Comportamento
|  N° Edição:  2251 |  04.Jan.13 - 21:00 |  Atualizado em 21.Ago.14 - 21:44

Missionários brasileiros no cárcere

A rotina dos pastores evangélicos responsáveis por projeto social no Senegal presos há dois meses acusados de aliciar menores

Laura Daudén

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Em 22 anos de trabalho missionário na África, o pastor presbiteriano José Dílson da Silva nunca havia passado por nada parecido. Nem mesmo durante a guerra civil de Guiné Bissau, onde viveu por 15 anos com a mulher e os três filhos, ele imaginou que sua atividade poderia lhe trazer tantos riscos: ele e a missionária Zeneide Moreira estão presos há dois meses na cidade senegalesa de Thiès, a 70 quilômetros da capital Dakar, acusados de formação de quadrilha, aliciamento e tráfico de menores. Os religiosos são responsáveis pelo projeto Obadias, financiado pela Agência Presbiteriana de Missões Transculturais, que dá abrigo, comida e ensino a 17 crianças e jovens de rua, muitos deles oriundos de escolas corânicas – os chamados talibês, estudantes islâmicos que são forçados por seus professores a mendigar nas ruas.

A grave acusação que recai sobre José Dílson e Zeneide partiu de Abdou Fall, pai de um dos meninos acolhidos, e sua versão foi reproduzida por meios de comunicação senegaleses. “Pastor brasileiro convertia crianças ao cristianismo”, dizia o título de uma matéria publicada na primeira página do tabloide “Le Populaire”, que qualificava a dupla como “diabólica”. O artigo, logo rebatido por um editorial no jornal “Sud Quotidien”, indicava que os brasileiros se encontram em meio a um delicado debate sobre o papel das missões cristãs em países majoritariamente muçulmanos. A prisão de José e Zeneide é tão impensável quanto “deter um ímã que prega às sextas-feiras para atrair o máximo de incrédulos às mesquitas”, diz o texto do “Sud”. No Senegal, 92% da população se declara sunita.

“Nós não queremos de maneira nenhuma desrespeitar a soberania dos lugares onde atuamos, mas, no momento, dependemos da leitura da pessoa que conduz o caso”, afirmou o reverendo Marcos Agripino, porta-voz da APTM. Essa pessoa é o juiz de instrução, que agora deve fazer uma sindicância para apurar os fatos. Ele deve colher o depoimento das crianças do projeto – que não foi interrompido – e averiguar as possíveis irregularidades.

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Segundo a assessoria de imprensa do Itamaraty, em 2011, quando o abrigo começou a ser construído na cidade de Mbour, José Dílson da Silva contratou um escritório de advocacia que deveria conseguir autorizações para a permanência dos internos junto ao juizado de menores. Acontece que o responsável por esse processo não era advogado e tampouco legalizou a situação das crianças atendidas pelo projeto. Agora, essa infração pode pesar contra os brasileiros. A investigação que determinará o futuro do caso pode levar até seis meses para ser concluída.

Enquanto aguardam, Silva e Zeneide tentam se acostumar à rotina na prisão de Thiès: cela compartilhada com 30 pessoas, sem janelas e espaço, passeios no pátio durante o dia, rápidas visitas de familiares e amigos duas vezes por semana e consultas regulares com dois médicos e um psicólogo. A saúde do pastor é a que requer mais cuidado. Ele é diabético, está fraco, com um dente quebrado e uma inflamação no ouvido. Segundo Agripino, o diretor do presídio se sensibilizou com a situação e permitiu que o religioso recebesse refeições preparadas por colegas missionários. Ele e Zeneide também foram autorizados a jantar com amigos e familiares no Natal e no Ano-Novo. “Foi muito melhor do que ver os fogos de artifício”, disse Jônatas da Silva, 21 anos, filho de Silva, em uma mensagem aos colegas da igreja. Segundo o pastor Josué Oliveira, da Igreja Presbiteriana Betânia de Niterói, de onde vem a família Silva, o missionário está empenhado em mudar as condições da cadeia. Prontificou-se a melhorar as condições de higiene da carceragem e mobilizou os presidiários para questões de saúde.

“O estado deles é muito bom, dentro das dificuldades”, afirmou Maria Elisa Teófilo de Luna, embaixadora do Brasil no Senegal. Ela diz que vem fazendo gestões para garantir que o processo ocorra da maneira mais rápida e justa possível. Uma comitiva formada pelo senador Magno Malta (PR-ES) e pelos deputados federais Ronaldo Fonseca (PR-DF) e Paulo Freire da Costa (PR-SP) também esteve no país no início de dezembro para cobrar agilidade da Justiça senegalesa e segurança para o trabalho missionário – uma questão que será cada vez mais preponderante para o Brasil. Segundo Todd Johnson, diretor do Centro de Estudos do Cristianismo da Universidade Gordon-Cowell, nos Estados Unidos, as igrejas do País estão cada vez mais conscientes do papel das missões. Um levantamento do Centro aponta que há mais de 34 mil missionários brasileiros no mundo – um número inferior somente ao de americanos, estimado em 127 mil. 

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