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|  N° Edição:  2088 |  24.Nov.09 - 17:36 |  Atualizado em 25.Mai.12 - 01:36

Profeta do Sertão

A história de Padre Cícero, lendário religioso sertanejo que a Igreja excomungou, chamou de "maldito" e hoje, de olho em seus mais de 2,5 milhões de fiéis, deseja tornar santo

Natália Rangel

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PADROEIRO Padre Cícero em 1904 na primeira comunhão de um grupo de meninas de Juazeiro

"A ntes que o mal cresça, corte-se-lhe a cabeça.” Com essa sentença, o bispo dom Joaquim suspendeu os direitos religiosos do padre Cícero Romão Batista, que era então sacerdote em Juazeiro do Norte, em 1896, e acusado de heresia e mistificação. Padre Cícero não se fez de rogado e tentou obter o perdão diretamente das autoridades do Santo Ofício, no Vaticano. Enviou-lhes uma carta de reparação e recebeu um telegrama sucinto, em latim: “Acquiescat decisis”, ou seja, “aceite o que foi decidido”. Padre Cícero não aceitou a reprimenda – e jamais o faria.

É o que procura mostrar a biografia “Padre Cícero, Poder, Fé e Guerra no Sertão”, do escritor Lira Neto. O livro investiga a trajetória do sacerdote e se atém aos menores detalhes de sua formação pessoal, religiosa e política, revelando que Padre Cícero, conhecido como Padim Ciço, um homem criado no seio do Nordeste e educado por padres de formação europeia, sintetiza como poucos o conflito entre o racionalismo e o rigor da época e as manifestações de fé do catolicismo caboclo tão típicas do povo sertanejo.

O motivo que levou à suspensão de Padre Cícero foi o fato que ficou conhecido como “O milagre de Juazeiro” – beatas diziam que hóstias se transformavam em sangue após serem consagradas durante a missa. O chamado milagre teria acontecido com muitas religiosas no momento da comunhão e levou a Juazeiro uma interminável peregrinação de fiéis em busca da graça milagrosa. A população acreditou e
a notícia se espalhou por toda a região Nordeste: “padre Cícero convertia a hóstia no sangue de Jesus”. O burburinho chegou logo a ouvidos eclesiásticos, que viram nisso fanatismo e superstição impulsionados pela desmedida ambição do sacerdote de Juazeiro. O indisciplinado ex-aluno do seminário de Cajazeiras, que teve a ordenação adiada diversas vezes por ser considerado um jovem “opinoso” e com “muitas ideias confusas”, como lhe disse o reitor Pierre-Auguste Chevalier, continuava dando trabalho às autoridades religiosas nordestinas.

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E não seriam poucos, entre cardeais e bispos, os que se uniram contra o sacerdote de Crato. A certeza de que Cícero não passava de um aproveitador da fé alheia levou o cardeal Arcoverde, primeiro a ser escolhido para cuidar de toda a América Latina, a acreditar que o padre, isolado em Juazeiro e com os direitos religiosos suprimidos, iria desaparecer: “Havia no caso do Milagre de Juazeiro apenas malícia de uns e medo de revelar a verdade de outros. Fora isso apenas a ignorância de quem via o sobrenatural onde só havia esperteza e velhacaria.”

A biografia sugere que, em relação ao “milagre”, o velho cardeal poderia estar certo – assim como o monsenhor Francisco Monteiro. Após a morte do grande companheiro e ex-padre João Marrocos, Cícero travara uma batalha judicial para conseguir reaver uma caixa guardada pelo amigo em sua residência.

O grande interesse despertou a suspeita do juiz da comarca, Raul Carvalho, que ordenou uma busca na casa do falecido. Num compartimento do armário ele encontrou um estoque de toalhas e paninhos, alguns manchados de sangue, que tinham sido roubados do sacrário da matriz e foram motivo de muitas chantagens contra o “padre religioso”. No livro, o biógrafo Cícero criou dezenas de órfãos e se cercou de mulheres que o ajudaram ao longo de toda a vida comenta: “Estavam ali as provas do milagre – ou do embuste.”

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ADVERSÁRIO Para o monsenhor Francisco Monteiro,
o padre era só um embusteiro

O fenômeno religioso, no entanto, serviu de combustível para a prodigiosa carreira política de Padre Cícero, que iria conquistar a emancipação política do vilarejo de Juazeiro. Ele ocuparia, de batina preta e cajado na mão, uma cadeira na Câmara dos Deputados, no Rio de Janeiro, então capital do País.

Sempre perseguido pela fama de fanático, primitivo e mistificador, Cícero seria absolvido da excomunhão no início do século XX, mas continuaria visado pela Igreja – foi necessário quase um século para que o Vaticano desse início à sua redenção.

Há três anos a reabilitação está sendo avaliada pelo Vaticano e é vista com simpatia pelo papa Bento XVI, um de seus incentivadores: não apenas para corrigir um erro do passado, mas também por interesse em trazer à Igreja Católica os cerca de 2,5 milhões de devotos que viajam anualmente a Juazeiro do Norte em busca da graça do Padim.

Como declarou ao “The New York Times” o bispo da cidade de Crato, o italiano Fernando Pânico, profundo conhecedor da história de Padre Cícero, o religioso pode ser um poderoso “antivírus contra o avanço das seitas evangélicas”.

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