Objeto performático
A alemã Rebecca Horn expõe pela primeira vez no Brasil esculturas que replicam movimentos orgânicos e se comportam como pessoas
Paula Alzugaray
Em 1970, Rebecca Horn desenhou uma roupa que acoplava à cabeça de uma mulher um chifre de unicórnio. Da manhã até a tarde, ao longo de seis horas, essa mulher caminhou vestida como um unicórnio pelos campos próximos à cidade de Kassel, na Alemanha, onde Rebecca participava de uma Documenta. "Me interessava como o peso dos chifres produzia uma qualidade de movimento muito diferente naquela mulher", afirma a artista alemã, que durante os anos 70 centrou seu trabalho na produção dessas esculturas corporais, que modificavam os movimentos humanos a partir do uso de objetos escultóricos. O filme "Unicórnio" (1970) está em exibição em uma sala de cinema instalada dentro da exposição "Rebecca Horn - Rebelião em Silêncio". Duas compilações de registros de performances e dois longas-metragens dividem o espaço do CCBB-RJ com objetos de personalidade tão forte quanto um piano que cospe suas teclas e um leque de plumas que se abre como uma cauda de pavão. "A exposição é formada por salas de memórias - salas escuras onde são projetados filmes - e salas de luz, compostas por objetos", explica Rebecca. Caminhar entre as 19 esculturas e instalações que compõem a exposição é como estar diante de objetos performáticos, que ganharam autonomia. São como instrumentos musicais que funcionam sozinhos, sem a intervenção direta do músico. A mesma artista que vestia pessoas com chifres de três metros de altura, luvas com prolongamento de dedos em forma de facas e outras próteses surrealistas, colocando-as em situações a serem vividas como "rituais", agora constrói objetos cinéticos que parecem ter vida própria e convidar o público a se comportar como o performer. "Quando o público interage com o objeto, ocorre uma forma de diálogo muito diferente A agressividade que emana de algumas das obras de Rebecca é definitivamente um elemento que desperta a reação do público. Medo, confronto e espanto são emoções suscitadas por instalações como "Sala de Destruição Mútua", em que dois revólveres, acoplados a dois espelhos, apontam e atiram na direção de espectadores distraídos com a própria imagem refletida. Em "Concerto para Anarquia", um piano de cabeça para baixo pende do teto do espaço expositivo, desafiando as leis da gravidade. O sentimento de ameaça torna-se ainda mais evidente quando o objeto "desperta" inesperadamente de seu estado de dormência e entra em atividade, despejando as teclas para fora. Toda a ira que dorme e desperta nos trabalhos parece estar a serviço, em todo caso, de uma espécie de ritual de purificação. "Fiz muitos trabalhos políticos sobre minha relação com meu país. Vivemos um tempo muito duro, dedicado a entender o que aconteceu durante a guerra na Alemanha. Então, comecei a trabalhar com as performances, para transformar energias em espaços onde as pessoas foram mortas", conta ela. Armas de fogo, armas brancas, conchas, símbolos fálicos, muitas referências ao sexo compõem o universo animado de Rebecca. Em sua maior parte, guardam estreita relação com música e cinema. É o caso da instalação "Concerto dos Suspiros", feita a partir da coleta de vozes de pessoas que contam histórias de sofrimento. Há vozes chinesas, cubanas, francesas, japonesas, alemãs, russas que brotam de funis de cobre. "A artista não teme a teatralidade e encara o lado dramático dos objetos. O diálogo que ela estabelece entre a performance, a escultura e o cinema é pioneiro e antecede, por exemplo, a poética de Matthew Barney", interpreta o curador Marcello Dantas. No trabalho de tecnologia altamente sofisticada de Rebecca, chama a atenção o fato de que ela sempre tenha preferido os motores aos sensores e nunca tenha experimentado as possibilidades do universo digital - que garantiriam que seu objeto detectasse a presença do público na sala de exposição. "Não trabalho com computadores. Prefiro o modo natural da surpresa", defende-se.
Rebecca Horn - Rebelião em silêncio/ Centro Cultural Banco do Brasil, RJ/ até 18/7

PERSONALIDADE FORTE
A obra "Concerto para Anarquia" surpreende
o espectador ao "criar vida" e cuspir as teclas
FLORES BROTAM DE ESCOMBROS
A artista Rebecca Horn, ao lado de seu "Concerto dos Suspiros",
que orquestra uma coleção de vozes
da relação que ele pode ter com a pintura, que é basicamente visual", afirma a artista.
NATUREZA MECANIZADA
Penas, metais e motor compõem a obra "Roda Pena Grande", que
se comporta como um animal que exibe seus dotes físicos 
CONFRONTO
"Love and Hate" coreografa um embate entre o amor e o ódio
Ultimas Notícias
publicidade
"Eu não estou preocupado com as pessoas muito pobres. Nem com os muito ricos. Minha campanha é focada nos americanos de renda média"
Mitt Romney, principal pré-candidato republicano à Presidência dos EUA"Até hoje eu encontro gente na rua que me diz: Lupi, eu te amo também"
Carlos Lupi, ex-ministro do Trabalho, que declarou, com ironia política, amar a presidenta Dilma Rousseff"Vocês são legais, vão lá fumar um baseadinho... cavalos... cachorros..."
Rita Lee, cantora, reagindo de forma inadequada diante da informação de que PMs teriam agredido pessoas em seu show

