• Memória
  • | Edição: 1745
  • | 12.Mar.03 - 10:00
  • | Atualizado em 17.Set.14 - 20:44

Oooh, que broto legal

Celly Campello, a precursora do rock nacional, morre aos 60 anos, vítima de câncer

Apoenan Rodrigues

Quando rememorava algumas passagens da sua meteórica vida de cantora, Celly Campello ruborizava sem explicações. Era como se carregasse a culpa pelo sucesso de uma carreira que durou apenas quatro anos, mas que enlouqueceu a juventude do final dos anos 50 e início dos 60 com canções como Banho de lua, Estúpido cupido ou Lacinhos cor-de-rosa. Aliás, a quem lhe perguntasse sobre o porquê do título desta última, ela desdenhava: “Nunca tive sapatos com laços cor-de-rosa.” Como uma Greta Garbo dos primórdios do rock, Celly Campello se recolheu no auge da fama para casar. Virou mito, em parte talvez pela atitude extremada que à época deixou milhares de fãs desconsolados. Agora o mito descansa. Celly morreu na terça-feira 4, aos 60 anos, derrotada numa batalha contra um câncer de mama detectado em 1996. A cirurgia para remoção do tumor e a quimioterapia extirparam a doença localizada, mas o mal voltou a aparecer na costela. Ela estava internada no Hospital Samaritano de Campinas, no interior paulista, onde morava. Seu corpo foi enterrado na quarta-feira 5 na mesma cidade. A cantora que deu o chute inicial para a formação do pop rock tupiniquim completaria 61 anos em 18 de junho.

Reclusa e sem a menor saudade do passado que guardava em baús, longe da vista das pessoas, Celly ensaiou algumas voltas à vida artística. A primeira aconteceu em 1976, quando a novela da Rede Globo Estúpido cupido, de Mario Prata, fazia enorme sucesso recontando de forma bem-humorada a vida de uma cidade de interior nos anos 60. Com a música tocando sem parar, seu retorno aos palcos era inevitável. “Enquanto passava a novela, em seis meses de show ganhei mais dinheiro que em quatro anos de carreira”, contou. Ela e a turma pré-jovem guarda, incluindo o irmão Tony Campello – o grande impulsionador da sua carreira –, Carlos Gonzaga, que hoje é servo ministerial das Testemunhas de Jeová, Demétrius e o já falecido Sérgio Murillo. Com os também falecidos Wilson Miranda e Ronnie Cord, eles antes integraram o elenco do programa Crush in hi-fi, apresentado por Celly e Tony na antiga TV Record. Roberto Carlos engatinhava na carreira.

Era um tempo de total inocência nas atitudes e nas canções, todas versões de sucessos americanos. Basta ouvir Túnel do amor, Billy, Broto legal ou Não tenho namorado, que nos anos 80 ganhou uma versão hilariante, em show e disco, do performer Patrício Bisso. No fim de 1991, Celly virou avó de Gustavo, filho de Cristiane, irmã de Eduardo, seus filhos com o contador aposentado Eduardo Gomes Chacon, com quem se casou em 1962 mostrando toda a certeza do mundo em trocar o microfone pela grinalda. O mais curioso é que a própria Celly Campello, dizia que seu maior defeito era a indecisão.