Objetos não identificados
Óleo sobre : Intervenção no acervo da Pinacoteca do Estado / Pinacoteca do Estado, SP/ até 31/10
Paula Alzugaray
Os quadros monocromáticos a óleo de Rodrigo Andrade são estruturas nômades que passeiam por campos diversos. Em 2004, conviveram com pôsteres de cerveja e com os ladrilhos das paredes de um botequim do bairro de Santa Cecília, em São Paulo. Em 2007, desafiaram a sobriedade da arquitetura déco do Museu da Caixa Econômica Federal, na Praça da Sé. Hoje, eles estão no segundo andar da Pinacoteca do Estado, dialogando com a exposição permanente do acervo da instituição. A grande sacada da intervenção de Andrade – que consiste na aplicação de 450 quilos de tinta a óleo pura, na forma de quadrados, retângulos e círculos, sobre as paredes de oito salas – é chamar a atenção para o acervo do Estado de São Paulo, em exposição naquele local há dez anos, mas não tão frequentemente visitado quanto as exposições temporárias de arte contemporânea no primeiro andar. Ver essa Intervenção é assistir às maneiras com que os óleos geométricos se colocam como “objetos não identificados” diante de telas concretistas, paisagens oitocentistas ou até mesmo seus pares contemporâneos. É ver, por exemplo, como os óleos azuis pálidos repetem a palheta das marinhas de João Batista Castagneto ou como os óleos redondos na parede dos retratos masculinos replicam o formato das molduras dos retratos femininos. Na sala dos grandes clássicos de Almeida Jr. – obras-primas como “O Caipira Picando Fumo”, “O Violeiro” e “Saudade” –, as manchas a óleo se inflacionam, adquirindo grandes dimensões, talvez perseguindo a grandiosidade histórica dos trabalhos contidos naquela sala. Já as intervenções da sala das naturezas-mortas de Pedro Alexandrino parecem querer competir com a estridência do azulão que pinta as paredes. A Intervenção funciona, portanto, não apenas como um foco de luz sobre os tesouros dessa coleção pública, mas como um sinalizador de como essa coleção é mostrada. Uma ação bastante oportuna, considerando que, a partir de novembro, quando as manchas forem removidas das paredes, as salas também serão fechadas para a instalação de uma nova montagem do acervo, a ser inaugurada em 2011. P.A.
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