Dicionário
|  N° Edição:  1911 |  07.Jun.06 - 10:00 |  Atualizado em 21.Ago.14 - 21:17

O Aurélio dos gays

Lançado dicionário específico para o mundo gay, com 1,3 mil verbetes recolhidos em diversos países

Por Luiz Chagas

A palavra Aurélio não tem no Dicionário Aurélio. O mais próximo que se encontra é “aurelinense”, relativo à cidade baiana de Aurelino Leal. Já a expressão Aurélia consta do Aurélia, a dicionária da língua afiada, obra recém-lançada pela Editora da Bispa e que reúne 1,3 mil verbetes referentes ao mundo gay. Segundo esse dicionário, a palavra Aurélia significa, entre outras coisas, o homossexual que é muito eloqüente ou extremamente divertido. Escrito a quatro mãos (para lá de ferinas) que se autodenominam Fred Lib e Angelo Vip (acredita-se que o primeiro autor seja mera ficção), essa é a terceira publicação da editora. Segundo o jornalista paulista Vitor Angelo, verdadeiro nome de Angelo Vip, a idéia de fazer esse dicionário nasceu quando ele trabalhava em um site gay. A partir daí, e ao longo de dez anos, o autor conversou com amigos, entrevistou homossexuais e coletou uma infinidade de expressões que são usadas no Brasil. Não contente com isso e disposto a fazer mesmo uma Aurélia, ele partiu também em busca das palavras mais usadas em outros países. Resultado: o seu dicionário gay é, acima de tudo, uma obra divertidíssima e que ajuda a derrubar preconceitos.

Assim que a Dicionária foi anunciada, a família do dicionarista Aurélio Buarque de Holanda (falecido em 1989) e a editora Positivo (detentora da marca Aurélio) manifestaram o seu desagrado. Mas, segundo o jornalista Xico Sá, dono da Editora da Bispa, ele não foi até o momento comunicado pessoalmente e oficialmente desse fato. E os responsáveis pelo livro se consideram legalmente resguardados. “Trata-se de uma homenagem a um nome que se tornou sinônimo de dicionário”, diz Sá.

Angelo esclarece que não teve o menor pudor em se valer de expressões chulas ou ser considerado políticamente incorreto. “Desde o início”, diz ele, “ainda no site, nossa preocupação foi registrar o modo como as pessoas do chamado ‘mundinho’ se comunicam”. Na pesquisa que fez pelos países lusófonos, ou seja, que falam português, o autor constatou que muitos vocábulos, que são grafados e pronunciados exatamente da mesma maneira que no Brasil, possuem significados completamente diversos em outros lugares. São termos que foram desvirtuados de sua função original no dia-a-dia e ao se transformarem em gíria percorreram caminhos absolutamente díspares. Ocorrem casos em que a mesma palavra que aqui é utilizada para descrever particularidades referentes a sexo em Portugal é ligada ao consumo de drogas. Em comum, o que se nota é a ampla utilização de termos derivados de dialetos africanos, por questões óbvias e que devem remontar ao tráfico de escravos negros.

Lançada em São Paulo na semana passada, a obra será vendida (e promete ser muito bem vendida) na já tradicional Parada Gay programada para o dia 17 de junho. “Teremos go-go boys com o livro em tabuleiros, iguais àquelas garotas que vendem cigarros em filmes antigos”, diz Xico Sá. E ele pede para os gays: “aquendem-se”. Isso significa prestem atenção.




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