Certezas abaladas
Novos paisagistas rompem tradições e reinventam a representação da natureza
Paula Alzugaray
TRANS_IMAGEM/Galeria Virgilio, SP/até 27/2 GABRIELA ALBERGARIA/Galeria Vermelho, SP/até 20/2 Como uma montanha que desaba sob a ação de forte erosão, a escultura “Paisagem”, de Cristiana Camargo, exposta na coletiva “Trans_Imagem”, é uma obra sintomática do momento de transição que vivemos hoje. Assistimos a um mundo em ruínas: seja nos morros que desabam sobre casas, seja na terra que se abre sob os nossos pés ou nos conceitos que extraímos do mundo. “A ideia de um mundo centrado, objetivo e organizado em uma totalidade harmônica ruiu”, afirma a artista Regina Johas, curadora de “Trans_Imagem”. O mundo idealizado pela perspectiva renascentista, que iluminou a razão ocidental por cinco séculos, começou a ser abalado no modernismo e agora busca novos paradigmas, na era da informação digital. “Paisagem” mostra, afinal, essas certezas abaladas. Cristiana construiu a palavra com pó de gesso e a fragilidade do material faz com que a obra desabe pouco a pouco. “Na medida em que a palavra se desfaz, deixa de ser signo para virar a própria paisagem”, interpreta Regina. Sobre esse tema – a paisagem e sua relação com a cultura – dissertam as obras da mostra coletiva na galeria Virgilio e a mostra individual da artista Gabriela Albergaria, na Galeria Vermelho. Se o paisagista romântico tinha uma relação contemplativa e colocava-se como observador distante (quase platônico) da cena documentada, o artista contemporâneo é um agente construtor da paisagem que desenha. Se na paisagem tradicional o espaço era organizado em perspectiva dentro de um quadro, agora ele é retalhado, desdobrado, torcido, empilhado ou sobreposto, assumindo formas quase sempre fragmentárias. Via de regra, fragmento é a palavra-chave quando se fala em representação do espaço real. “Hoje vemos o mundo com os filtros da fragmentação”, explica Regina, ao comentar o tríptico fotográfico de Ana Mazzei. “Ao variar o ponto de vista da mesma cena, a artista coloca o espectador em uma situação instável, gerando uma ‘paisagem cinemática’.” A fragmentação também rege a pesquisa da artista portuguesa Gabriela Albergaria, que tem sua segunda individual no Brasil. A artista se serve do procedimento de recortar a cena em pequenos quadros, de forma a articular diferentes conceitos. Composto em 16 partes, em desenho e fotografia, o políptico “Tapada das Necessidades” (2009) representa duas árvores originárias de duas partes distantes do mundo plantadas em um mesmo jardim. Uma asiática e a outra europeia, ambas crescem entrelaçadas, convivendo em “tolerância”. “Sempre me interessei pela colonização das plantas em outros lugares. É possível traçar mapas geopolíticos a partir da observação de jardins”, diz Gabriela, que pesquisa em jardins de dentro e de fora da Europa como as diferentes culturas moldam a natureza. Seus trabalhos – aos quais refere-se como “ficcionais”, nunca documentais – apresentam um eterno confronto entre o estado selvagem e a natureza controlada.
RACHADURA
Na escultura de Cristiana Camargo a paisagem é um conceito em ruínas
JARDINS
Obra da artista portuguesa Gabriela Albergaria investiga relações entre natureza selvagem e controlada

Sabu Cortini
EM 12/02/2010 19:51:08
Que bom que ainda há veiculos que se preocupam com as manisfestaçoes artisticas atuais.Obrigada IstoÉ.A lucidez da curadora Regina Johas qdo fala na busca de novos paradigmas ja que esta constatado a ruina de uma era que se acaba,e abre caminho a novos pensamentos e manifestaçoes artisticas.
José Pinheiro Barbosa
EM 12/02/2010 18:19:19
Parabéns a ISTO É pela reportagem dessa galeria que produz em nos todo um momento que é fruto de um processo de descaso com o nosso planeta.Especialmente a obra Paisagem da artista Cristiana Camargo retrata este momento ao mesmo tempo que nos remete a uma reflexão da relação: homem e natureza.
José Pinheiro Barbosa
EM 12/02/2010 18:17:26
Parabéns a ISTO É pela reportagem dessa galeria que produz em nos todo um momento que é fruto de um processo de descaso com o nosso planeta.Especialmente a obra Paisagem da artista Cristiana Camargo retrata este momento ao mesmo tempo que nos remete a uma reflexão da relação: homem e natureza.
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