O FMI se reinventa
Infl ação mais alta e controle de capitais entram na receita da instituição para se adaptar aos novos tempos da economia
Adriana Nicacio
O Fundo Monetário Internacional (FMI) recebeu, em dezembro, a importante medalha de ouro do Institute Peter Templeton por suas ações a favor da sustentabilidade do planeta. Foi a primeira organização multilateral a ser distinguida pelo prêmio. Ser mais verde é apenas uma das mudanças promovidas no FMI pelo seu presidente, Dominique Strauss-Kahn, um economista membro do Partido Socialista francês. Em dois anos no cargo, DSK, como é conhecido, está derrubando os maiores tabus da instituição. Nas últimas três décadas, o FMI foi o guardião da ortodoxia econômica. Agora acaba de dar uma guinada em sua história. Dois documentos assinados pelo economista-chefe Olivier Blanchard e cinco colegas de peso fazem uma série de sugestões que ampliam a margem de manobra da política econômica dos países-membros. Além de elevar a meta de inflação de 2% para 4%, o Fundo, numa espécie de contrição, volta a defender o controle de capitais – tal como em sua origem em 1944 –, para evitar fortes oscilações no câmbio. “O fracasso da liberalização do sistema financeiro, que permitiu ao mercado regular a economia, obrigou o FMI a romper os paradigmas neoliberais e a repensar suas teorias econômicas”, afirmou o ministro da Fazenda, Guido Mantega. O Brasil, que tem perseguido metas de inflação de 4,5%, foi o primeiro país a adotar o controle de capitais no pós-crise de 2008. Há quatro meses, Mantega impôs 2% de Imposto sobre Movimentação Financeira (IOF) à entrada de capital estrangeiro. Na década de 1990, até mesmo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a defender algum controle sobre o fluxo de capitais para desespero do FMI. Agora – com milhões de desempregados mundo afora –, o Fundo pensa diferente. “Foi uma surpresa, porque eles só falavam em cortar gastos. É claro que achamos importante a questão fiscal, mas na crise a prioridade tem que ser a reativação da economia”, comemora Mantega. Mas o ministro lembra que, desde o início da crise financeira, o FMI já se mostrara mais sensível à realidade da economia mundial. “O Fundo foi um dos primeiros a dizer que era necessário estimular a economia e adotar medidas anticíclicas”, explica Mantega. Segundo ele, os emergentes ganharam uma voz mais ativa na instituição nos últimos três anos. “A experiência brasileira está sendo acompanhada e pode gerar novas ideias dentro do FMI”, diz o ministro. Os relatórios de Blanchard, divulgados na semana passada, questionam as teses do organismo financeiro multilateral, mas não chegam a fazer recomendações específicas para os países-membros. Para o economista Paulo Nogueira Batista Jr., representante do Brasil e mais oito países no FMI, o novo posicionamento é importante, pois representa a reavaliação dos economistas do Fundo sobre certos pensamentos doutrinários. DE 2% PARA 4% é a alteração do teto de inflação que os economistas do fundo passaram a admitir “No caso da inflação, 2% é muito baixo. A vantagem da inflação um pouco mais alta são os juros nominais. Eles também seriam maiores e, na crise, os BCs teriam mais espaço para cortar”, disse Batista Jr. à ISTOÉ. O professor da Universidade de Harvard Ken Rogoff acredita, porém, que será muito difícil convencer os países desenvolvidos a elevar a taxa de inflação: “Eles passaram duas décadas convencendo a população de que 2% era um percentual mágico para, de repente, anunciar que mudaram de ideia.” Blanchard, entretanto, não vê alternativa: “A crise claramente nos obriga a questionar as nossas avaliações.” O FMI também resolveu rediscutir o papel dos Bancos Centrais. Os economistas da instituição se perguntam se os BCs devem ter um único instrumento, a taxa de juros, para perseguir um único objetivo, as metas de inflação. Cresce a percepção de que os BCs também precisam se preocupar com a estabilidade da economia. Blanchard e sua equipe passaram a defender uma regulação bancária mais rígida, que forneça ferramentas aos BCs para permitir alterar o nível de endividamento, além de controlar a captação interna nos mercados hipotecários e requerer margens para ampliar o controle sobre ações. Numa preocupação social incomum, o FMI recomenda ainda pagamentos automáticos de benefícios aos mais pobres, quando o desemprego passar de um limite predeterminado. Mas o FMI não deixa de recomendar um empenho maior dos governos na redução da dívida pública. A crise, segundo Blanchard, expôs falhas “na estrutura básica da política econômica existente e exige correções imediatas de rumo.” 
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Strauss-Khan é premiado: FMI mais verde e mais flexível
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