• Música
  • | Edição: 1773
  • | 24.Set.03 - 10:00
  • | Atualizado em 24.Ago.14 - 16:31

Jovialidade sem botox

Em Reality, David Bowie volta ao rock e faz um disco que já se coloca entre seus melhores

Ivan Claudio - Colaborou Francisco Alves Filho

Esqueça The Strokes, The Vines, The Hives ou qualquer nome da safra recente que se apresenta como renovador do rock através de embustes marqueteiros e fórmulas do passado. Aos 56 anos, David Bowie prova em seu 26º álbum, o excelente Reality, que o melhor rock continua sendo feito pelas antigas fontes de inspiração. Bowie, contudo, não vem carregando uma mala de elixires sonoros ou versos com injeções de botox. Sua música permanece vigorosa porque está justamente falando do envelhecimento e da morte. “Acertei, errei/estou de volta ao começo/procurei um sentido e não cheguei a nada/Hey garoto, bem-vindo à realidade”, canta ele na música que dá nome ao álbum, uma pauleira movida a três guitarras, bateria e baixo sincopado como os rocks energéticos da sua melhor fase. Menos andrógino, com o cabelo cobrindo os olhos, Bowie vestia jeans, camiseta e fraque ao apresentar as 11 faixas do novo trabalho na segunda-feira 15, através da transmissão digital de um show pré-gravado, visto simultaneamente em 86 cinemas dos Estados Unidos, Canadá e Brasil. Superbem-humorado, em seguida participou de uma videoconferência com os espectadores das diversas salas. No Brasil, o evento aconteceu no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Campinas.

Produzido por Tony Visconti, parceiro de trabalhos antológicos e também por trás do ótimo CD Heathen, (2002), Reality está para Nova York – cidade onde Bowie vive atualmente – da mesma forma que a trilogia formada por Low, Heroes e Lodger estava para Berlim nos anos 1970. Já na faixa de abertura, a dançante New killer star, o Camaleão faz referência ao Ponto Zero, onde ficavam as torres gêmeas. “Vejo uma grande cicatriz branca/sobre o Battery Park/Depois um brilho desliza sobre ela/Mas me recuso a ver aquela cicatriz.” Em Never get old, com baixo funky, ele ironicamente diz que não vai haver dinheiro ou sexo suficiente para quem não quer ficar velho. Sem fechar os olhos ao passado, Bowie traz ótimas versões para a espanholada Pablo Picasso, dos Modern Lovers, e para Try some, buy some, de George Harrison, gravada pelo falecido ex-beatle no álbum Living in a material world.

Excetuando-se as baladas introspectivas The loneliest guy e Bring me the disco king – esta com um piano mais jazzístico, com Bowie pedindo a alguém (Deus?) para ser deixado no escuro até desaparecer –, o tom de Reality é o do rock enérgico e vigoroso que dá o seu melhor recado em Looking for water, entrecruzada por riffs venenosos de guitarras e marcada por uma bateria sem tréguas. Diante de cada novo disco de David Bowie, virou clichê afirmar que ele realizou o seu melhor trabalho desde a obra-prima Scary monsters (1980). Equilibrando paixão, humor e melancolia, Reality é um forte candidato àquele título.