Mundo
|  N° Edição:  2113 |  07.Mai.10 - 21:00 |  Atualizado em 25.Mai.12 - 04:47

O cerco vai aumentar

Como o atentado terrorista frustrado em Nova York endureceu as normas de segurança e pode afetar as viagens aos Estados Unidos

Luiza Villaméa

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Um milhão de brasileiros estão sendo esperados este ano apenas nos parques de Orlando, na Flórida. Fazer turismo nos Estados Unidos, porém, tende a ser uma atividade cada vez mais conturbada. A primeira reação ao recente – e frustrado – atentado terrorista na movimentada Times Square, em Nova York, foi o endurecimento das normas de segurança. Embora estivesse sob monitoramento do FBI, a polícia federal americana, e com o nome na lista dos proibidos de voar, o acusado pela tentativa de ataque terrorista conseguiu embarcar em um voo rumo a Dubai, nos Emirados Árabes, de onde seguiria para o Paquistão, seu país de origem. Por pouco a fuga não se concretizou – ele foi preso dentro do avião minutos antes da decolagem. Para agravar o cenário, Faisal Shahzad, 30 anos, pagou o bilhete só de ida, com dinheiro vivo, sete horas após seu nome ser incluído na chamada “no-fly”, a relação de passageiros impedidos de voar em território americano. Ao analisar as duas brechas no sistema de segurança, o chefe de polícia de Nova York, Ray Kelly, lembrou que aquele era o 11º atentado terrorista sem sucesso registrado na cidade desde os ataques de 11 de setembro de 2001. Kelly admitiu ainda que nem toda a segurança do mundo impediria novas tentativas.

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CONTROLE
Policiais na Times Square e a primeira perícia no carro-bomba (acima)

Na cartilha americana, constatar que o terror vai continuar em ação significa aumentar a vigilância. De imediato, companhias aéreas ficaram obrigadas a checar a cada duas horas a lista dos proibidos de voar. Antes, o procedimento era obrigatório a cada 24 horas. No Congresso, ganha fôlego a proposta de que as companhias informem às autoridades quando um passageiro comprar bilhete em dinheiro ou só de ida para o destino. Na terça-feira 4, foi apresentado um projeto de lei prevendo que acusados de terrorismo percam a nacionalidade americana e sejam tratados como “combatentes inimigos”. Em todo o país, além do aumento da presença policial e militar nas ruas, voltou à tona o debate sobre o controle na venda de armas. O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, chegou a divulgar estatísticas do FBI mostrando que nos últimos seis meses suspeitos de terrorismo fizeram mais de 1.200 tentativas de compra de armas. Foram bem-sucedidos 90% das vezes. “É preciso acabar com essa brecha do terror, que permite que suspeitos comprem armas”, defendeu Bloomberg. “Ainda existem muitas falhas de segurança, como a que permitiu que esse homem embarcasse num avião, quando isso não deveria ter sido possível.”

Antigo analista financeiro, o paquistanês naturalizado americano Shahzad estava prestes a decolar quando seu nome foi detectado pela divisão de proteção de fronteiras, que verifica na última hora as listas de passageiros embarcados. “Eu tenho uma mensagem para você voltar para o portão imediatamente. Então vire à esquerda assim que possível”, avisou uma controladora de voo do aeroporto John F. Kennedy ao piloto, que já estava taxiando na pista. Retirado da aeronave, Shahzad admitiu a autoria do atentado frustrado. De acordo com as autoridades americanas, ele ainda revelou ter recebido treinamento em campos terroristas do Waziristão, na fronteira do Paquistão com o Afeganistão, onde aprendera a fabricar bombas.

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ACUSADO
Paquistanês naturalizado americano,
Shahzad era analista financeiro

Shahzad foi preso na noite da segunda-feira 3, 53 horas e 20 minutos depois de uma camionete Nissan Pathfinder 1993 aparecer estacionada, com o motor ligado, em plena Times Square. Acionada por um vendedor ambulante que viu fumaça saindo da Pathfinder, a polícia não demorou a descobrir que se tratava de um carro-bomba. “Não parece, em nossa opinião, ser um sistema sofisticado”, anunciou o diretor-assistente do FBI, John Pistole, antes de rebocar o carro para um laboratório. Feita com componentes simples, a bomba tinha dois relógios que deveriam detonar os explosivos, incendiando os galões de gasolina e explodindo os cilindros de metano, mas só provocou um começo de incêndio. “Embora esse carro tenha falhado na hora da detonação, essa tentativa foi muito séria”, contrapôs o procurador-geral Eric Holder. “Se tivesse sucesso, seria um ataque terrorista letal, causando morte e destruição no coração de Nova York.”
Para chegar ao acusado pelo atentado, a polícia descobriu o número original do chassi raspado do carro , que havia sido comprado por US$ 1.300 em um site de vendas. Com base no retrato falado feito pela vendedora, os policiais chegaram a Shahzad, que vivia no país havia mais de dez anos. Formado em ciências da computação e pós-graduado em administração pela Universidade de Bridgeport, Connecticut, Shahzad sempre teve situação regular nos Estados Unidos. Há 13 meses, obteve a nacionalidade do país, devido ao casamento com uma americana de origem paquistanesa. Pai de um menino e uma menina, trabalhava como analista financeiro, frequentava bons restaurantes e parecia adaptado ao estilo de vida do país que escolhera para morar. Depois que sua outra faceta foi revelada, uma série de prisões foi feita no Paquistão.

A investigação do caso tentará esclarecer se foi um ato isolado ou se é produto de uma conspiração com ramificações no Paquistão ou até mesmo entre os talibãs, que são combatidos pelos americanos no Afeganistão. Ao mesmo tempo, o atentado frustrado fez recrudescer a segurança nos Estados Unidos. É a segunda vez que um suspeito incluído na lista de passageiros vetados embarca em um avião. O primeiro foi o nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab, que tentou detonar uma bomba enquanto voava rumo a Detroit no Natal. Com o aumento dos controles nos aeroportos, a rotina dos que viajam ao país vai piorar, seja qual for a sua nacionalidade.

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