Comportamento
|  N° Edição:  1632 |  10.Jan.01 - 10:00 |  Atualizado em 30.Out.14 - 10:16

Sai pra lá olho gordo!

Todo mundo se acha vítima da inveja, mas poucos assumem esse sentimento. Por via das dúvidas, muitos recorreram a simpatias na virada do milênio para espantar o mau-olhado

O primeiro mandamento é jamais pronunciar o seu nome. Vale olho gordo, mau-olhado, urucubaca, encosto, agouro. Reza a lenda que até a palavra por si só é capaz de atrair maus fluidos. A partir de agora, três toques na madeira... Vamos falar sobre a inveja, esse sentimento tão antigo quanto o homem. Não suportar o sucesso de alguém, querer estar no seu lugar, cobiçar o vestido da amiga ou o carro do vizinho são exemplos costumeiros desse mal. Muitas mulheres acham que Gisele Bündchen é mais feliz do que elas porque namora Leonardo DiCaprio e passa as férias com o amado na Itália. Adolescentes se mordem porque Sandy é bonita, canta bem, tira notas altas na escola e tem mais dinheiro do que o pai e o tio juntos. Por incrível que possa parecer, até o juiz Lalau, que amargou o réveillon na cadeia, é invejado, como mostrou uma sondagem feita por ISTOÉ online. Ninguém descarta a possibilidade de que ele escape das denúncias de corrupção, e com o bolso cheio de dinheiro para curtir a vida.

Aos invejados, resta se proteger. O prefeito eleito do Rio, César Maia, iniciou a administração decorando o gabinete com amuletos, como o Massiphá – uma espécie de terço do islamismo –, um santinho com a imagem de São Jorge e uma estátua de Dom Quixote, que simboliza a conquista de coisas impossíveis. “São presentes de eleitores. Só guardo quando sinto que têm muita energia”, diz Maia. No país do Carnaval, do sincretismo religioso, da magia e de uma desigualdede sócioeconômica recorde, a mandinga não pode faltar. Tudo contribui para eliminar o olhar negativo do outro. Acredita-se que ele seja poderoso a ponto de provocar bocejos ininterruptos, sono e dor de cabeça na vítima. Mesmo quem considera a urucubaca crendice popular faz uma simpatiazinha de vez em quando contra o olho obeso, por desencargo de consciência. Como a virada do milênio não é data que se presencie mais de uma vez, nem os mais céticos dispensaram os banhos aromáticos, o sal grosso, a arruda, os amuletos e o defumador. Tudo para inaugurar o ano com o pé direito e afastar as “maledicências, a maldade e a ira dos pobres de espírito”.

No barracão de Candonblé Axé Ilê Obá, em São Paulo, 60% da clientela que requisitou no fim do ano os serviços de mãe Sylvia, 62 anos, queria descobrir nos búzios se era alvo de olho grande e como se livrar dele. “Inveja é igual para todo mundo. Rico ou pobre. Eu bato o olho e já sei se os caminhos na vida do cliente estão fechados”, diz mãe Sylvia, que cobra no mínimo R$ 80 pela consulta. A gerente administrativa Vilma Freire Costa, 44 anos, mesmo sendo católica, consultou este oráculo dos orixás. Vilma vivia discutindo com os irmãos e sócios da imobiliária onde trabalha. Uma funcionária não largava do seu pé, apontando defeitos o tempo todo. Depois de jogar as conchas na mesa de ifá – uma bandeja redonda de madeira, disposta sobre uma longa toalha branca –, mãe Sylvia enrugou a testa e anunciou o diagnóstico em tom gravíssimo: “Isso é inveja. Tem uma mulher querendo te derrubar.” A mãe-de-santo aplicou-lhe dois ebós – banhos de verduras e grãos torrados, acompanhados de rezas e cantos – e receitou outros banhos, com folhas de pitanga e mel durante sete dias seguidos. “Depois que fiz o trabalho, enxerguei tudo. A funcionária chata acabou admitindo que queria muito ser como eu e pediu demissão”, conta Vilma.

Rejeição – Numa pesquisa realizada em novembro pela empresa paulista de consultoria MCI – Marketing, Estratégia e Comunicação Institucional –, 87% dos mil entrevistados, todos acima dos 24 anos, reconheceram a inveja como um sentimento negativo. A maioria (54%) se disse vítima da inveja e 48% admitiram ser invejosos – desses, 31% garantiram ser acometidos em raríssimas ocasiões e 16%, de vez em quando. Somente 1% afirmou sentir inveja com frequência. O sucesso profissional (18%) e a estabilidade financeira (16%) foram apontados como as qualidades mais cobiçadas nos outros. Em outra pesquisa, realizada por ISTOÉ online, apenas 9,5% dos internautas admitiram sentir inveja, enquanto 43,7% juraram não ter esse sentimento. Alguns até revelaram seus alvos prediletos. Lalau é o campeão, seguido de Jesus Cristo, Luiz Estevão, Fernando Henrique Cardoso, Sandy, Jennifer Aniston (mulher de Brad Pitt), Celso Pitta, Bill Gates, Xuxa, Cláudia Raia, Paulo Maluf, Fernando Collor e Guga.

Marília Gabriela também foi citada, devido ao seu cobiçado namorado, o ator galã Reynaldo Gianecchini. Gabi, 52 anos, não perdeu a compostura diante dos beijos trocados entre o amado e a atriz Vera Fischer, na tevê e fora dela. Seu namoro continua firme e ela garante não se abalar com o mau-olhado. “Eu entendo que elas sintam inveja de mim. O Giane é realmente um homem excepcional”, esnoba. Modesta, Marília acredita que o marido bonito não é o único motivo de inveja em sua vida. “Basta olhar para minha carreira para descobrir que tenho muitas outras qualidades”, sugere, sem medo de atrair olho gordo. “A inveja só é perigosa para quem acredita nela”, garante.

Vergonha – Autor do livro Inveja – mal secreto, o jornalista Zuenir Ventura define a maldita como “uma velha dama indigna, de má reputação e péssimo caráter, sorrateira, capaz de, com um simples olhar, murchar plantas e secar pimenteiras”. Ela é um pecado bem brasileiro, na opinião do jornalista, e, como constatam as pesquisas, difícil de ser assumido. “Tive muita dificuldade para conseguir depoimentos. Isso reforçou minha idéia de que a inveja é vergonhosa e inconfessável”, diz. A prova desse constrangimento é que o livro de Zuenir, lançado em agosto de 1998 pela Objetiva, foi o mais comentado e o que menos vendeu. Depois de seu lançamento, chegaram às livrarias outros dois títulos – Gula e Luxúria –, comercializados com mais sucesso do que o primeiro.

Sair por aí confessando suas fraquezas para engrossar as páginas de um livro não é nada estimulante. Mas, em frente ao confessionário, não há quem escape. O padre Antônio Bogaz, da paróquia paulistana de Nossa Senhora Achiroppita, já se acostumou com a turbulência que os fiéis vivenciam quando descobrem em si esse sentimento dolorido. Mas a tendência atual da Igreja é relativizar a culpa do pecador. “Invejar é sempre errado, porém não sugerimos penitência se alguém não cometer delitos por causa dela”, explica. Quando a inveja é concretizada em algum ato de violência contra o invejado, Bogaz recomenda uma penitência reparadora, nada de pai-nossos e ave-marias. “Se uma mulher derrubou café no vestido da amiga por inveja, uma maneira de ser perdoada é presentear a vítima com um vestido novo”, sugere.

Revelada como maldade, a inveja é um dos mais importantes símbolos bíblicos. Foi por sentir inveja de Deus que o anjo Lúcifer revoltou-se contra o criador e fundou o reino das trevas. Caim matou Abel por inveja. Não tolerou ter suas oferendas desprezadas por Deus enquanto as do irmão eram vangloriadas. Foi no século VI que a inveja passou a ser listada como um dos sete pecados capitais por clássicos da teologia cristã, como Santo Agostinho e Gregório Magno. Mas não é possível entender seu significado sem falar da cobiça, proibida pelo décimo mandamento. “A inveja é o desejo, manifestado de forma destrutiva, de possuir o que é dos outros”, explica o padre Bogaz. Apesar das associações, há diferenças importantes entre ciúme, cobiça e inveja. O primeiro pode ser resumido como o desejo desesperado de manter o que se tem. Cobiça é querer o que não se tem. A inveja é não querer que o outro tenha. Na propaganda, aparece constantemente a idéia da inveja boa, positiva, que pode ser uma mola propulsora para o sujeito se dar bem na vida. Mas não adianta se iludir: não existe inveja boa. Quando o sentimento é positivo, não é inveja e sim admiração. Mesmo sendo condenável, ela comporta gradações. A mais grave é quando o invejoso se empenha para destruir o invejado.

No ambiente profissional, indivíduos com esse perfil não são raridade, principalmente nas empresas que instigam a concorrência entre os funcionários. “Aquele que se destaca acaba sendo alvo de inveja. Há quem gaste mais energia tentando puxar o tapete do colega do que apostando no próprio desempenho”, acredita Patrícia Amélia Tomei, autora do livro Inveja nas organizações. O melhor, segundo Patrícia, seria que as empresas investissem na variedade de potenciais. “Cada qual tem seu talento e deve ser reconhecido por ele”, avalia.

Perniciosas – Nos bastidores da televisão, as disputas também são acirradas. “Todas as atrizes querem ser as melhores e as mais bonitas”, diz Nicole Puzzi, 41 anos, que atualmente divide seu tempo entre a direção teatral e os livros de auto-ajuda. Em seu primeiro título, Inveja – saiba como tratar e se defender desse mal, apresenta um diagnóstico: “Os homens invejam coisas objetivas, como o poder do chefe. As mulheres, coisas subjetivas inexplicáveis como um sorriso ou um jeito de andar. Elas são mais perniciosas. Chegam a se tornar amigas de suas adversárias apenas para destruí-las.” A atriz confessa que morria de inveja de suas irmãs mais velhas quando era menina. “Elas namoravam escondido e eu fazia questão de dedar, só pelo prazer de assistir à bronca”, lembra. “Mas fui muito invejada também. Uma vez, um diretor de tevê me alertou para que eu tomasse cuidado com uma colega. Ela estava fazendo minha caveira pelas costas”, conta. Hoje, assume ter uma pontinha de inveja de Vera Fischer e de escritores campeões de venda como Paulo Coelho. “Mas é inveja positiva ”, acredita.

Não são poucas as mulheres que gostariam de estar no lugar de Vera Fischer. Muitos homens, por sua vez, se contentariam em estar no lugar dos namorados de Vera ou de quem já teve o prazer de fotografá-la nua. J.R.Duran, 48 anos, um dos mais festejados fotógrafos de estúdio em atividade no Brasil e autor de antológicos ensaios da Playboy, não troca seu trabalho por nada. “Faço fotos de nus durante quatro dias a cada dois meses”, contabiliza Duran, que mantém sempre um galhinho de arruda no estúdio para ninguém agourar.

Amuletos – Mas funciona mesmo? O psicólogo da USP Yves de La Taille atribui às simpatias importância simbólica. “Elas podem ajudar a organizar o pensamento, aliviam a consciência, mas têm efeito passageiro e superficial”, diz. Todos os amuletos parecem ter o mesmo objetivo, neutralizar o suposto poder destrutivo no olhar do outro. Atualmente, a moda são os penduricalhos chineses, que podem decorar a janela de casa ou o retrovisor do carro. “A inveja pode trazer efeitos reais se o invejado não se proteger das vibrações negativas”, garante a consultora Lucyane Campos, especialista em radiônica – ciência que estuda a emissão de energia a distância entre pessoas e objetos.

Ela cita alguns amuletos, chamados de gráficos, para combater a inveja. “Eles elevam o padrão vibratório dos ambientes ou dos indivíduos. O Joshua pode ser usado como adesivo no vidro do carro ou como pingente”, explica. Além dele, outro gráfico, o Nove Círculos, serve de escudo protetor. Em seu centro pode ser colocada uma foto ou um fio de cabelo da pessoa a ser protegida. A bruxa Márcia Frazão vai mais longe. “O mau-olhado é poderoso. Elogiam a sua plantinha e no dia seguinte ela aparece seca e esturricada”, diz. Ela recomenda banhos de flores pelo menos uma vez por semana.

Mesmo que não funcione para todo mundo, as simpatias trazem o alívio de que se apelou para outras dimensões. O sofrimento maior, mesmo, parece ser o dos invejosos. “A mordida da inveja é uma erupção, um choque. Há uma mistura de humilhação e admiração, revolta, protesto”, observa o italiano Francesco Alberoni no livro Os invejosos (Rocco). O psicólogo De La Taille dá um pouco de tranquilidade a eles. “Apesar de ser experimentado como negativo, o sentimento de inveja não é bom nem ruim. Não deve ser moralizado. O que o sujeito vai fazer com ele é que importa”, diz. Pode-se portanto, sentir inveja e superá-la, garante De La Taille. “Uma boa saída é trabalhar as próprias virtudes. A humildade é a principal delas. Implica na superação da vaidade”, ensina o psicólogo.  

Sinto inveja de...
As confissões que os leitores fizeram a ISTOÉ
“Jennifer Aniston, esposa de Brad Pitt. Queria só uma horinha com ele”
Karinne Lopes, Natal, RN
“Gustavo Küerten. Viva o Guga!”
Meiri Lunieri, Rio de Janeiro, RJ
“FHC. Ele está sempre viajando ou está na sua fazenda descansando com a família. Essa é a vida que eu queria ter!”
Rosyane Azevedo, São Luís, MA
“Nicolau, ex-juiz que, apesar de preso, comeu lentilhas no réveillon e continua rico com o nosso dinheiro”
Paulo Cesar Vellego, Guarujá, SP
“Xuxa. Como é possível enganar tanta gente por tanto tempo?”
Cilmar Tadeu Silva, Curitiba, PR
“Bill Gates. Ele é o homem mais rico do mundo”
Maria Madalena, São Paulo, SP
  “Todos que têm o que eu não tenho”
Ana Paula Andrade, Goiânia, GO
  “Quem mora em países sérios, daqueles que não têm fome, miséria e todos os males que nós vemos no Brasil. Ah, também invejo quem tem um bom salário”
Fátima Aguiar, Natal, RN
  “Quem se empanturra de comida e não engorda”
Mariko Yashida, São Paulo, SP
  “Deus, que faz o que quer e não tem problemas financeiros”
Antonio Leite, João Pessoa, PB
  “HUGH HEFNER, criador da revista Playboy, que mantém relações com duas gêmeas estonteantes”
Luiz Pedroza, Goiânia, GO
  “Quem está em Abrolhos carimbando tartarugas”
Aquelau de Tebas, São Paulo, SP

Arsenal de feitiçaria
LUCIANA GIMENEZ, modelo “Este ano, comprei vários olhinhos de tigre para usar como broche, pingente, anel e móbile. Eles espantam qualquer mau-olhado. Carrego um na bolsa e espalhei outros pela casa. Também coloquei no berço do meu filho”
EDER MENEGHINE, arquiteto e decorador “No réveillon, acendo todas as luzes da casa. Fecho os registros e abro as torneiras para a água velha ir embora e levar todas as impurezas. Também raspo a cabeça e a barba e corto as unhas três horas antes da meia-noite. Tudo para atrair coisas boas”
KÁTIA MARANHÃO, apresentadora “Certa vez, mostrei a minhas amigas um relógio de pulso caríssimo que acabara de comprar. No mesmo dia, ele caiu no chão e pisaram em cima dele. Mandei para o conserto e ficou novo em folha. Três dia depois, fui roubada. Só pode ter sido olho gordo. Hoje, me protejo rezando e expondo menos a minha vida. Também seleciono quem entra na minha casa”
LUMA DE OLIVEIRA, atriz “Olho gordo não me atinge. Tenho uma alma forte. Minha receita é como tomar vitamina C todo dia para não ficar gripada: rezo e peço proteção diariamente, como num ritual. A uruca passa e vai embora”




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