À prova de barbeiros
Cientistas criam carro que desvia de obstáculos sem a intervenção do motorista e dão passo decisivo para a chegada dos veículos que se dirigem sozinhos
Juliana Tiraboschi
Assista ao vídeo: O motorista acorda, se arruma, entra no carro e diz “toca para o escritório”. Enquanto o automóvel se desloca sem ninguém ao volante, o condutor toma um café, lê o jornal e checa os e-mails. Tudo isso sem riscos de acidentes ou multas. Esse roteiro deixará de ser ficção a partir do momento em que os veículos autônomos ocuparem as ruas. E os cientistas acabam de dar um passo gigante para que esse dia chegue o quanto antes. Mas, para que o carro autônomo se torne comercial, ainda vai levar um bom tempo. Antes é preciso desenvolver algumas tecnologias, baratear custos e promover melhorias nas estradas, como padronização na sinalização, principalmente das faixas que dividem as pistas. “Nos anos 1970, se um pneu estourava e a pessoa não tinha habilidade ao volante, ela capotava o carro”, diz o engenheiro mecânico Luiz Carlos Gertz, pesquisador e professor da Universidade Luterana do Brasil (RS). “Hoje, isso não acontece. Geralmente os acidentes ocorrem por falhas humanas, como excesso de velocidade, sono, falar ao celular, etc. O carro autônomo melhoraria muito a segurança”, afirma. 
DESPERTADOR
Sistema de montadora europeia monitora o sono do motorista e indica a hora de parar
Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) criaram um sistema capaz de fazer o carro desviar sozinho de um poste, por exemplo. O veículo é equipado com câmeras e um telêmetro (aparelho que mede distâncias) a laser, para identificar obstáculos. Também conta com GPS, acelerômetros e um giroscópio para avaliar o sentido de direção e a velocidade. O equipamento foi montado em dois veículos. Um tinha motorista. Outro, sem ninguém ao volante, foi desenvolvido com a empresa Quantum Signal. O sistema com motorista foi testado cerca de 1.200 vezes. Quando os condutores não foram assistidos pelo dispositivo, colidiram o veículo em 42% dos testes. Quando o sistema entrou em cena, o índice de batidas caiu para 9%. "Ou seja, eliminamos 79% das colisões", diz Sterling Anderson, doutorando no MIT e líder da pesquisa. Segundo o pesquisador, os erros foram causados por problemas nos sensores, que não eram de grande qualidade. "Com um orçamento maior, acreditamos que é possível alcançar os 100% de redução de acidentes", diz.
Até alguns anos atrás, as novidades mais bem-vindas na segurança automotiva eram os freios ABS e os airbags. Agora, a tendência é apostar em dispositivos “de para-choque”, ou seja, aqueles que evitam colisões, geralmente pela redução automática da velocidade. No futuro, a grande inovação será representada pelos sistemas de direção, ou seja, aqueles em que há a possibilidade de permitir que o veículo vire para um lado ou desvie de um objeto sozinho, como é o caso do experimento do MIT. O passo seguinte, então, será a automação total. O Google já criou um carro que se dirige sozinho. Em maio deste ano, a empresa conseguiu uma licença do Departamento de Trânsito do Estado de Nevada, a primeira dos EUA emitida para um carro que não precisa de motorista.
Mas tanta tecnologia para socorrer os barbeiros não pode deixar os motoristas mais relapsos, agressivos e excessivamente confiantes no poder de seu carro corrigir seus deslizes? “É verdade que novos dispositivos deixam as pessoas menos cuidadosas, mas isso não é razão para deixarmos de desenvolver sistemas que salvam vidas”, diz Sterling Anderson, do MIT. Ou seja, em vez de aprender com seus erros correndo o risco de se acidentar, os motoristas serão educados com luzes, sirenes, vibrações no banco ou tendo que se conformar em entregar o controle para alguém mais habilidoso ao volante: seu próprio carro.
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