Receita para quebrar sigilo
Corregedor confirma à ISTOÉ que apenas um funcionário, de São Paulo, é suspeito de violar dados de dirigente tucano. Mas o caso levanta outra dúvida: o cidadão comum está protegido?
Alan Rodrigues e Hugo Marques
Em meio à acalorada disputa eleitoral, tanto o PT como a oposição passaram a última semana à procura de um personagem misterioso que poderá ter um forte peso nas eleições presidenciais de outubro. Trata-se de um funcionário da Receita Federal que violou o sigilo do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira. Os dados varejados acabaram repassados a uma equipe de velhos arapongas especializados em produzir dossiês. Na manhã da sexta-feira 16, o corregedor-geral da Receita, Antônio Carlos Costa D’Ávila, confirmou em entrevista exclusiva à ISTOÉ que a Receita se concentra em apenas um único suspeito de acessar os dados fiscais do tucano, sem motivação comprovada. No dia 1º, a Corregedoria instaurou um processo administrativo disciplinar para investigar somente este servidor, que agora terá de dar explicações. “Os indícios levam a crer que apenas um servidor praticou irregularidades administrativas”, disse D’Ávila. A expectativa da Receita é de concluir o processo administrativo em, no máximo, 60 dias. Conforme apurou ISTOÉ, o funcionário que bisbilhotou as declarações de renda de Eduardo Jorge seria ligado à 8ª Região Fiscal, ou seja, ele trabalha em São Paulo. Outros quatro acessos aos dados do dirigente do PSDB teriam sido motivados por trabalho oficial. A sindicância que identificou o nome do servidor começou no dia 21 de junho. O corregedor fez o pedido de investigação ao setor de demanda da Receita em Brasília que o encaminhou, em seguida, ao Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), responsável pelo que os auditores chamam de apuração especial. Em uma semana, a sindicância interna foi concluída. No dia 30 de junho, um envelope lacrado com tarja de confidencial da Receita chegou às mãos da Corregedoria. Apenas o corregedor e o secretário da Receita tiveram acesso ao documento. O crime cometido pelo funcionário da Receita teve evidentes motivações políticas, mas acaba incorrendo em implicações mais amplas: é um atentado à própria cidadania. Por isso espanta a tranquilidade com que o secretário da Receita Federal, Otacílio Cartaxo, admitiu, no Senado, na quarta-feira 14, que servidores da própria instituição haviam invadido o sistema e acessado os dados fiscais do político do PSDB. “Foram cinco ou seis acessos”, disse, diante de um País perplexo. O secretário ainda previu a necessidade de um prazo de 120 dias para apontar o culpado. Enquanto as investigações se arrastarem, porém, sem que haja uma punição exemplar dos culpados, é lícito que o brasileiro questione se quebras de sigilo não seriam um fato corriqueiro nos subterrâneos da Receita. A questão política é de fato gravíssima, mas, depois do episódio envolvendo o vice-presidente tucano, o que garante ao cidadão que também seus dados fiscais não estão sendo usados para outros fins? Para a lisura do processo eleitoral, é necessário saber como, quando e a mando de quem este servidor acessou os dados de Eduardo Jorge. O fato não pode ser revelado apenas depois das eleições em outubro, como gostaria Cartaxo. “A lei prevê 60 dias para finalizar o procedimento administrativo e vamos nos empenhar para cumprir o prazo”, promete o corregedor D’Ávila. “Se a quebra foi feita em ambiente eleitoral, tem que ser resolvida antes das eleições para que a população possa julgar se está havendo uma utilização da máquina pública”, declarou Eduardo Jorge na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. A investigação não pode, de forma alguma, ser politizada como foi o vazamento. Numa conversa nos últimos dias com uma autoridade do governo, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Machado, levantou a hipótese de o próprio Eduardo Jorge ter divulgado a papelada para criar um fato político favorável ao candidato tucano José Serra. “Essa é a nossa esperança”, comentou Machado, segundo apurou ISTOÉ com uma alta fonte do governo. Mas a advogada de Eduardo Jorge, Ana Luisa Rabelo Pereira, afirmou que o cliente não pediu segunda via da declaração. “A cópia que caiu nas mãos da inteligência do PT tem o timbre da Receita”, disse ela. No final da última semana, os petistas trataram de espalhar outra versão: a de que o suspeito de ter violado o sigilo fiscal do dirigente do PSDB seria uma pessoa ligada aos próprios tucanos. Mais uma teoria não sustentada pelas evidências, até agora. A despeito das alegações da Receita e do bate-boca de conotação política, o acesso à declaração de Imposto de Renda de Eduardo Jorge, no entanto, não teria ocorrido se os mecanismos de proteção ao cidadão fossem imunes a falhas. Hoje, cerca de cinco mil funcionários da Receita Federal, entre os 12 mil auditores fiscais brasileiros, podem “entrar” no sistema e verificar toda e qualquer informação fiscal dos contribuintes, a qualquer hora. Porém, qualquer acesso implica em deixar rastros. Para acessar uma determinada conta, o auditor é obrigado a introduzir no computador um cartão digital pessoal, conhecido como ICPF (um CPF eletrônico), antes mesmo de digitar a senha e nem toda máquina o aceita. Há controvérsias se é ou não crime um auditor vasculhar as contas fiscais de qualquer cidadão, mesmo por motivação profissional. O presidente do Sindfisco, Pedro Delarue, defende a possibilidade de acessos: “Ainda que não haja uma investigação fiscal acerca de um contribuinte específico, o fato, por exemplo, de alguém ter feito alguma operação com uma empresa que está sob investigação já credencia o auditor a acessar os dados fiscais da pessoa física, até mesmo como efeito comparativo das informações fiscais”, diz ele. Mas logo acrescenta: “Somente um burro faria isso sem justificativa técnica.” No caso específico de Eduardo Jorge, uma das explicações apresentadas pelos técnicos para os quatro acessos com motivação legal foi a de que o Ministério Público Federal investigava um depósito de R$ 3,9 milhões, em três parcelas de R$ 1,3 milhão, creditadas em 2007, 2009 e 2010 na conta do tucano no Banco do Brasil. Como havia suspeita de algum tipo de crime contra o sistema financeiro, o Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) teria sido acionado no momento do depósito e, em seguida, recorreu à Receita.
DEMORA
Cartaxo, da Receita, pede prazo logo para apresentar culpado 


Luis Roberto da Silva
EM 20/07/2010 21:50:31
Além dos servidores da carreira de auditoria, a RFB utiliza-se do chamado desvio de função ao autorizarem agentes administrativos, datilografos, agente de portaria, entre outros, na realização das funções inerentes a carreira específica da RFB. Todos os dias acessamos os dados sigilosos dos cidadãos
Luis Roberto da Silva
EM 20/07/2010 21:46:57
Gostaríamos de informar ao nobre jornalista que não são somente 5000 auditores fiscais que têm acesso aos dados dos contribuintes. Hoje aproximadamente 5000 servidores administrativos, sem nenhuma atribuição legal, porém com muita competência, acessam esses dados todos os dias. "DESVIO DE FUNÇÃO".
Kapis
EM 20/07/2010 08:52:08
I-CPF não existe, o correto é E-CPF, jornalista desinformado é complicado, sem tirar o mérito do restante da matéria
Luiz Antonio Barbieri
EM 19/07/2010 17:41:07
É incrível ! O culpado é sempre quem divulga horrores praticados por tucanos, não importa o que os tucanos fizeram e os crimes que cometeram... e como cometeram e cometem crimes contra o nosso povo e o nosso país!... haja vista que venderam/doaram como quiseram o nosso patrimônio. Enfim, Adeus PSDB!
Paulo Jr
EM 19/07/2010 13:23:47
O pt não aprende mesmo. Isso não é mais partido, é uma quadrilha.
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