O humor de Adélia Prado
Após uma década de silêncio, a escritora mineira Adélia Prado lança o livro de poesias "A Duração do Dia"
Ivan Claudio
Após uma década de silêncio, a escritora mineira Adélia Prado lança o livro de poesias “A Duração do Dia” (Record). Os temas que sempre lhe estimularam, como o amor, o divino, o sofrimento e a passagem do tempo estão de volta em muitos momentos de humor e ironia sutil. Um trecho da poesia “Uma Janela e sua Serventia”: “Comamonos pois e a desconcertante beleza/em bons bocados de angústia./Sofrer um pouco descansa deste excesso.” Leia abaixo quatro poemas da escritora Adélia Prado em "A Duração do Dia"

TÃO BOM AQUI
Me escondo no porão
para melhor aproveitar o dia
e seu plantel de cigarras.
Entrei aqui pra rezar,
agradecer a Deus este conforto gigante.
Meu corpo velho descansa regalado,
tenho sono e posso dormir,
tendo comido e bebido sem pagar.
O dia lá fora é quente,
a água na bilha é fresca,
acredito que sugestiono elétrons.
Eu só quero saber do microcosmo,
o de tanta realidade que nem há.
Na partícula visível de poeira
em onda invisível dança a luz.
Ao cheiro de café minhas narinas vibram,
alguém vai me chamar.
Responderei amorosa,
refeita de sono bom.
Fora que alguém me ama,
eu nada sei de mim.
UMA JANELA E SUA SERVENTIA
Hoje me parecem novos estes campos
e a camisa xadrez do moço,
só na aparência fortuitos.
O que existe fala por seus códigos.
As matemáticas suplantam as teologias
com enorme lucro para minha fé.
A mulher maldiz falsamente o tempo,
procura o que falar entre pessoas
que considera letradas,
ela não sabe, somos desfrutáveis.
Comamo-nos pois e a desconcertante beleza
em bons bocados de angústia.
Sofrer um pouco descansa deste excesso.
VIÉS
Ó lua, fragmento de terra na diáspora,
desejável deserto, lua seca.
Nunca me confessei às coisas,
tão melhor do que elas me julgava.
Hoje, por preposto de Deus escolho-te,
clarão indireto, luz que não cintila.
Quero misericórdia e por nenhum romantismo
sou movida.
TENTAÇÃO EM MAIO
Maio se extingue
e com tal luz
e de tal forma se extingue
que um pecado oculto me sugere:
não olhe porque maio não é seu.
Ninguém se livra de maio.
Encantados todos viram as cabeças:
‘Do que é mesmo que falávamos?’
De tua luz eterna, ó maio,
rosa que se fecha sem fanar-se.
CURIOSO
EM 26/10/2011 00:02:42
... ... POR QUE NÃO ELOGIAR ... TANTO EM VERSO E PROSA, ... O LADRÃO E A CORRUPÇÃO ? ... ESTA É A OCASIÃO !
Flávia Prado Rocha
EM 24/08/2010 18:18:41
Como grande admiradora da Adélia gostaria de parabenizar a revista pela indicação da obra e fazer uma pequena correção. São 10 anos sem escrever poesia, mas escreveu três livros de prosa maravilhosos: "Filandras", "Quero Minha Mãe" e "Quando eu Era Pequena" (infantil). Recomendo, pura inspiração!
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