Medicina & Bem-estar
|  N° Edição:  2123 |  16.Jul.10 - 21:00 |  Atualizado em 25.Mai.12 - 02:23

A força da mente

A ciência comprova que mudar a maneira de pensar é um remédio eficaz contra males como depressão e dor crônica

Cilene Pereira

A advogada Laura Poltosi, do Rio de Janeiro, vive um momento especial. Aos 33 anos, ela comemora o sucesso de duas viradas na vida. Primeiro, pôs fim a um casamento que a deprimia. Depois, trocou o rumo de sua carreira profissional. De especialista em separações de casais, tornou-se mediadora de conflitos. Em vez de separar, aprendeu a unir. Mudanças assim tão estruturais – e, no caso de Laura, feitas em pouco mais de dois anos –, em geral, só são possíveis com uma boa ajuda psicológica. Com a advogada não foi diferente. Laura submeteu-se a sessões de Terapia Cognitivo-Comportamental, ou TCC, e credita ao método grande parte da paz que sente hoje.

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Para a secretária Valéria Castellano, 49 anos, sempre foi difícil colocar limites. “Não conseguia dizer não. Tinha medo de magoar as pessoas.” A TCC a auxiliou a modificar o comportamento, que a fazia sofrer. “Minhas dificuldades estavam relacionadas à baixa auto-estima. Estou mais assertiva.”

Assim como ela, milhares de outras pessoas estão usando a técnica para superar dificuldades. A TCC se consolidou como um dos recursos mais empregados para auxiliar os pacientes no enfrentamento das enfermidades. É utilizado contra uma gama ampla de problemas: depressão, fobias, ansiedade, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, dor, anorexia e bulimia, obesidade, fumo e dependência química e síndrome do intestino irritável são apenas algumas de suas indicações.

A terapia tem como premissa a ideia de que ­sentimentos e reações comportamentais são consequência de pensamentos criados sobre determinadas situações. “Um fato rotineiro produz em cada um formas diversas de sentir e de agir”, explica o psicoterapeuta Rubens Caratta, do Instituto de Análise e Modificação de Comportamento. “Mas o fato, por si só, não causa emoções e comportamentos. O que provoca isso é o que pensamos sobre ele.”

Partindo desse pres­suposto, a TCC defende que, na raiz dos transtornos, estão pensamentos equivocados. Coisas como acreditar não ser capaz de falar em público ou de resistir a um doce quando se quer emagrecer. Esses pensamentos, automáticos e quase sempre inconscientes, seriam derivados de crenças incorretas forjadas na infância. E eles passariam a vida pautando e limitando as ações, sem que se dê conta de sua influência. O objetivo, portanto, é impedir que continuem a determinar os comportamentos. Por isso o nome terapia cognitivo (plano do raciocínio) comportamental.

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Às vezes, até o próprio engenheiro Júlio César Calsinski, 42 anos, se surpreende com as transformações na sua vida ocorridas depois que fez a terapia. “Sou muito racional, mas percebi que muitos processos de raciocínio eram calcados em tabus sem fundamento”, conta. Atualmente, livre de qualquer resquício de depressão, entrega-se, inclusive, a animadas aulas de dança com a esposa

As estratégias para quebrar esse ciclo são diversas. O primeiro passo é auxiliar o paciente a identificar quando os pensamentos surgem. Para evitá-los, pode-se usar a tática da distração. “A pessoa pode pensar em outra coisa imediatamente”, explica a psicóloga Mônica Portella, autora do livro “Temas em Terapia Cognitivo-Comportamental, vol. 1”, lançado recentemente.

Outra ação é questionar o quanto há de real no pensamento. Por exemplo: se uma pessoa acha que não cumprirá o prazo de um trabalho pode se perguntar se o risco é mesmo verdadeiro e quantas foram as ocasiões em que não foi eficiente. Certamente concluirá que não há fundamento para o temor. “Uma análise parcial e ilógica da realidade gera sentimentos desproporcionais ou inapropriados para lidar com a situação”, explica a psicoterapeuta Karina Haddad Mussa, da Universidade Federal de São Paulo e da Clínica do Sono. “O questionamento impede que isso aconteça.”

Há ainda o recurso da técnica da exposição. “Expomos o paciente, de forma gradativa e com acompanhamento, a estímulos que desencadeiam crises”, explica a psicóloga Fátima Ferreira, da Associação dos Terapeutas Cognitivo-Comportamentais do Rio de Janeiro. “Queremos fortalecer sua tolerância, aumentando a sua capacidade de enfrentamento da situação”, diz a especialista (leia mais no quadro).

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Foi exatamente essa a mensagem que a personal trainer Heloísa Teixeira, 32 anos, conseguiu introduzir na sua vida após a TCC. Inquieta, ela não se permitia folgas nem aos finais de semana. Até que descobriu que parte dessa maneira de ser era decorrência do desejo de provar a si mesma e aos outros que era capaz. “Vi que não preciso mostrar nada a ninguém”, diz ela, que hoje faz questão de descansar aos sábados e domingos

Vários estudos confirmaram a eficácia da TCC. Um dos mais recentes foi feito no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. Durante 12 semanas, 22 mulheres na pós-menopausa e com depressão participaram de sessões. “Depois do tratamento, 71% passaram a apresentar boa qualidade de vida”, disse a psicóloga Leiliane Tamashiro, coordenadora do trabalho.

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Brincar com o filho Gabriel, de 11 meses, é a maior vitória para a carioca Lylian Thomé, 47 anos.
Portadora de fibromialgia (sente dores em todo o corpo), ela aprendeu a não se deixar paralisar pela doença. “Vejo a vida com mais leveza”

Muitas das pesquisas relacionadas à depressão foram feitas por Daniel Strunk, da Ohio State University (EUA). Em uma delas, demonstrou-se que a terapia melhora os sintomas da doença, mesmo em casos graves. “Os deprimidos aumentam a importância das crenças negativas”, disse Strunk à ISTOÉ. “Fazemos com que eles comparem as evidências de que o que pensam é verdade. Quando questionam isso, apresentam menos sintomas negativos.”

Na depressão, há predominância de desejo de isolamento e de falta de disposição para as atividades cotidianas. “Encorajamos os pacientes a conversar com outras pessoas e começar as atividades mesmo sem ter vontade”, contou o pesquisador. O resultado é que eles percebem que são capazes de voltar a tomar o controle de sua vida. Efeito semelhante obtiveram cientistas das universidades de Washington e de Emory (EUA), com pacientes que, respectivamente, sofreram acidente vascular cerebral (avc) ou lutam contra a insuficiência cardíaca. Por causa das doenças, ficaram deprimidos. “Muitos que sofreram o avc e têm dificuldade de andar acham que não caminharão com bengala”, disse à ISTOÉ Pamela Mitchel, uma das coordenadoras do trabalho, em Washington. “Mudamos esse pensamento para “vou aprender a andar com a bengala para passear no jardim, por exemplo.” No caso dos doentes cardíacos, um dos objetivos é estabelecer metas realistas para as atividades do dia a dia. “Eles se adaptam melhor às mudanças e às limitações”, explicou à ISTOÉ Rebecca Gary, da Universidade Emory.

Na Rutgers The State University of New Jersey, os trabalhos concentram-se na avaliação da terapia para ajudar mulheres que sofrem de alcoolismo. “Após 12 sessões, as pacientes se mantêm sem beber por mais de um ano. E outros estudos apontam ­períodos de abstinência de mais de quatro anos”, disse à ISTOÉ Elizabeth Epstein, líder das pesquisas. Uma das ações é encorajar as pacientes a criar redes sociais com pessoas abstêmias. Na Universidade de Pittsburgh, os benefícios estão sendo observados em mulheres fumantes que desejam largar o vício, mas têm medo de engordar. “Procuramos modificar a ideia de que precisam do cigarro para controlar o apetite”, explicou à ISTOÉ Michele Levine, professora da instituição.

Em geral, os benefícios são obtidos a partir de 12 sessões. Mas a média varia de acordo com as condições de cada indivíduo. Os especialistas também advertem que, dependendo do caso, é necessário o uso de medicações.

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Ana Paula

EM 19/02/2011 13:07:41

Esse tipo de terapia é realmente excelente! Fiz durante 2 anos com a Dra. Cynthia Schincaglia aqui no RJ. Hoje sou uma outra pessoa. O endereço dela: www.psicoterapiaecoaching.com.br Abraços a todos.


Monique

EM 11/08/2010 19:12:30

Onde encontro profissionais, na cidade do Rio de Janeiro, que utilizam essa técnica?


Jeanine

EM 03/08/2010 09:04:59

Gostaria de saber onde posso encontrar o livro mencionado da psicóloga Mônica Portella. Obrigada. jeaninemm@gmail.com


JMM

EM 03/08/2010 08:56:17

Fazia tratamento com homeopatia para ansiedade, mas parei. Depois disso coloquei em minha mente que os sintomas que eu sentia (taquicardia, falta de ar) não eram reais, pois não tinham fundamento físico. A mente pode (e deve) ser controlada. A partir daí os sintomas diminuiram e não tomo remédio.


Sarah

EM 26/07/2010 17:01:16

otima materia, percebi há algum tempo que isso funciona. to passando por um problema de negativismo e com certeza vou recomeçar essa atividade.





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