Tudo o que você queria saber sobre a arte contemporânea
A mar gem da linha / Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), Rio/ CCBB-SP/ Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/ até 15/11
Paula Alzugaray
Quando começou a cortar e perfurar suas telas, no final dos anos 1940, o artista Lucio Fontana disse que gostaria que os jovens artistas ocupassem aquele espaço que ele abria através da tela para que pudessem “espalhar a arte pelo mundo inteiro”. Quem conta essa história é a artista Leda Catunda, em entrevista concedida ao documentário “A Margem da Linha”, de Gisella Callas. De fato, os cortes de Fontana foram decisivos para o salto que a pintura deu para fora do espaço bidimensional. Metaforicamente, esta é também a ação deste longa-metragem documental: a diretora Gisella “espalha a arte pelo mundo”, ao assumir a ousada e difícil missão de falar sobre arte contemporânea para o grande publico, sem tratá-lo como leigo. Com poucas imagens e muitos depoimentos de artistas, críticos, curadores, diretores de museus, colecionadores, restauradores, arquitetos e um físico quântico, constrói-se, ao longo de 90 minutos, um relato eficiente dos critérios e estratégias que estão em jogo na criação artística hoje. O filme mergulha no assunto de manso, sem querer assustar o espectador, lançando aos três “protagonistas” – os artistas Regina Silveira, José Spaniol e Sérgio Sister – questões como “o que captura o seu olhar?”; “de onde vem a ideía?”; “o que é o ateliê?”, até alcançar temas de maior complexidade – como a diferença entre o moderno e o contemporâneo – e atualidade – como o uso que os artistas fazem hoje do ambiente urbano como suporte do trabalho; os rituais de espetacularização da arte; ou a polêmica sobre a ação autoritária (ou não) dos curadores sobre as mostras de arte. As conversas discorrem sobre um diagrama de “palavras-chave”. Algumas, como o conceito de “apropriação”, efetivamente abrem portas para o entendimento da arte contemporânea. Outras, como “inspiração”, “intuição”, “eterno” ou “o criador e a criação” abrem caminho para uma espiritualidade que não está em questão na produção atual. Nessas escolhas, faz-se evidente uma implicação pessoal da diretora no debate, o que dá ao filme o caráter de um ensaio e não de uma reportagem. 
OUTROS ESPAÇOS Obra de José Spaniol: a cidade como suporte
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