Política
|  N° Edição:  1883 |  16.Nov.05 - 10:00 |  Atualizado em 17.Dez.14 - 16:45

A volta do fogo amigo

Mais enfraquecido, Palocci vira o novo alvo das CPIs e volta a enfrentar disparos dos aliados

Donizete Arruda e Luiz Cláudio Cunha

A equipe titular do técnico Luiz Inácio Lula da Silva começou a jogar duro. Passou a distribuir botinada e, pior ainda, começou a dar canelada no craque do próprio time. Desde a saída do “capitão”, o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, a reconhecida estrela do time é o camisa 10 da Fazenda, Antônio Palocci. Na quarta-feira 9, até ele entrou na pancadaria: levou uma rasteira de uma página no jornal O Estado de S.Paulo da nova “capitã” Dilma Rousseff, que classificou de “rudimentar” o plano de ajuste fiscal da equipe. Disse que Lula desconhecia o plano e chamou de “grotesca” a versão de que investimento é bom e despesa é ruim: “Despesa corrente é vida. Ou você proíbe o povo de nascer, de morrer, de comer ou de adoecer ou vai ter despesas correntes”, declarou a ministra.

O jogo bruto entre os craques de Lula reabriu a idéia de que o governo enfrenta adversários que vestem a mesma camisa. Uma faceta não exclusiva de petistas. No governo anterior ficou marcada a enorme disputa que opunha desenvolvimentistas e monetaristas, esses últimos representados pelo então ministro Pedro Malan. Mas, na semana passada, pela primeira vez desde o início da gestão Lula, correu a Esplanada a versão de que Palocci poderia pendurar as chuteiras – e, para surpresa da torcida, não parecia uma hipótese assustadora, nem para a oposição nem para o governo, que já tem no banco, pronto para entrar, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Murilo Portugal. O vice-presidente José Alencar, que adora dar canelada em Palocci, entrou em campo e escancarou sua preferência: “Por força de minha experiência, dou razão à ministra Dilma”, declarou, fazendo coro com o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP).

O bombardeio concentrado, no mesmo dia em que dois ex-assessores de Palocci na Prefeitura de Ribeirão Preto – Rogério Buratti e Vladimir Poleto – jogavam lenha na fogueira da CPI dos Bingos, em Brasília, obrigou o técnico a impor disciplina no time: Lula cancelou uma viagem ao Espírito Santo e à Bahia para reunir na Granja do Torto, em audiências separadas, Dilma e Palocci. E deu instruções claras para acabar com a brigalhada. Pelo menos em público. Era forte o boato de que o ministro da Fazenda estava prestes a pedir demissão. “Estou cansado”, reclamou Palocci a um amigo, argumentando que precisa cumprir uma “dupla jornada”, puxando a rédea da economia em meio a uma turbulência política que aperta o cerco em torno do presidente e dele próprio. Afinal, Buratti confirmou na CPI que Palocci, segundo um ex-secretário de Ribeirão Preto, havia pedido informações sobre como trazer dinheiro de Cuba. E apimentou seu depoimento, dizendo que o então coordenador da campanha presidencial de Lula em 2002, Palocci, sabia de uma doação de R$ 1 milhão ao PT feita por empresários de bingos. Para piorar o inferno de Palocci, a CPI dos Bingos aprovou na quinta-feira 10 a convocação de Ademirson Ariovaldo da Silva, o dedicado assessor especial que carrega o telefone celular do ministro Palocci. Foi para este telefone que o ex-assessor Poleto, o suposto mala-preta dos dólares suspeitos de Cuba, ligou cerca de 1.400 vezes. “Se insistirem em envolver minha família e meus assessores fiéis, eu vou embora”, avisou Palocci a Lula.

Para escapar do tiro certo da CPI, Palocci manobrou para jogar, burocraticamente, no dia 22 no campo menos adverso da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. Mas não deixou de levar uma cotovelada de outro aliado, que joga com a camiseta de presidente do Congresso: “Palocci tem que vir o mais rápido possível. Não pode haver dúvidas em relação ao ministro da Fazenda”, disparou o senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Furioso com o tratamento que a Fazenda dá ao time do PMDB, Renan recusou por três vezes atender telefonemas de Palocci, depois do puxão de orelhas. No caldeirão de intrigas que entornou o PT, borbulha a suspeita de que o próprio Lula teria estimulado Dilma a bater, irritado com a dureza de uma política fiscal que atingiu sua meta quatro meses antes do prazo acertado com o FMI. Na madrugada de quinta-feira, o governo conseguiu reduzir o fogo inimigo: jogou duro com os deputados e abortou pela diferença de um único voto a prorrogação da CPI dos Correios, que acabaria em dezembro. Na manhã da sexta-feira, porém, a oposição virou o jogo. Pediu recontagem dos votos e, terminada a apuração, veio a péssima notícia para o Planalto: a CPI foi prorrogada até abril, seis meses antes da eleição.




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