Saindo da gaiola
Remontagem do musical "A Gaiola das Loucas" é fiel ao humor do original. O que mudou foi a plateia
Eliane Lobato
Uma das mudanças mais interessantes do musical “A Gaiola das Loucas” – que acaba de estrear no teatro Oi Casa Grande, no Rio de Janeiro – não está no palco, mas sim na plateia. A peça é milimetricamente a mesma de quando foi escrita, há quase 40 anos, por Jean Poiret: um jovem diz ao pai, um homossexual casado com uma travesti, que seus moralistas futuros sogros vão jantar na casa e eles precisam fingir que são uma família normal. Como diria Albin, a travesti interpretada por Diogo Vilela, imagina! Normais é tudo o que eles jamais conseguiriam ser, e é em torno dessa confusão que o espetáculo arrebatou público e prêmios mundo afora. E ele continua igualzinho. O que mudou foi o mundo, o olhar das pessoas sobre a homossexualidade. O casal gay, que antes era visto como irreal e que parecia estar ali apenas para desencadear uma sucessão de risadas, hoje é considerado plausível. E o público se enternece e se solidariza com o amor e as agruras do tal casal, interpretado, agora, por Vilela e Miguel Falabella. “Claro que há as ‘bichices’, que são sempre engraçadas e funcionam. Mas as pessoas enxergam, igualmente, a história de amor entre eles. As senhoras ficam encantadas”, diz Falabella, que também assina a direção em parceria com Cininha de Paula. Vilela reconhece que Albin, o seu personagem, é uma farsa, mas que foi mais além em sua composição: “Me preocupei em passar humanidade.” A peça “La Cage aux Folles” (A gaiola das loucas) estreou em Paris em 1973 e cinco anos depois foi adaptada para o cinema. Nos anos 80, virou musical da Broadway – no Brasil, a megaprodução inclui 300 figurinos, 100 perucas e 120 profissionais, entre os quais 14 músicos de uma orquestra. “A ‘Gaiola’ é vintage total, é um clássico, é barroco, não tem que atualizar. Mantive a Saint-Tropez dos anos 70”, diz Falabella. Seu personagem, o elegante mestre de cerimônias Georges, é par perfeito para a afetada Albin, que é, também, uma estrela de cabaré e mãe dedicadíssima do filho de seu marido – nascido, certamente, da única experiência heterossexual que ele teve na vida. A maior prova de que o ator conseguiu fazer seu personagem sobreviver às piadas é o fato de a plateia sair do teatro emocionada com o drama daquela estranha, mas verdadeira “mãe”.
CASAL AFINADO
Vilela como Albin e Falabella no papel de Georges: identificação das mães
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