.
Josimar Costa
EM 03/04/2010 11:49:20
Darei uma de "advogado do diabo" mas algo tem que ficar claro: como uma companhia aérea pagaria as altas taxas aeroportuárias impostas pelo governo, combustível, manutenção de aeronaves, funcionários e seus deslocamentos e estadias com passagens que deixaram as casas dos mil para entrar em centenas?
Bento
EM 03/04/2010 11:27:29
Incrível!!!!! a cada dia que passa se paga mais taxas para ter o mesmo serviço ... a época do tapete vermelho e sorrisos gratuitos já passou ... agora as companhias aéreas são prostitutas de esquina brigando por clientes cada dia menos qaulificados ... vergonhoso
José Azeredo
EM 01/04/2010 22:31:06
Parece que o passageiro é um estorvo para as companhias.É mais vantajoso levar mercadorias.Elas não sentem fome nem sede.
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