Brasil
|  N° Edição:  2089 |  25.Nov.09 - 00:00 |  Atualizado em 24.Mai.12 - 17:44

Os candidatos e seus monumentos

Todo político brasileiro aposta em uma grande obra como cartão de visita eleitoral. Mas será que essa estratégia ainda funciona?

Jorge Felix

Por que os políticos brasileiros apostam tanto em obras? O desabamento das vigas do Rodoanel, a gigantesca via em torno de São Paulo, na sexta-feira 13, impõe esta questão com sua inevitável repercussão política. Desde a década de 1960, quando o presidente Juscelino Kubitschek obteve sucesso com a construção de Brasília e pretendia assim voltar ao poder, esta estratégia passou a ser reforçada pelos candidatos a cargos majoritários em todo o Brasil e grandes obras sempre foram atreladas à agenda eleitoral. Em meio século, muita coisa mudou no País.

Duas deficiências brasileiras, no entanto, estimulam os políticos a manter essa anacrônica tática eleitoral. Uma delas é o persistente alto índice de analfabetismo, acima dos 11%, o terceiro maior da América Latina. O segundo é que, mesmo com tantas obras, a população brasileira também é a que amarga uma das menores coberturas de saneamento básico do continente. Isso significa dizer que, em todo o território nacional, as obras que precisam ser feitas, até agora, são desprezadas porque dutos subterrâneos ninguém vê. A outra conclusão é que, para o perfil do nosso eleitorado, as grandes obras são a linguagem mais facilmente compreendida, sobretudo pela população de baixa renda.

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VIGAS AO CHÃO Serra visita o local do acidente no Rodoanel de São Paulo: receio de impacto eleitoral

“As obras públicas estão num melhor alcance da sociedade e são mais comentadas. Entram logo no cálculo de avaliação da gestão pública”, lembra Luciana Fernandes Veiga, cientista política da Universidade Federal do Paraná. A menos de um ano da eleição, quando serão escolhidos presidente e governadores, em todo o País, há exemplos de candidatos mais preocupados em erguer monumentos do que em estabelecer alicerces de uma política de longo prazo, com planejamento, capaz de atender às imensas demandas sociais da população.

É legítimo o eleitor se perguntar por que um político brasileiro jamais elege como bandeira, por exemplo, um programa de segurança como o Tolerância Zero” adotado em Nova York pelo prefeito Rudolph Giuliani. “O político aposta na construção de obras públicas pois considera que, por melhorar a vida das pessoas, possa ter um retorno positivo na percepção do eleitorado”, afirma Luciana.

O resultado desta obsessão por obras é, muitas vezes, uma inversão de prioridades para atender a interesses políticos. Um dos símbolos dessa cultura é o atual deputado Paulo Maluf (PP-SP), que colou em sua biografia a imagem do tocador de obras.

A despeito de a participação do poder público no setor de construção ser fundamental para a economia, principalmente em um Estado como São Paulo, as obras de Maluf ofuscaram o lado social de suas primeiras gestões de prefeito e governador. Apenas na década de 1990, quando retornou ao poder eleito diretamente, Maluf percebeu que seu perfil carecia de programas como o Leve Leite ou o PAS, na área de saúde. Mesmo do ponto de vista eleitoral, a aposta em obras contém alto risco.

O acidente do Rodoanel arranha a imagem do governador José Serra (PSDB), provável pré-candidato a presidente ou à reeleição, e pode frustrar também os planos do governo federal. A ideia no Palácio do Planalto era faturar a inauguração da obra a favor da candidatura da ministra Dilma Rousseff (PT). Há algumas semanas, em horário nobre da televisão, foram veiculados anúncios dos governos federal e estadual destacando a participação de cada um na construção do Rodoanel. Depois do acidente, o duelo midiático sobre a responsabilidade da obra saiu do ar.

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O temor do PT e do PSDB é que o incidente traga impacto negativo semelhante ao sofrido pela ex-prefeita Marta Suplicy na campanha da reeleição em 2004. No último ano de governo, Marta acelerou a construção de dois túneis que foram inundados pelas chuvas de primavera a poucas semanas da eleição. Embora tenha criado vários projetos sociais, o que ganhou mais visibilidade foram os carros debaixo d’água dentro de suas duas grandes obras, amplamente propagadas na campanha. Afinal de contas, havia a certeza de que essa estratégia sempre dava certo. 

Colaborou Larissa Domingos

 




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