Ser ou não ser
O tucano José Serra tem muito a perder se deixar o governo paulista e só entrará na briga nacional se conseguir fazer da campanha uma disputa entre ele e Dilma e não entre FHC e Lula
Mário Simas Filho
Nas duas últimas décadas o País respira democracia e, dentre outras coisas, a sucessão de eleições diretas ensinou aos brasileiros que muitas vezes os candidatos que partem para a disputa eleitoral com larga vantagem tendem a perder votos no meio do caminho. Foi assim Mas é inegável que os números indicam uma consistente queda do governador de São Paulo”, explica Clésio Andrade, presidente da CNT. As pesquisas apontam que no mesmo período a candidata do presidente Lula, ministra Dilma Rousseff, saltou de 16,4% para 21,7% e que o também tucano Aécio Neves, que até o fim do ano passado beirava os 10%, hoje contaria com 20,7%. “A essa altura as pesquisas revelam muito mais a exposição das pessoas do que a intenção de votos”, disse Serra. Os números apresentados na última semana, no entanto, tiveram efeito estufa e elevaram a temperatura no PSDB e no DEM, aliado histórico e incondicional dos tucanos. Na verdade, a pesquisa confirmou alguns dados de levantamentos encomendados pelos dois partidos. “Estamos perdendo terreno porque o PSDB precisa definir logo seu candidato e colocar o bloco na rua”, disse o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), a líderes do PSDB dias antes da divulgação da pesquisa CNT-Sensus. “O governo está construindo aliados ao redor da ministra Dilma e nós estamos olhando a banda passar”, completou o deputado. Na direção do PSDB a avaliação é a mesma. Em reunião ocorrida há cerca de 20 dias, o senador Sérgio Guerra (PSDB-PE), presidente nacional do partido, engrossou o discurso do DEM e alertou os tucanos de que não dá para esperar mais. Também o governador mineiro Aécio Neves cobra uma rápida definição de Serra e promete deixar a disputa nacional caso o paulista não se defina este mês. “Janeiro poderá ser tarde demais para construir uma candidatura que vá além de PSDB, DEM e PPS”, afirmou Aécio na mesma reunião. Ele sabe que é o único nome tucano capaz de trazer para o mesmo campo setores do PMDB e o PSB do deputado Ciro Gomes. “O Brasil precisa de uma nova convergência política e isso precisa começar a ser edificado”, disse Aécio na quinta-feira 26. O problema tucano é que Serra está de fato diante de uma decisão difícil. Ser ou não ser candidato à Presidência da República é uma questão que vai além da vontade política do governador. Serra tem uma reeleição assegurada e sabe, dado o calendário de obras a inaugurar e outras a serem licitadas, que poderá terminar um eventual segundo mandato à frente do governo paulista, com 76 anos de idade, como o melhor governador da história do maior Estado do País. Portanto, Serra tem muito a perder caso embarque na disputa nacional e não saia dela vitorioso. “Se Serra perde a Presidência, o quadro mais provável é que Geraldo Alckmin (por quem Serra não morre de amores) se eleja em São Paulo e Aécio Neves se torne o principal porta-voz do partido e da oposição no Senado. Isso tiraria de Serra o poder de influir politicamente, inclusive no PSDB”, avalia um secretário do governo paulista. No Palácio dos Bandeirantes, o governador e seus principais conselheiros trabalham com algumas pesquisas qualitativas. São essas consultas que irão pautar a decisão do governador. Elas mostram que Serra tem grandes chances de vencer a disputa nacional, caso consiga conduzir a campanha para um debate entre ele e Dilma e não a uma comparação entre os governos de Lula e de Fernando Henrique Cardoso, estratégia usada até agora pelo PT. As pesquisas em poder dos serristas mostram que a eleição plebiscitária apenas fortaleceria Dilma Rousseff e que a única maneira de reverter o crescimento da candidatura da ministra seria levar o debate para uma comparação entre as biografias dos dois candidatos. Diante do dilema shakespeariano e da pressão exercida pelo partido e por aliados, Serra decidiu colocar a campanha na rua, mesmo sem declarar a candidatura. Nos últimos dias, iniciou uma maratona pela mídia, participando de diversos programas populares de rádio e tevê, como o de Ratinho, no SBT, na terça-feira 24, e no “SuperPop”, da apresentadora Luciana Gimenez, na Rede TV!, que foi ao ar na noite da quinta-feira 26. Fez dessa minimaratona uma espécie de laboratório, sempre acompanhado por pesquisas para analisar o comportamento do telespectador/ eleitor. Em todas as suas aparições, Serra não se colocou oficialmente como candidato, mas procurou tirar do debate o caráter plebiscitário adotado pela campanha de Dilma. Fez o discurso de que o eleitor precisa comparar as biografias dos candidatos antes de se definir. “O eleitor deve ter clareza de qual é o candidato melhor preparado, com mais história política e administrativa”, disse Serra, na Rede TV!, minutos antes de lembrar seus feitos como ministro da Saúde. O governador evitou qualquer polêmica com o governo Lula, afirmou em rádios do Nordeste que programas como o Bolsa Família precisam ser mantidos e evitou discutir temas como estabilidade econômica e crescimento. Nos próximos dias o governador paulista planeja intensificar sua presença na mídia e cada aparição será avaliada por pesquisas qualitativas. Se essas pesquisas apontarem que existe a possibilidade de a campanha ser conduzida para um debate entre ele e Dilma, aí sim o governador se declarará candidato a presidente. Do contrário, já avisou a alguns assessores que continuará a inaugurar obras e mais obras em São Paulo. Um dirigente nacional do PSDB ouvido por ISTOÉ na quinta-feira 26 afirmou que nos próximos dez dias Serra irá analisar as pesquisas qualitativas e tomar sua decisão. Nessa maratona de mídia e de eventos públicos, o governador tem o desafio de tentar pautar um novo caminho para a campanha. De acordo com a pesquisa CNT-Sensus, 51,7% do eleitorado admite votar em um candidato apoiado por Lula e apenas 16% se recusam a isso. No entanto, somente 17,2% dos eleitores admitem votar em um candidato apoiado por FHC e 49,3% não votariam no candidato do ex-presidente. Ou seja, em sua corrida pré-eleitoral, Serra precisa ter indicativos de que poderá convencer o eleitor de que não é o candidato de Fernando Henrique contra Lula, mas o candidato do PSDB contra a Dilma do PT.
PRESSIONADO Tanto o PSDB como o DEM cobram uma definição de Serra, mas o governador vai esperar suas próprias pesquisas
com Leonel Brizola em 1989, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em duas ocasiões e mais recentemente com Geraldo Alckmin e Marta Suplicy em São Paulo. A considerar as últimas pesquisas de intenção de votos para a sucessão de Lula em 2010, o fenômeno parece se repetir. Segundo levantamento da CNT-Sensus, o governador paulista, José Serra (PSDB), précandidato a presidente desde 2006, contava com 46,5% das intenções de voto em dezembro do ano passado e, na última semana, esse índice despencou para 31,8%. “É evidente que as pesquisas tratavam de cenários diferentes, pois hoje temos candidaturas que ainda não se colocavam no fim do ano passado.

Novas Alianças Aécio Neves cresce nas pesquisas, amplia a aliança dos tucanos e defende nova convergência política
Fernando Urbano
EM 03/12/2009 17:11:27
Parabéns pela matéria. Matérias assim, sobre o andamento do tabuleiro político do momento me agradam bastante.
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