Reciclagem tamanho GG
Grandes bens de consumo, como geladeiras, já podem ter um fim ambientalmente correto no Brasil, mas ainda há muito a fazer para que veículos e eletrônicos possam virar novos produtos
André Julião
Você já parou para pensar no destino da sua geladeira quando ela estiver obsoleta? E qual será o fim da linha para o seu carro, depois que você o tiver trocado por um modelo mais novo? Até quem separa o lixo em casa não se dá conta de que objetos maiores do que uma garrafa PET ou uma lata de alumínio podem – e devem – ser reciclados. Embora as ações nesse sentido ainda sejam tímidas, o Brasil começa a ganhar espaço num cenário em que aumenta a demanda por matérias-primas, assim como a necessidade de dar destinação correta aos bens de consumo. Indústrias que realizam esse tipo de processamento são essenciais para que a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que virou lei em julho, seja posta em prática. A nova legislação diz que os fabricantes são responsáveis pela destinação adequada dos seus produtos. “Temos capacidade para processar 420 mil geladeiras e freezers por ano”, diz Philipp Bohr, diretor-geral da Fox, primeira indústria especializada nesse tipo de reciclagem no País. Além do material sólido (metais, plástico e vidro), o gás presente nesse tipo de eletrodoméstico passa por um processo pioneiro. O clorofluorcarbono (CFC), danoso ao meio amebiente, é totalmente transformado em ácidos, usados em diferentes indústrias. AGORA É REGRA Outros gigantes, porém, não têm destino tão nobre. Mais de 1,3 milhão de caminhões que circulam pelo Brasil são a prova disso. Cerca de 600 mil deles têm mais de 20 anos de uso. Pior: 270 mil rodam há mais de três décadas. Segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT), os veículos fabricados depois de 1993 emitem de 80% a 90% menos poluentes do que os mais antigos. Pensando nisso, a CNT elaborou o Plano Nacional de Renovação de Frota de Caminhões, apresentado no ano passado ao governo federal. A proposta prevê, além de financiamento para caminhoneiros autônomos e microempresários do setor, o incentivo a usinas que possam transformar as partes descartadas em novas matérias-primas. Planos semelhantes já existem em países como México, Argentina e Espanha. “Seria preciso sucatear 50 mil caminhões a cada 12 meses ao longo de 13 anos para retirar de circulação todos os veículos com mais de 30 anos de idade”, estima Clésio Soares de Andrade, presidente da CNT. A proposta, no entanto, ainda não tem previsão para virar realidade. O cenário é pior ainda quando os automóveis entram na equação, como provam os carros sem manutenção quebrados nos congestionamentos das metrópoles e os desmanches ilegais que escapam do controle das autoridades. O descarte de televisores e computadores obsoletos é outro problema grave, sobretudo nos países em desenvolvimento. No Brasil, são poucos os pontos de coleta desses produtos, como o posto localizado na Universidade de São Paulo (USP). Desde o ano passado, lá é realizada a separação dos componentes dos eletrônicos, depois encaminhados às indústrias de reciclagem. É o primeiro centro público desse tipo no País. Máquinas ainda em condições de uso são doadas para escolas ou projetos sociais – que têm de devolvê-las ao centro quando o equipamento não funcionar mais. É preciso ir além para que nossos lixões não fiquem ainda maiores e mais tóxicos.
BOM EXEMPLO
Carros esperam para ser reciclados na Alemanha.
No Brasil, ainda convivemos com os desmanches ilegais
METAMORFOSE
Geladeiras e freezers são desmontados na Inglaterra
Segundo a Lei Nacional de Resíduos Sólidos, os fabricantes
são responsáveis pela destinação final de seus produtos
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