Zé Dirceu, o indomável
O ex-ministro volta à direção do PT, ignora as decisões do partido, cria confusão com aliados, é repreendido por Lula e diz que isso não tem importância
Octávio Costa e Claudio Dantas Sequeira
Em viagem de negócios a Portugal há duas semanas, o ex-ministro José Dirceu antecipou à ISTOÉ que, de agora em diante, vai se dedicar “100% à política”. E cumpriu ao pé da letra o que disse na volta ao Brasil. Primeiro passou por Belém do Pará, onde pediu o afastamento do chefe da Casa Civil estadual, Cláudio Puty, que estaria atrapalhando a aliança do PT com o PMDB do deputado e ex- governador Jader Barbalho. Depois seguiu para Fortaleza e lá deu a entender que, se Ciro Gomes mantiver a candidatura à Presidência, o PT cearense poderá retirar o apoio à reeleição do governador Cid Gomes (PSB). Tanto no Pará quanto no Ceará, sua intervenção foi mal recebida pelos políticos locais. E com toda razão, pois Dirceu passou como um trator por cima das instâncias partidárias, como fazia nos dias de construção do PT. Lembrou o todo-poderoso Dirceu que comandava o PT com mão de ferro. Os tempos, porém, são outros e sua autonomia de voo é bem mais limitada. “Dirceu é dirigente do partido, mas não está na Executiva. Não vai fechar aliança em nenhum Estado. Quem vai bater o martelo são os que têm mandato para isso”, afirma o presidente eleito do PT, José Eduardo Dutra. Preocupado em não desautorizar totalmente o famoso correligionário, Dutra garanteque Dirceu não está atuando como um francoatirador e o mantém informado sobre seus contatos. PRESSÃO Mas, no Planalto, o ambiente é hostil para o ex-ministro da Casa Civil. Em recente reunião com parlamentares petistas, o presidente Lula deu um duro recado, explicando que Dirceu não fala em nome dele nem do PT. “O Zé está exagerando, está atrapalhando. Está fazendo merda!”, atacou Lula. O que mais irrita o presidente é o fato de Dirceu ainda usar o histórico de ministro da Casa Civil em seus contatos, seja na área política, seja nos negócios. Apesar das críticas, admitese no Planalto que a capacidade intelectual de Dirceu deve ser aproveitada na elaboração das estratégias do PT. “No terreno das ideias, sua contribuição é sempre bem-vinda”, afirma uma fonte da Presidência, lembrando a trajetória política do ex-líder estudantil. “É natural que os próprios aliados procurem Dirceu, que tem experiência e é visto como pessoa de influência no PT. Ele é um animal político, mas não fala pelo PT”, também ressalta Dutra. Na verdade, Dirceu ainda tem alguns aliados no Planalto. Um deles é o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, que no caso do Pará foi responsável pelo “trabalho sujo”. Uma semana antes da visita do eminente petista, o ministro foi a Belém e reuniu-se com Jader Barbalho, que reclamou dos movimentos de Puty e pediu sua demissão. Em seguida, Padilha convidou a governadora Ana Julia Carepa para um jantar em Brasília. Ela foi recebida pelo ministro e os deputados Paulo Rocha, Beto Faro e Zé Geraldo. “Se você não fechar com o PMDB, vai ser difícil o Lula ir fazer campanha no Pará no primeiro turno”, disse Padilha. A governadora voltou para casa e comunicou as mudanças ao secretariado. Foi então que Dirceu desembarcou em Belém para a festa de 30 anos do PT e a posse do novo diretório estadual. “Desfilou como um imperador que entra na cidade já tomada por suas tropas”, comenta um petista. Questionado por ISTOÉ, Puty evita polemizar e nega a interferência de Dirceu. “Nunca houve pedido para meu afastamento. Mas Ana Julia resolveu antecipar minha saída e a de outros secretários para dar espaço a grupos do PT que não estavam representados no seu governo”, diz. No Ceará, Dirceu também jogou pesado. Em encontro com a prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, ele pressionou para que Ciro Gomes retire a candidatura à Presidência. Do contrário, criaria obstáculos à permanência do PT na aliança com Cid Gomes, irmão de Ciro. “A movimentação dele para o Ciro ser candidato em São Paulo acabou sendo desastrosa. Ele não consultou as bases e agora o Ciro está irritado, sente como se tivesse caído numa armadilha”, avalia o secretário de relações internacionais do PT, Valter Pomar. Dirceu, diz Pomar, atropelou as gestões do próprio Lula. Para alguns observadores, Dirceu aproveita sua volta ao diretório nacional do PT para montar uma base política, especialmente no Senado, com a qual vai emparedar o presidente que for eleito em outubro, mesmo que seja Dilma Rousseff. “Quando Dilma se der conta, pode ser tarde”, alerta um petista da Executiva. Como exemplo, ele aponta para Mato Grosso, onde Dirceu tenta emplacar o nome de Carlos Abicalil para o Senado, em detrimento da reeleição de Serys Slhessarenko. A movimentação de Dirceu pode dificultar sua nomeação para a Executiva Nacional do PT. Mas há quem diga que, se a nomeação acontecer, seria um antídoto contra suas iniciativas. De um lado, o cargo na Executiva pode dar ainda mais força a Dirceu, mas de outro poderia funcionar como um cabresto. Uma coisa é certa: apesar de todas as críticas, Dirceu não parece nem um pouco disposto a moderar seu apetite político. Procurado por ISTOÉ para comentar as reações contrárias às suas iniciativas, Dirceu, em viagem de negócios a Caracas, foi taxativo: “Isso não tem a menor importância, e eu não vou dar qualquer declaração sobre esse assunto.” Uma resposta no melhor estilo de José Dirceu. 

No Pará, Dirceu pediu a cabeça do chefe da Casa Civil do Estado e no Ceará ameaçou retirar o apoio do PT à candidatura de Cid Gomes se seu irmão, Ciro Gomes, não desistisse de ser candidato à Presidência
PITO
Dutra tentou conter José Dirceu: “Ele não é a voz do PT”
Colaborou Hugo Marques
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