Sociedade
|  N° Edição:  1788 |  14.Jan.04 - 10:00 |  Atualizado em 18.Abr.14 - 09:57

Os donos da festa

"Oi noites cariocas" é a nova aposta de Alexandre Accioly. Ele e outros jovens empresários dominam a balada do eixo-Rio-SP

Celina Côrtes e Sara Duarte Colaborou: Mariana Abreu Sodré

Ele apareceu na cena carioca em
2001, como namorado de Adriane Galisteu. Hoje, o nome do empresário carioca Alexandre Accioly, 41 anos, está ligado a grande parte dos eventos e festas mais comentadas do eixo Rio–São Paulo. A ele unem-se na balada outros jovens empresários bem-sucedidos, como Luiz André Calainho, 37 anos; os paulistas Luciano Huck, 31, João Paulo Diniz, 39, e Pedro Paulo Diniz, 33; o capixaba Marcus Buaiz, 26; e o pernambucano Edsá Sampaio, 40, que vivem na ponte aérea. Como uma teia, eles vão trançando as sociedades. E os nós são amarrados
com restaurantes, bares, estações de rádio e até com um hotel em Fernando
de Noronha. Um leque de atividades
que permite dizer, sem pestanejar, que esses rapazes são os reis da noite brasileira. Reis Midas, com o perdão do trocadilho.

A última novidade da turma foi a inauguração, na sexta-feira 9, da casa noturna Oi Noites Cariocas, no Morro da Urca, no Rio. Sob a batuta de Accioly e Calainho – sócios na produtora Q!Faz, que assina a direção artística do espaço –, a casa será um revival do Noites Cariocas, que agitou a capital fluminense nos anos 80. Antes, a moçada pegava o bondinho na madrugada para paquerar e dançar ao som de música nacional. Agora, o lugar volta com jeitão de século XXI: mais tecnologia, conforto e apenas 1,8 mil lugares, metade da capacidade da boate original. “É um lugar onde posso curtir as estrelas, dançar em pista aberta e ver ótimos shows”, exulta Accioly.

Nada mal para ele que não bebe, não usa drogas e não suporta
cheiro de cigarro. No entanto, parece movido a guaraná em pó. “Sou ‘ligado’ pela emoção”, explica. Tanto é que o empresário acabou de
fazer um cartão no qual assume sua verdadeira vocação: Accioly Empreendimentos e Entretenimento. O título pode ser traduzido em números: com um patrimônio de mais de US$ 10 milhões, o homem
que começou no ramo de telemarketing hoje tem 16 empresas e mais de 42 sócios. Na produtora de eventos Q!Faz, é parceiro de Luiz André Calainho e Luciano Huck. A empresa realiza festas para celebridades e festivais de música como o Skol Hip Hop Manifesta. Como investidor,
leva para o Rio de Janeiro templos da gastronomia, como os restaurantes Gero e Forneria, da família Fasano, ou revitaliza antigos símbolos de glamour da cidade, como o Clube Gourmet.

Elogios – Ricardo Amaral, há décadas conhecido como o rei da noite carioca, é só elogios para Accioly. Os dois são sócios no
Clube Gourmet, em Ipanema. “Ele tem as características do grande empreendedor. É preciso muito entusiasmo para uma atividade
tão adversa”, observa o mestre,
que da década de 70 ao início
da de 90 atuou na contramão do novo sócio. “Já levei marcas cariocas para São Paulo, como a boate Zum Zum. Mas, que eu me lembre, é a primeira vez que acontece o inverso”, analisa Amaral. Ele refere-se aos planos de Accioly de em breve levar para o Rio outras grifes gastronômicas paulistanas, como os restaurantes Kosushi e Rubaiyat.

A volta do Noites Cariocas tem um quê emblemático para Accioly. É que, com a reabertura da casa, ele realiza o antigo sonho de devolver o Morro da Urca ao centro da badalação carioca. Fundado em 1980, após o fechamento da boate Dancing Days, que funcionava no local, o primeiro Noites foi criado por Nelson Motta. Foram nove anos de badalação, com apresentações de mais de 200 bandas. “Era muito rock, funk e pop, batizados de ‘música pra-pular brasileira’”, lembra o respeitado produtor musical. Accioly, então adolescente, era um dos milhares de fãs que faziam fila para assistir aos shows de artistas como Paralamas do Sucesso e Lulu Santos.

Disposto a reviver o espírito da época, Accioly investiu US$ 3 milhões na recuperação do espaço. Também contratou Nelson Motta como consultor artístico, para manter a tradição de mesclar shows de grandes estrelas com os de novos talentos musicais. Já a concepção do novo conceito da casa noturna ficou a cargo de Luiz André Calainho. Diretor das rádios Jovem Pan Rio e Paradiso, é um dos profissionais mais gabaritados para organizar eventos que mobilizam a moçada endinheirada. Por sugestão dele, em vez de uma grande arena para um público de até quatro mil pessoas, como o Noites Cariocas original, a nova casa será um espaço intimista. Além de uma varanda ao ar livre, haverá um anfiteatro e um lounge com 80 almofadões. Tudo à luz de velas. A partir das 22h, o som ambiente será música suave (chill out). Os shows acontecerão da 0h à 1h30 e, a partir daí, o DJ Dom Pepe tocará músicas dos anos 70 a 90. Para aqueles com menos de 30 anos, haverá uma pista onde se pode dançar som contemporâneo.

Apesar de ter sido criado por dois cariocas, o novo Noites lembra o padrão Luciano Huck/João Paulo Diniz. A dupla representa a mais nova geração de jovens endinheirados a fazer história no ramo do entretenimento. Hoje mais conhecido como apresentador de tevê, Huck começou no métier em 1992. Então com 20 anos, pediu ao pai dinheiro emprestado para abrir o Cabral, uma casa noturna chique e moderna para reunir a turma. Tempos depois, com os amigos Marcos Campos, Pedro Paulo e João Paulo Diniz, inaugurou a boate Sirena, em Maresias, no litoral paulista, e o restaurante Ecco, um dos mais badalados do bairro dos Jardins. Com o tempo, sua atuação na mídia o levou a investir em atividades ligadas à comunicação, entre elas a sociedade com Accioly e Calainho nas rádios cariocas Jovem Pan e Paradiso e na produtora Q!Faz.

Foi por meio de Edsá Sampaio, empresário pernambucano radicado em São Paulo, que os reis da noite paulista conheceram seus correspondentes cariocas. Representante da indústria de bebidas australiana Flying Horse, Sampaio sempre circulou pelas melhores festas e restaurantes do eixo Rio–São Paulo. Tornou-se unha-e-carne dos irmãos Diniz e passou a frequentar com eles os melhores restaurantes e casas noturnas de Nova York, Ibiza e Saint-Tropez. “Certa vez, durante uma festa no iate (do ator americano) Sean Penn, eu percebi que fazer esse tipo de evento no Brasil poderia ser lucrativo”, lembra.

Energia – Em pouco tempo, Sampaio se tornava sócio dos Diniz. A primeira ação do trio foi criar o Flying Ice, uma variação teen do energético. Enquanto João Paulo seguia firme no propósito de investir
em alta gastronomia (é dono de 47% das ações da Casa Fasano), o caçula Pedro topou arriscar-se no ramo de eventos. O empresário capixaba Marcus Buaiz, herdeiro do Grupo Buaiz, conglomerado que
fatura R$ 600 milhões por ano com agricultura e comércio, acabou entrando de sócio. Nascia assim a Host, megaprodutora que realiza desde o Carnaval fora de época Recifolia a shows internacionais e festas fechadas para empresas. Para ter idéia do sucesso da empreitada, no Carnaval 2004 em Salvador, o Camarote Expresso 2222, antes gerido por Flora Gil, vai ser organizado pela Host.

Pelo menos entre esse ambicioso grupo de empresários, a eterna rivalidade entre paulistas e cariocas não existe. Foi Edsá Sampaio quem apresentou João Paulo Diniz a Alexandre Accioly. Assim, abriu caminho para que os restaurantes da Casa Fasano aportassem na capital fluminense. Esse encontro deu início a uma série de negócios.

Nos próximos anos, esse mesmo grupo de figurões ainda vai dar muito o que falar. Neste verão, por exemplo, eles abriram a luxuosa Pousada Maravilha, o primeiro hotel cinco estrelas de Fernando de Noronha (PE), onde a diária é de astronômicos R$ 1,3 mil. Depois do festival de black music, eles querem fazer o Trip Mix, voltado para o público infantil.
Até o fim deste ano, pretendem incluir o Brasil na rota de artistas internacionais como Sade, Diana Krall e Dido. Empolgado, Accioly ainda sonha construir minicampos de golfe e alguma forma de diversão para o público da terceira idade. “Se minhas idéias não derem certo, começo tudo de novo”, afirma.

Movimento dividido

O que era para ser a maior festa hip hop do País acabou virando
uma batalha. O festival Skol Hip Hop Manifesta, marcado para
os dias 9 e 10 em Florianópolis e no Rio de Janeiro, acirrou um velho conflito. Representantes do chamado “hip hop autêntico”, como os rappers cariocas MV Bill e Nega Gizza, jogaram areia nos festejos
dos organizadores, que esperavam vender 120 mil ingressos. Eles protestaram publicamente contra o “caráter comercial” do festival, com a exclusão de jovens da periferia pelos ingressos caros – R$ 40. O evento ainda enfrentou uma surpreendente decisão do prefeito do Rio, Cesar Maia (PFL), que anunciou o seu cancelamento, alegando falta de infra-estrutura. Em sua opinião, haveria risco à segurança do público e o trânsito em torno do Riocentro se tornaria um caos. Os organizadores, que disseram ter cumprido todos os requisitos, estavam dispostos a entrar na Justiça na quinta-feira 8.

Além do veto da prefeitura, choveram críticas à “exclusão social” supostamente promovida pelo evento. “Se os movimentos negros e o poder público não percebem o que estão fazendo com a vida dos jovens negros de periferia, é porque a guerra é inevitável”, bradou MV Bill. Marcelo D2, uma das atrações do festival, saiu em defesa da organização: “Com mais recursos, o hip hop pode ajudar as comunidades carentes.” Polêmica, nesse meio, é o que não falta. Muitos alegam que o movimento incentiva o uso de drogas e a violência. Snoop Doggy Dogg usa armas em clipes e já foi preso com cocaína.

Thiago Asmar

Ilha da fantasia

Outra empreitada conjunta de investidores paulistas e cariocas é a Isla Vivo, que promete bombar neste verão. Marcos Campos, proprietário da casa noturna Sirena, em Maresias, e ex-sócio de Luciano Huck, se uniu a Carlos Kalil, e aos cariocas Mário Bernardo Garnero e Rick Amaral, filho de Ricardo Amaral, para transformar a Ilha de Mandala – em frente ao condomínio do Frade, em Angra dos Reis – numa verdadeira ilha da fantasia. Com patrocínio da operadora de telefonia celular Vivo, que investiu R$ 200 mil no negócio, o lugar funciona praticamente 24 horas. Durante o dia, os visitantes desfrutam de atividades esportivas e de um spa com massagens, tratamentos de beleza e banhos. À noite, o local vira uma grande casa noturna, que ferve ao som de música eletrônica. A ilha vai funcionar até o Carnaval. Depois, deve abrir nos feriados. “Nas sete noites que funcionamos, o público foi superior a 17 mil no total”, comemora Luiz Avelar, vice-presidente de marketing da Vivo. Os preços variam, mas o ingresso na boate é de R$ 30 para os homens e R$ 20 para mulheres.

 




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