Leonel Mattos: a pintura performática
Enquanto a Bienal de São Paulo prepara uma edição para atualizar a discussão sobre as relações entre arte e política, no Brasil continuam despontando artistas com diversos graus de politização no discurso
Paula Alzugaray
Enquanto a Bienal de São Paulo prepara uma edição para atualizar a discussão sobre as relações entre arte e política, no Brasil continuam despontando artistas com diversos graus de politização no discurso. Ser político, para o artista baiano Leonel Mattos, 55 anos, é promover situações de troca e criação coletiva. “Acredito na função social da arte e acho que o belo, um conceito kantiano, está ultrapassado. A arte não deve ser panfletária, mas levar ao questionamento, à interação, ao diálogo”, diz o artista. Embora identifique-se com as bandeiras de uma geração que durante os anos de chumbo se esgueirava do controle social inventando outros canais de produção e veiculação artística, Mattos não é um artista conceitual. Dedicado à pintura desde 1984, encontrou nas ruas, em sanatórios e em feiras livres a alternativa ao circuito de museus e galerias, que considera viciado e alheio à vocação social da arte. Ao sentir necessidade de experimentar novos suportes para sua pintura, começou a usar o corpo. “Fazendo intervenções com o povo, cheguei à pintura performática, misto de intervenção urbana, body art e pintura”, conta. Sua atuação ganhou ainda mais força e intensidade depois da experiência na Penitenciária Lemos Brito, onde, preso no ano 2000, conseguiu gerar interesse e movimentação consideráveis em torno da pintura. “Das Biritas, Meu Nego e Carlos Alberto foram presos que se destacaram e pintaram mais de 50 trabalhos cada!”, diz. Da fase sombria da prisão, surgiu a instalação “Caixa Preta”, apresentada no MAM Bahia, em 2004. Outro claro reflexo dessa experiência é a curadoria da mostra “2.234”, que este ano passa por seis cidades brasileiras e mobiliza 125 artistas em torno de um movimento pela paz. Crítico do projeto do governo baiano de investir em uma Bienal local, Mattos continua ocupando as ruas com intervenções pictóricas e empenhando-se na construção de um museu coletivo a céu aberto. “Prefiro expor na Feira de São Joaquim do que na Bienal de Veneza”, desafia.
CORPO COMO TELA
Mattos (à esq.) e autorretrato performático
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