Alegorias eleitorais
Dilma e Serra entram na onda do ilusionismo do Carnaval e pouco revelam sobre planos de governo
Jorge Felix
Em meio à azáfama carnavalesca e a poucos dias do 4º Congresso Nacional do PT, fragmentos do programa de governo da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, apareceram no livro “Brasil, entre o Passado e o Futuro”, editado pela legenda, junto a uma entrevista da pré-candidata a presidente. Dilma defende que “o Estado terá, inexoravelmente, de reforçar seu segmento executor”. Outros textos apresentados pelas tendências do PT no seu encontro, em Brasília, também seguem a mesma linha e desenham o que Dilma batizou de “bem-estar social à moda brasileira”. A prévia das propostas que o PT pretende submeter às urnas é coerente com uma candidata ex-militante da luta armada e que, desde sua passagem pelo Ministério de Minas e Energia, sempre se mostrou mais à esquerda do que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No entanto, as ideias de uma ampliação do papel do Estado podem ser tão ilusionistas quanto a troca de figurino instantânea da comissão de frente da Unidos da Tijuca, a campeã do Carnaval carioca. O motivo é bastante conhecido e é mais técnico do que ideológico: o PT, em sete anos de poder, ampliou os gastos correntes do governo a tal ponto que, no próximo mandato, ou o presidente parte para o corte ou produz inflação. Portanto, as cartas de boas intenções ao povo brasileiro só terão compromisso com a realidade nua e crua da Quarta- Feira de Cinzas se, desde já, o presidente Lula acabar com a folia das despesas de custeio, sobretudo de pessoal. Em pleno Carnaval, o exministro Delfim Netto ficou rouco como um folião exagerado de tanto dar este conselho ao governo. “Quando se diz que a despesa de custeio do governo está constante em 5% do PIB, as pessoas esquecem que o PIB está crescendo, então, se ela permanece constante, significa que a despesa aumentou também. É um truque impressionístico”, disse Delfim ao “Valor Econômico”, lembrando que o Estado está no limite de sua capacidade de investimento. O pior é que a oposição dá sinais de aderir ao bloco do “eu também” – como chamam os marqueteiros políticos americanos. Embora nenhum trecho do programa de governo do PSDB tenha vindo a público, o pré-candidato a presidente José Serra entrou no bloco do bem-estar social à brasileira aumentando o salário mínimo do Estado em 10,9% (para R$ 560), bem acima da inflação. Nada garante – principalmente os números das contas públicas – que Serra possa prosseguir nesse enredo, caso seja eleito presidente. Salvo se, como cantou a escola de samba, estiver guardando algum segredo. Por enquanto, atrás do debate eleitoral sobre o papel do Estado, Serra e Dilma escondem um não debate. Primeiro porque os dois, como identifica Delfim, têm o mesmo perfil de defesa do Estado indutor. Segundo porque a crise financeira internacional turvou a ortodoxia e formou um consenso desmoralizando o truque de que o mercado promoveria o desenvolvimento econômico. O debate agora é como fazer do Estado um indutor e regulador eficiente. Mas, segundo o cientista político Fábio Wanderley, da Universidade Federal de Minas Gerais, esperar isso dos candidatos é purwa ilusão. “Pelo perfil do eleitorado brasileiro, ganha quem for mais mágico ou der mais consistência à mágica”, diz. 
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