Teatro em tom maior
O Teatro Tom Jobim abre suas portas em meio à natureza que o maestro não se cansou de exaltar
Gustavo de Almeida
Os artistas que se apresentarem nessa nova casa de espetáculos (capacidade para 500 pessoas) terão água quente à base de energia solar. Há aparelhos de ar-condicionado, mas a intenção não é ligá-los e, isso sim, fazer com que a ventilação seja natural – um teatro aberto para a Mata Atlântica que receberá a brisa gelada da vegetação. “Por aqui faz frio como em poucos lugares. É o frio que desce da serra”, diz Paulo Jobim, músico, filho de Tom e diretor do teatro. O curador João Fortes garante a procedência da madeira utilizada, toda de material sustentável e pintada em diferentes tons de verde. O trio ansiedadepela- obra-pronta é completado por Biza Viana, também produtora e curadora. Eles sabem que tudo correu bem no show especial que Caetano Veloso, Milton Nascimento e o Trio Jobim deram no teatro na terça-feira 30. Agora aguardam nervosamente a inauguração oficial na quarta-feira 8 com um evento em homenagem a Tom coordenado pelo diretor de teatro Amir Haddad.
A aventura e a correria para inaugurar o Teatro Tom Jobim, num bucólico canto do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, são dignas de letra e música. Há semelhanças, digamos, “genéticas”: em 1972, Tom compôs Águas de março em seu sítio durante as lamacentas obras de uma casa. Pois bem, os versos “é o carro enguiçado, é a lama, é a lama” poderiam ser, também, a trilha sonora dos dias apressados de finalização desse que é o primeiro teatro brasileiro 100% ecologicamente correto. Com tratamento acústico especial para não incomodar os vizinhos de penas, plumas e pêlos que vivem na mata, o teatro se vale de energia solar e madeira certificada. Para garantir uma acústica perfeita, o telhado recebeu uma camada adicional de poliuretano. Tudo isso para não desafinar o ritmo do maestro Tom Jobim (1927/1994), defensor da natureza que viveu declarando o seu amor às árvores e aos animais desse mesmo Jardim Botânico.
Além de um concerto com canções do maestro, estão programadas diversas intervenções teatrais pelo Jardim Botânico no entorno da casa. Aqueles que suaram a camisa para a construção também estarão na festa – são os operários que animarão uma roda de samba. A direção do Teatro Tom Jobim já fechou contrato com a companhia do britânico Peter Brook (apresentação da peça libanesa Yesterday’s man) e com as trupes brasileiras de Bruce Gomlevsky (exibirá Festim) e de Cláudia Dias (Das coisas nascem coisas). E já no mês que vem terão início os Concertos para a Amazônia, que culminarão com quatro semanas de homenagens a Chico Mendes. Tom, se vivesse, aplaudiria em pé.
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