As idades de Anita
Retrospectiva no CCBB Rio expõe as muitas faces de Anita Malfatti, de protagonista do modernismo ao retorno à ordem
Paula Alzugaray
É comum ver na biografia de artistas modernos, ativos na primeira metade do século XX, uma evolução do academicismo ao abstracionismo. Sempre se sustentou que era preciso conhecer a ordem para poder corrompê-la. A regra não se aplica, no entanto, a Anita Malfatti, reconhecida pioneira do modernismo no Brasil. Nos 40 anos que separam “O Farol” (1915) de “O Batizado”, a pincelada inquieta e expressionista acalma-se em um silencioso “retorno à ordem”. Autora de algumas das maiores e melhores obras polêmicas da arte brasileira, como “A Boba”, “O Homem Amarelo”, “O Homem de Sete Cores” e “Nu Cubista”, Anita teve várias personalidades artísticas que podem ser conferidas na exposição “Retrospectiva Anita Malfatti”, com curadoria de Luzia Portinari Greggio. Os primeiros anos de trabalho mostram uma Anita naturalista-impressionista que pintava burrinhos correndo e retratos de familiares, mas que já demonstrava uma forte vontade de se desgarrar da previsibilidade da forma acadêmica. O segundo módulo apresenta a Anita expressionista, que escandalizaria a sociedade paulista entre 1915 e 1922, despertando a ira do crítico Monteiro Lobato e a adoração de um grupo de jovens rebeldes que promoveriam uma revolução cultural com a Semana de Arte Moderna de 22. A irreverência de Anita arrefece no período entre guerras, como acontece com boa parte dos artistas modernos europeus, e ela começa então a manifestar uma influência de Matisse e de Bonnard, produzindo uma pintura mais suave aos olhos e aprazível aos ânimos. Essa guinada de volta à ordem não teria mais retorno e uma Anita bem-comportada predomina na produção dos anos 30, 40 e 50. Mas sua retrospectiva, hoje, não se presta a promover mais um julgamento de uma obra que já foi severamente escrutinada tanto 
DO ESCÂNDALO AO RECATO
Com os anos, a Anita polêmica de “Nu Cubista” (acima) dá
lugar à artista apaziguadora de “La Chambre Bleue” (abaixo)

A paisagem interiorana, que nos anos 20 foi representada de forma tão inovadora por Tarsila do Amaral, volta apaziguada pelas cores pálidas de uma Anita naïf, amante dos temas florais, e de uma Anita academicista, autora de “Época da Colonização”, que tanto desagradou a Mário de Andrade.
por Lobato quanto por Andrade. Com 120 trabalhos reunidos de 70 museus e coleções particulares brasileiras, configura-se aqui o mérito do mais amplo espectro de uma vida e de uma obra.
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