Comportamento
|  N° Edição:  2258 |  22.Fev.13 - 21:00 |  Atualizado em 25.Jan.15 - 17:53

A volta de Dom Pedro I

A exumação dos corpos do imperador e de suas duas mulheres elucida dúvidas sobre a monarquia, reconta detalhes da história e traz o passado do País para mais perto dos brasileiros

João Loes

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Não são muitas as oportunidades de testemunhar a história ser reescrita. Às vezes, na academia, ela até ganha novas leituras à luz da época e das teorias de quem se propõe a reinterpretá-la. Mas fatos novos surgirem é coisa rara. Isso torna ainda mais importantes as descobertas que começam a ser feitas a partir da exumação inédita dos corpos de dom Pedro I, imperador do Brasil, e suas duas mulheres, dona Leopoldina e dona Amélia. Fruto do extenso trabalho que envolveu 11 instituições dos três âmbitos de governo e mobilizou uma equipe liderada pela arqueóloga e historiadora Valdirene do Carmo Ambiel, os resultados iniciais, divulgados pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, têm o fascínio de trazer o passado para os dias de hoje. O interesse despertado pela pesquisa também é sinal da onda de valorização da história que se nota no mundo todo, com um público global que parece ávido por saber um pouco mais sobre o que já foi um dia. Os estudos que a intrincada exumação incentiva devem ainda dar início a um processo de revisão e redescobrimento da história nacional. Em breve, teorizam historiadores ouvidos por ISTOÉ, poderemos até ver algumas modificações nos livros didáticos brasileiros a partir do que dizem os restos mortais da família imperial. Entre os personagens examinados, dom Pedro I e a imperatriz Leopoldina renderam as revelações mais saborosas da pesquisa. Ele, em especial, por sua importância histórica e por ser o eixo central dos três exumados, foi quem mereceu mais atenção.

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TRABALHO MINUCIOSO
Estudos dos restos mortais do imperador e de suas esposas
permitem rever fatos históricos. Abaixo, dona Amélia mumificada

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Dom Pedro I, feito imperador do Brasil em 12 de outubro de 1822, morreu e foi enterrado em Portugal em 1834. Ele havia abdicado do trono brasileiro três anos antes e regressado para a Europa. Seus restos mortais foram trasladados para o País em 1972, na comemoração dos 150 anos de Independência, sendo abrigados na cripta do Monumento à Independência, em São Paulo. A abertura do caixão, em fevereiro do ano passado, foi trabalhosa e demorada (leia mais às págs. 62 e 63). Um levantamento preliminar do material já permitiu a revisão de algumas verdades estabelecidas sobre o imperador, além de novas interpretações de fatos conhecidos.

Por mais de um século, a imagem propagada de dom Pedro I era a de um homem esguio, forte e alto. Assim ele foi retratado em telas e, posteriormente, no cinema e na tevê. Por isso, o patriarca da independência que habita o imaginário brasileiro é o do imperador montado no cavalo branco, grande e imponente como o pintou Pedro Américo num dos principais quadros do Museu da Independência. Ou o dom Pedro I galã, interpretado, em 1972, por Tarcísio Meira no filme “Independência ou Morte”. A verdade, porém, é que nem porte de galã ele tinha. Segundo as conclusões iniciais da pesquisa, ele media entre 1,66 m e 1,73 m. Portanto, era baixinho para os padrões atuais, mas de boa estatura para a época. A partir da estrutura óssea pode-se inferir que era atlético. “Bate com os relatos que temos de que ele era um sujeito hiperativo, sempre envolvido com algum tipo de atividade física”, afirma Mary del Priore, historiadora e autora de “A Carne e o Sangue”, sobre a família imperial.

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A exumação também revelou que quatro costelas do lado esquerdo estavam quebradas. Elas são resultado de acidentes em vida porque havia marcas de cicatrização, processo que cessa após a morte. É um achado que confirma a documentação existente sobre os acidentes sofridos por dom Pedro I – um em 1823 e outro em 1829 –, mas que também expande a discussão sobre as aptidões e o estilo dele para exercer o poder. “De informações como essa, que confirmam lesões graves decorrentes dos riscos que o imperador assumiu, podemos inferir que ele não era um homem talhado para a vida em gabinete”, diz a historiadora Maria Aparecida de Aquino, da Universidade de São Paulo (USP).

De fato, dom Pedro I era mais talhado para a ação do que para reflexões. Ao regressar para Portugal, por exemplo, depois da abdicação do trono no Brasil, fez treinamento na França para melhorar a condição física como preparação para a guerra que travaria com seu irmão, dom Miguel, pelo trono português. Negociar uma saída diplomática não era sequer uma possibilidade. “Todo governante constrói para si a imagem que deseja ter, e dom Pedro I sempre quis ter fama de cavaleiro destemido e apaixonado”, diz o historiador Maurício Vicente Ferreira Jr., diretor do Museu Imperial em Petrópolis. “De certa forma ele conseguiu, tanto para o bem quanto para o mal.”

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FAMÍLIA
A historiadora e arqueóloga Valdirene Ambiel com o crânio de dom Pedro I.
No alto, a segunda mulher, dona Amélia, e acima a primeira, dona Leopoldina

Dona Leopoldina, sua primeira mulher, sentiu na pele o lado passional de dom Pedro I. Dado a variações de humor, toda energia que ele tão facilmente depositava nas causas em que acreditava podia rapidamente se tornar agressividade. A imperatriz narrava em suas cartas a violência psicológica a que era submetida. Queixava-se do marido à irmã mais velha, Maria Luisa de Áustria, e a amigas como Maria Graham, sua educadora na infância. A correspondência mais reveladora, de 8 de dezembro de 1826, endereçada a Maria Luisa, fala de sofrimento e morte iminente – a imperatriz morreria três dias depois de ditar esta carta. “Há quatro anos, minha adorada mana, como a ti tenho escrito, por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado de maior escravidão e totalmente esquecida pelo meu adorado Pedro”, desfia. Mais adiante, faz menção a um “horroroso atentado que será a causa de minha morte”.

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Isso ajudou a propagar a história de que dom Pedro I, em um acesso de raiva, teria dado um pontapé na imperatriz grávida, jogando-a escada abaixo no palácio na Quinta da Boa Vista, em São Cristovão, no Rio de Janeiro. O ataque teria quebrado o fêmur da imperatriz, causado seu último aborto e deflagrado a infecção generalizada que a matou em 1826. A origem da briga era a relação de dom Pedro I com a amante Domitila de Castro e Canto Melo, a Marquesa de Santos, a quem ele havia promovido a dama de companhia da imperatriz. A gota d’água para Leopoldina foi o fato de dom Pedro resolver assumir publicamente Isabel Maria, a filha que teve com Domitila, concedendo o título de duquesa de Goiás à menina de dois anos. Leopoldina o censurou numa carta: “Escolhes entre a esposa e a amante!” A reação brutal do imperador foi testemunhada pelo Barão de Mareschal, um agente do governo da Áustria, além de outras duas pessoas. Segundo Mareschal, ele gritou com a mulher que “lhe tiraria os cavalos para passeio e outros impropérios”. O austríaco também teria sido um dos responsáveis por espalhar na corte que dom Pedro espancara a esposa.

Uma das revelações importantes dos restos exumados de dona Leopoldina foi a de que não havia sinais de fratura em seu fêmur. Essa informação, em tese, desmentiria o episódio da Quinta da Boa Vista. “É uma história de origem pouco conhecida, mas que foi repetida infinitamente e acabou sendo tratada como verdade”, diz Isabel Lustosa, historiadora da Fundação Casa de Rui Barbosa e autora do livro “D. Pedro I: Um Herói Sem Nenhum Caráter”. Na Europa, tias e amigas de dona Leopoldina na Áustria espalharam a versão sobre a morte da imperatriz pelas cortes do continente. No Brasil, ela ganhou as páginas de jornais de oposição, como o republicano “O Repúblico”, que chegou a chamar dom Pedro I de monstro. Seria uma mancha imensa na história da família imperial, se é que a história é verdadeira. Mas os ossos intactos deram ânimo aos descendentes da monarquia. “Ele não era esse monstro”, rebate dom Antônio João Maria de Orléans e Bragança, 62 anos. “Está provado que não houve nenhuma agressão”, reforça dom Betrand Maria de Orléans e Bragança e Wittelsbach, 72 anos, que autorizou as exumações, nas quais esteve presente um sacerdote. A pesquisadora responsável pelo estudo, porém, diz não ser possível fazer tal afirmação. “O que dá pra dizer é que ela não foi vítima de violência com força suficiente para quebrar um fêmur”, esclarece Valdirene.

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Os ossos da imperatriz, no entanto, desfazem a imagem de que ela era rechonchuda. Quando a jovem Leopoldina chegou ao Brasil, aos 19 anos, era “pequena, muito branca e com cabelos de um loiro fosco”, segundo historiadores. Depois de algum tempo no Rio de Janeiro teria engordado, passando a ser descrita como “baixa e corpulenta”. Uma amiga que a visitou no Paço Imperial, a Baronesa de Monet, chegou a ser ferina no relato da silhueta da imperatriz: “Parece talhada numa peça só.” Mas os exames da ossada sugerem, segundo Valdirene, que ela era uma mulher magra. Talvez o fato de dona Leopoldina ter tido nove gestações durante os nove anos em que viveu no Brasil tenha contribuído para essa imagem de gordinha.

No fim da vida, a depressão tomou conta da imperatriz que, além de tudo, estava sem dinheiro. Ela contraiu dívidas com comerciantes para dar conta de suas despesas enquanto dom Pedro I, sovina, regulava até a despensa da casa e a privava da mesada que seus familiares austríacos mandavam. Isso poderia explicar porque a imperatriz foi enterrada praticamente sem joias, apenas com um brinco simples e sem luxo, supostamente ornado por uma gota de resina, como mostrou a exumação. “Não dá para dizer qual é o material porque os exames ainda não foram concluídos”, ressalva a arqueóloga Valdirene. “E ainda que seja resina, há resinas caríssimas, como o âmbar.” Mesmo assim, surpreende a ausência de outras joias no caixão. “Onde estão as tiaras, os colares e as pulseiras que condizem com o status de imperatriz que ela tinha?”, questiona Maurício Vicente Ferreira Jr., do Museu Imperial de Petrópolis. “dona Leopoldina foi enterrada com o vestido que usou para a coroação do marido, é esperado que ele tenha sido desenhado com um conjuto de joias próprio, que, surpreendetemente, não está presente.”

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HOMENAGEM
Os corpos das três figuras históricas estão abrigados na cripta imperial
do Monumento à Independência, no parque da Independência, em São Paulo

As vestimentas do enterro de dom Pedro I também foram motivo de surpresa para os pesquisadores. Não havia qualquer comenda brasileira entre as seis encontradas nas roupas militares do imperador. “É preciso entender o contexto da morte dele”, diz o professor Paulo Jorge Fernandes, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. dom Pedro I morreu em Portugal como dom Pedro IV depois de se sair vitorioso de uma dura batalha contra o irmão tirano, dom Miguel. O foco estava na pátria-mãe. “É natural que ele ganhasse estas insígnias, não há desrespeito com a história brasileira”, afirma.

Para entender a divergência, convém separar a vida de dom Pedro I em três estágios distintos. O primeiro, em Portugal, como primogênito de dom João VI, o segundo, no Brasil, como imperador, e o terceiro, de volta a Portugal, como o rei soldado dom Pedro IV. Quando ele voltou a Portugal, sua vida havia mudado de tal maneira que ele já estava, inclusive, casado com sua segunda mulher, dona Amélia de Leuchtenberg, que também foi exumada da cripta do Monumento à Independência. Do caixão dela veio uma das maiores surpresas de toda operação: seu estado de conservação. Ela tinha pele, olhos, cílios e cabelo intactos. Em 1982, quando houve o traslado do seu corpo para o Brasil, foi constatado que ela estava preservada, mas sua localização na cripta era a pior, por isso, a expetativa era de grande deterioração.

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Curiosamente, dona Amélia queria um velório simples. “Em testamento, ela pediu, textualmente, para não ser autopsiada ou embalsamada”, afirma a pesquisadora Cláudia Thomé Witte, especialista na história da segunda mulher do imperador. Porém, o texto foi lido dois dias depois do enterro, na Ilha da Madeira, onde dona Amélia morava na época. Quem preparou seu corpo foi o médico Francisco Antônio Barral, também responsável por embalsamar a filha dela, Maria Amélia do Brasil, que morreu de tuberculose aos 21 anos em 1853. Na época, era comum europeus com a doença rumarem para ilha atrás de ar puro e repouso. Para o corpo da jovem, a imperatriz havia pedido o melhor método de embalsamamento da época, pois ela tinha intenção de velá-la por muito tempo – a cerimônia fúnebre durou impressionantes dois meses. E quando dona Amélia morre,u Francisco Barral decidiu usar na imperatriz a mesma técnica aplicada na infanta. O acaso ainda colocou dona Amélia no caixão e sarcófago mais bem fechados dos três que estão na cripta, o que criou uma situação ideal de preservação. Quando foi aberto, em 10 de agosto de 2012, o cheiro de cânfora dominou o ambiente, pois a substância era um dos principais ingredientes do embalsamamento.

Dona Amélia teve uma vida muito mais calma do que dona Leopoldina. Dom Pedro I, mais velho e consciente da dificuldade que seus assessores tiveram para lhe encontrar uma segunda mulher – sua fama de violento ainda dominava as cortes europeias e ele ouviu oito recusas, da Baviera ao Piemonte, até ser aceito –, foi amoroso e atencioso com a nova imperatriz. Para a pesquisadora Cláudia, isso explica o fato de dona Amélia ter guardado luto por 39 anos, até sua morte. Ela foi enterrada de preto.

Muitas outras interpretações ainda serão feitas a partir da pesquisa da arqueóloga Valdirene, apresentada como um projeto de mestrado no departamento de história da Universidade de São Paulo na semana passada. Novos dados também surgirão a partir da análise da montanha de informação acumulada pelas fotos e exames médicos desses três protagonistas da nossa história. A análise levará anos e ajudará a compor um perfil mais fiel da família imperial. Há muito trabalho por fazer e Valdirene Ambiel, 41 anos, pretende se encarregar de pelo menos parte dele em um doutorado. “São poucas as oportunidades que temos de mostrar ao grande público, de forma tão clara e direta, que a história não é uma verdade única e inquestionável, descansando em um livro”, diz a historiadora Maria Aparecida de Aquino. Estamos diante de uma delas.

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Colaboraram: Laura Daudén, Mariana Brugger e Juliana Tiraboschi
Montagem sobre de João Castelano/Ag. Istoé; Divulgação

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