Grande golpista da artes
O falsário Shaun Greenhalgh, que enganou até o British Museum, é tema de filmes e de exposição
Ivan Claudio
Enfiado em um terno bem cortado, o homem alto, calvo e de olhos claros fala ao juiz com o carregado sotaque daqueles que são da região norte da Grã-Bretanha: “Fiz o serviço em três semanas.” Não se tratava de um assassinato. Shaun Greenhalgh, 49 anos, estava confessando outro tipo de crime. Munido de um taco de beisebol e de um formão comum, ele esculpia nesse tempo recorde uma perfeita representação da princesa Amarna, filha do faraó egípcio Akanethen e da rainha Nefertite, e vendera a peça falsa, que supostamente teria 3,3 mil anos, por US$ 695 mil. A negociação teria sido feita com o museu de sua cidade, Bolton, no litoral da Inglaterra. É justamente por isso que Greenhalgh estava em julgamento, sendo condenado a quatro anos e oito meses de prisão em 2007. Ele não forjou, porém, apenas essa estátua em alabastro: durante 17 anos fez aquarelas, telas, cerâmicas, relevos e esculturas das mais remotas culturas e dos mais variados artistas, como Paul Gauguin e Brancusi. Tudo falso. Enganou casas de leilão como a Sotheby’s e a Christie’s e especializados museus, a exemplo do British Museum e do Art Institute of Chicago. Calcula-se que sua produção de cópias, iniciada em 1989, supere as 120 peças – se tivessem sido arrematadas em sua totalidade, o valor das vendas superaria os US$ 16 milhões. Agora, uma pequena parcela desse acervo apreendido pela Scotland Yard está sendo exibida no Victoria and Albert Museum de Londres sob o título “The Metropolitan Police Service’s Investigation of Fakes and Forgeries” (As Investigações da Polícia Metropolitana em Fraudes e Falsificações). Anda atraindo grande público. O museu não revelou números, mas a mostra foi prorrogada por duas semanas porque a frequência está se mostrando bem maior que o esperado. A história de Greenhalgh, tido pela Scotland Yard como o falsário mais polivalente do mundo, acaba de virar um telefilme da BBC (“The Antigues Rogue Show”) e um documentário exibido pelo Channel 4, dirigido pelo escritor Nick Hornby (“The Artful Codger”). Numa cena do filme de Hornby, vemos a rainha da Inglaterra embevecida diante da tal princesa Amarna em uma mostra na Hayward Gallery. Sua majestade abriu pessoalmente essa exposição, montada para exibir com orgulho o “tesouro” comprado com dinheiro do governo e, assim, mantido dentro da Inglaterra. Foi o desfecho de um golpe perfeito. Greenhalgh pensava em todos os detalhes. Ele sempre forjava obras desaparecidas e, assim, não corria o risco de ser surpreendido com o confronto das peças originais. Usava materiais que, à primeira vista, enganavam especialistas: para fazer a fraude de um prato romano, fundiu moedas de prata da época. Outra tática que se revelou infalível foi inventar um “passado nobre” para a peça falsificada. Para convencer o British Museum e a Christie’s de que a princesa Amarna era autêntica, juntou ao histórico da peça a sua passagem por um leilão acontecido em 1892 na residência do quarto conde de Egremont, em Silverton Park, em Devon. A escultura teria sido arrematada pelo seu tataravô. Quem ia aos museus com esses objetos eram os pais de Greenhalgh, George e Olive Greenhalgh, de 86 e 85 anos, respectivamente. Eles simulavam desconhecer o valor das obras e, assim, afastavam qualquer tipo de suspeita. Em curto espaço de tempo, os golpes foram ficando cada vez mais ambiciosos. Em 2005, o próprio falsário ofereceu ao British Museum e à casa de leilões Bonhams três placas de mármore em baixo relevo, que dizia ser de origem assíria, retratando detalhes de uma batalha. Pediu US$ 790 mil. Tudo parecia estar correndo bem na avaliação do fragmento arqueológico retirado do palácio de Sennacherib, em Nínive, atual Iraque, e supostamente feito em 681 a.C. Até que o marchand da Bonhams enxergou um erro na escrita cuneiforme do friso – e isso seria impossível de acontecer numa encomenda real. Com a repercussão do caso, a Prefeitura de Bolton atualmente luta para levar de volta ao museu da cidade a falsa princesa Amarna, considerada a “obra-prima” de Greenhalgh. Uma enquete local mostrou que 70% da população iria vê-la no museu. Exatamente como fazem agora os visitantes do Victoria and Albert Museum. 
FAUNO
Escultura em cerâmica do século XIX
ATRIBUIÇÃO
Foi autenticada pela Sotheby’s e atribuída a Paul Gauguin
AQUISIÇÃO
A obra foi comprada em 1997 pelo Art Institute of Chicago
US$ 197 MIL
GANGUE
Greenhalgh tinha apoio dos pais
PRINCESA AMARNA
Escultura em alabastro de 52 cm de altura
ATRIBUIÇÃO
O British Museum e a Christie’s deram aval à sua idade de três mil anos
AQUISIÇÃO
Comprada pelo Museu de Bolton em 2004 e exibida como orgulho nacional
US$ 695 MIL
GANSO
Escultura em terracota dos anos 1920
ATRIBUIÇÃO
O objeto foi atribuído à escultora inglesa Barbara Hepworth
AQUISIÇÃO
Foi comprada pelo Instituto Henry Moore, em Leeds, Inglaterra
US$ 315 MIL
RISLEY PARK LANX
Prato romano em metal usado em sacrifícios
ATRIBUIÇÃO
Considerado uma cópia da época romana pelo British Museum
AQUISIÇÃO
Comprado por um colecionador que o doou ao museu inglês
US$ 157 MIL
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"Não tem essa história de dois lados. Um lado já foi suficientemente condenado, assassinado, desaparecido"
Paulo Sérgio Pinheiro, integrante da Comissão da Verdade
