Maestros com ataque de nervos
Do gênio erudito Beethoven ao polêmico israelense Yeruham Scharovsky - que volta agora ao Brasil -, a história se repete: os regentes são vaidosos, intempestivos e temperamentais
No ápice de um concerto, com todos os instrumentos da orquestra em plena função, os maestros parecem seres sobrenaturais que gesticulam, se contorcem e se descabelam (quando cabelo lhes há) como se entrassem em transe com a batuta em mãos – e tem aqueles que até a partem ao meio. No tom oposto, o maestro assemelha-se também no momento apoteótico a um simples mortal acometido por um ataque de nervos. Fique-se com a segunda hipótese, quer estejam ou não regendo, porque assim é na vida real, embora eles, maestros, considerem-se bem mais afinados com a primeira suposição. “Maestros em geral são autocratas e temperamentais”, escreveu certa vez o virtuosíssimo violinista austríaco Carl Flesch. É esse diapasão, o dos nervos à flor da pele, que rege o israelense Yeruham Scharovsky, que, por sua vez, regerá a Orquestra Sinfônica de Jerusalém no Rio de Janeiro e em São Paulo nos dias 19 e 22 deste mês. A sua presença anda causando desconforto. Acusado de “nervoso e autoritário”, ele já foi maestro da Orquestra Sinfônica Brasileira (1998-2004) e era tão querido pelos músicos que numa viagem que fez a Israel ficou-lhe claro que havia “gato na tuba”: os seus comandados, tal qual no filme de Federico Fellini “Ensaio da Orquestra”, despacharam-no do cargo. Um de seus desafetos foi o violinista Daniel Guedes, suspenso porque ficara doente. Scharovsky limitava-se a dizer que a “hierarquia é fundamental”. Meio verdade, meio lenda, a história das orquestras diz que, no fundo, violinistas querem ser maestros, maestros morrem de ciúme de violinistas e oboístas amariam reger se não fossem tímidos demais. Não é à toa, por exemplo, que o maestro John Neschling, considerado um “déspota nervoso” quando liderou a Orquestra Sinfônica de São Paulo, tenha sido ameaçado de morte justamente pelo dono do oboé. Neschling brigou por baixo com os músicos, por cima com o governo e de lado com o também maestro Roberto Minczuk, que, por seu turno, posteriormente esgrimou sua batuta contra arcos da Sinfônica Brasileira. A coisa não para e vem de longe: o gênio erudito Ludwig von Beethoven era irritadiço e credita-se esse fato ao seu temperamento, nada a ver com a surdez. É emblemático que em 1920 e em 1922, nos EUA e na Rússia, tenha havido por exemplo a experiência de orquestras sem maestros. Alegava-se que os músicos olham as partituras e não para as mãos do regente, até porque na maioria das vezes não simpatizam com ele. A bem da verdade, no entanto, diga-se que essas experiências não funcionaram bem por muito tempo. Ou seja: os maestros são os “nervosos necessários”.
VIRTUOSE
Scharovsky e a Sinfônica de Jerusalém: ao maestro sobram talento e contradições
DUPLA DO BARULHO
Neschling (acima) e Minczuk (abaixo) brigaram muito na Sinfônica de
São Paulo: na fogueira das vaidades saiu perdendo a música erudita

Alex
EM 08/08/2010 00:54:39
Os maestros, com raríssimas exceções, são doentes. "O maior desejo de um ditador é torna-se maestro". Essa piada revela bem como o meio erudito é doentio. Na verdade toda orquestra deveria ter em seu quadro de membros um psicanlista. É um meio de gente vaidosa, prepotente, arrogante e narcisista!!!
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