Comportamento
|  N° Edição:  2169 |  04.Jun.11 - 09:00 |  Atualizado em 18.Abr.14 - 13:07

Rio, uma cidade em transformação

Impulsionada pela Copa e pela Olimpíada, a cidade vira um canteiro de obras, vive boom imobiliário, recebe recordes de investimento e resgata o orgulho carioca

Francisco Alves Filho, Solange Azevedo e Wilson Aquino

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HOJE
O Rio comemora queda nos índices de violência e obras de modernização

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ONTEM
Arrastão na praia na zona sul em 2009: população com medo

Quem chega ao Rio de Janeiro pelo aeroporto internacional Tom Jobim, na Ilha do Governador, e segue pela Linha Vermelha em direção ao centro da cidade, não demora a se espantar. A poucos quilômetros de distância, centenas de trabalhadores erguem uma gigantesca ponte estaiada – ainda um esqueleto, mas já candidata a novo cartão- postal carioca. Roda-se mais um pouco e, se o destino for a zona sul, o visitante passa ao largo do Sambódromo, onde um antigo prédio de camarotes acaba de ir abaixo para dar lugar a novas arquibancadas para o próximo Carnaval. Ou, prosseguindo rumo ao centro, cruza-se a zona portuária, em que velhos armazéns retomam a vida com badalados eventos como o Fashion Rio e a Primavera de Livros, que será totalmente revigorada. Em direção à zona norte, encontra-se o Maracanã, segundo ponto turístico mais visitado do Rio (atrás apenas do Corcovado), hoje totalmente em obras. Deverá ser reinaugurado, belo e moderno, antes da Copa das Confederações, em 2013.

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INDÚSTRIA NAVAL
Funcionários no estaleiro Ilha S.A.: setor reativado

Seja qual for o caminho a seguir, é fácil constatar: o Rio é uma cidade em transformação. Entre suas tão cantadas praias e montanhas, uma sucessão de construções começa a modificar substancialmente sua cara, sem tirar seu charme. No centro e na Barra da Tijuca, nova fronteira do metrô, prédios inteligentes e luxuosos brotam. Também na área menos rica da cidade, a zona norte, há muitos edifícios residenciais sendo erguidos, além de megaobras de infraestrutura como a Transcarioca, via que ligará o Aeroporto Tom Jobim à Barra, passando por nove bairros. Dezenas de novos hotéis estão sendo construídos ou passam por reforma, como o tradicional Hotel Glória. Tantas intervenções urbanas misturam à paisagem tapumes e obras pontuais que, ao final, descortinarão um Rio diferente, que já aparece nos radares de instituições respeitadas em todo o mundo.

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MARACANÃ
Reforma de R$ 1 bilhão do estádio emprega 800 trabalhadores

O atual cenário carioca confirma, por exemplo, as informações da última edição do “Global Metro Monitor”, publicação da prestigiada London School of  Economics e da Brookings Institution. De acordo com o estudo, o Rio é hoje uma das dez metrópoles mais dinâmicas do mundo. Entre 150 delas, foi a que melhor reagiu diante da recente crise econômica, em itens como “geração de emprego” e “aumento da renda”. “Todo dia, toda hora, tem empresas, CEOs, donos, acionistas, bancos, visitando o Rio, prospectando. A cidade entrou na página da globalização de uma forma muito intensa”, diz o governador Sérgio Cabral. “Certamente, é a cidade da América Latina mais visível, com maior destaque hoje no mundo.” Segundo ele, R$ 240 bilhões serão injetados na economia do Estado até 2020, boa parte na capital – mais da metade disso nos próximos quatro anos.

Levando-se em conta os investimentos previstos nesta década, o Estado pode ser visto como a terra de oportunidades. Haverá injeção de recursos em setores como petróleo, siderurgia, telecomunicações, infraestrutura urbana e indústria naval e náutica, entre outros. A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) comparou o volume de dinheiro que será aplicado com a dimensão territorial do Rio. O resultado é impressionante: mais de R$ 4 milhões por quilômetro quadrado. Juntos, os projetos deverão gerar pelo menos 104 mil postos de trabalho, em diversas regiões fluminenses. “A distribuição de renda vai causar grande impacto social em função da geração de empregos”, afirma o economista Roberto Simonard, da Universidade Candido Mendes.

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EXPANSÃO
A Barra (abaixo) tem mais ofertas residenciais. No centro, profusão de torres comerciais

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Os recursos dos investimentos abrem mercados e financiam as mudanças. Mas não explicam sozinhos o momento único de resgate na imagem e na auto-estima da cidade. Um impulso fundamental foi a escolha do Rio para receber a Olimpíada de 2016 e, em escala menor, ser o mais importante centro da Copa do Mundo de 2014. Para sediar o maior evento esportivo do planeta, a cidade fará de uma só vez importantes obras de infraestrutura, que irão transformá-la rapidamente e podem deixar um precioso legado para a população. O caso da zona portuária é emblemático. Desvalorizada e abandonada, era uma cicatriz de miséria estrategicamente posicionada junto ao centro. Escolhida pelo comitê organizador da Olimpíada para receber uma série de instalações para os jogos, voltou ao mapa da prosperidade. Receberá o Museu do Amanhã, projeto de R$ 130 milhões desenhado pelo premiado arquiteto espanhol Santiago Calatrava. E despertou o apetite de empreendedores, interessados em lucrar com a transformação da região em um efervescente destino turístico. Somente este ano, por exemplo, a prefeitura da cidade recebeu 43 vezes mais pedidos de abertura de novos negócios na região que em 2010.

Claro que ainda há grandes desafios e problemas (leia quadro à pág. 82) para ser enfrentados. A educação pública, a rede de saúde e o trânsito caótico são alguns que aguardam soluções definitivas e urgentes. A diferença é que, agora, as perspectivas de realização parecem reais. O Centro de Operações Rio, inaugurado no início do ano, é uma das ações nesse sentido. Através de um gigantesco telão com imagens geradas por cerca de 500 câmeras espalhadas por vários bairros, é possível ajudar no fluxo de trânsito e providenciar soluções para problemas de rotina, como o abastecimento de energia e gás.

O setor de hotelaria é um que corre contra o tempo para atender às demandas. Há uma série de eventos previstos até 2012, como os Jogos Mundiais Militares, o Congresso Mundial de Art Déco, o maior congresso de transportes da América Latina, o campeonato de Ultimate Fighting e a conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável. É preciso hospedar todos esses visitantes. “Temos cerca de 30 mil quartos na cidade atualmente. A meta é construirmos 4.500 novos quartos até a Copa e outros 5.500 até a Olimpíada”, afirma Alfredo Lopes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro. “Praticamente todo o parque hoteleiro do Rio está sofrendo intervenções. Quatro mil quartos de motéis estão sendo reformados e adaptados para funcionar como hotéis econômicos.” A rede hoteleira do Estado deve receber R$ 1,4 bilhões até 2014, com a inauguração de 36 novos hotéis, 17 deles na capital. É um investimento necessário. A temporada de 2010 foi a de maior fluxo de visitantes internacionais em cinco anos – gerou impacto econômico de mais de US$ 2 bilhões.

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EXPECTATIVA
Clarisse Menezes (à esq.), Jade Barbosa e Flávio Canto à espera da Olimpíada

Os turistas chegam atraídos pelas boas-novas que ecoam mundo afora. A transformação que mais repercutiu até agora certamente é a da paz. O que parecia impossível alguns anos atrás vem acontecendo aos poucos: a retomada, pelo Estado, de regiões dominadas pelo tráfico. Em novembro de 2008, a favela Dona Marta, em Botafogo, na zona sul, foi a primeira a receber o novo projeto de policiamento idealizado pelo secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), baseado na moderna ideia de policiamento comunitário permanente nas comunidades carentes. “Hoje, posso deixar minhas meninas correrem livres pelo morro. O movimento do boteco aumentou, já que os moradores do asfalto não têm mais medo de subir aqui”, conta o cearense José Bonfim, 41 anos, o Zequinha, dono de um bar no Dona Marta, onde mora desde 2001. A área de influência das UPPs já atinge 300 mil pessoas em 17 favelas. E o efeito é amplamente sentido nas estatísticas da violência. As mortes por arma de fogo de quem chega aos hospitais, por exemplo, caíram quase 42% entre 2009 e 2010 (leia quadro na pág. 80).

O ruído dos tiros deu lugar ao das máquinas. Juntamente com o Estado, a infraestrutura sobe os morros, melhorando a condição de vida dos moradores, antes ameaçados também pela carência de tudo, do saneamento ao transporte, ou pelo risco de desabamento de suas casas nas temporadas de chuvas. Em 2010, dezenas de pessoas morreram soterradas na cidade após temporais. A reação do poder público foi instalar um sistema de monitoramento do clima e de alarmes, que disparam antes da chegada dos pés d’água. Este ano, sirenes foram ouvidas em 21 comunidades, avisando quem estava em zonas de risco para deixar suas casas e seguir para abrigos.

Do ponto de vista econômico, a consequência imediata foi a valorização dos imóveis localizados próximos a favelas com UPPs. Alguns chegaram a dobrar de valor. O boom imobiliário é generalizado. Na zona sul, região que concentra os bairros mais chiques e onde houve maior valorização dos imóveis nos últimos tempos, os preços atingiram cifras astronômicas, até R$ 40 mil por metro quadrado, e já ultrapassaram os dos pontos mais luxuosos de Miami (leia quadro à pág. 80). Nas áreas mais concorridas do Rio está tão difícil alugar que os corretores são comparados a celebridades. A escassez de bons terrenos na zona sul, no entanto, empurrou os novos lançamentos para outras áreas. A Barra da Tijuca e Jacarepaguá, na zona oeste, são as regiões onde mais se constrói.

Entre o canteiro de obras no qual o Rio se transformou, a reforma do Maracanã é das que mais chamam a atenção. O estádio construído para a Copa de 1950 está sendo totalmente reformulado. O custo elevado, de quase R$ 1 bilhão, recebeu críticas. O governador Cabral, porém, alega que a substituição de toda a cobertura não estava prevista no projeto original, mas era urgente, pois colocava em risco a segurança dos frequentadores. Ele tentará amenizar o valor através de concessões à iniciativa privada. “Vou levantar um dinheiro bacana que até compense a obra”, promete. Acostumado a frequentar o Maracanã como torcedor do Flamengo, o paraibano Edwin de Paula, 42 anos, sente orgulho de estar trabalhando como montador na obra do estádio. “Quando ficar pronto, vou trazer minhas filhas para as arquibancadas e dizer orgulhoso a elas: eu ajudei a fazer.”

O orgulho, aliás, é, hoje, uma marca do carioca. O judoca Flávio Canto espera conseguir a classificação disputando a Olimpíada na terra natal. “Seria uma emoção imensa lutar por medalha tendo o apoio da torcida brasileira, no Rio”, diz. Na opinião dele, já há um pré-legado da Olimpíada, que é o resgate da autoestima. “Acredito que essa experiência será bem melhor que a do Jogos Pan-Americanos (2007)”, diz. A herança do Pan é controversa. A vila residencial construída para os atletas e, depois, vendida ao público, apresenta vários problemas estruturais. Mas Canto está otimista: “A ideia não é usar a cidade para fazer a Olimpíada, mas usar a Olimpíada para transformar a cidade”.
Mineiro muito carioca, o empresário Eike Batista decidiu investir generosamente na cidade onde mora – cerca de R$ 800 milhões até agora, segundo ele. Homem mais rico do Brasil, ele tem projetos diversificados. Doa R$ 20 milhões anuais para as UPPs. A recuperação ambiental da Lagoa é uma causa abraçada por sua empresa, a EBX. “Eu corro em volto da Lagoa, moro nesta cidade, um dia pensei: vou limpar esse negócio”, disse à ISTOÉ. “Por mês, gasto R$ 60 mil só com dragagem.” Um dos projetos mais ambiciosos é a revitalização da Marina da Glória, que começa em 2012. O investimento é de cerca de R$ 200 milhões. A Marina vai receber as competições de vela da Olímpíada de 2016. As doações estão dentro dos ensinamentos passados pela mãe, a alemã Jutta: “Não tem graça ser pavão sozinho. Se você alcança o sucesso, tem de ajudar a comunidade onde vive.”

E as perspectivas para o Estado são boas. O secretário de Desenvolvimento estadual, Júlio Bueno, estima que mais de 50 mil empresas devem ser abertas no Rio em 2011, contra 41 mil em 2010. “As que querem se instalar no parque tecnológico do Fundão, por exemplo, são tantas que tem empresário que me liga fazendo lobby para arrumar um pedaço de terra ali”, diz ele. Uma gigante que conseguiu um espaço é a multinacional General Electric (GE), que há alguns anos se viu obrigada a fechar uma fábrica vizinha à favela do Jacarezinho, uma das mais violentas. Agora, vai injetar R$ 240 milhões para instalar um centro de pesquisa. “A questão da segurança pesou na decisão”, disse Daniel Meniuk, líder das operações da GE no Rio.

 Os maiores investimentos vêm da Petrobras. A companhia de petróleo, que em 57 anos de existência investiu no Estado cerca de R$ 350 bilhões, despejará, até 2014, R$ 172 bilhões junto com parceiros. Ou seja: em quatro anos, quase a metade do investido em mais de 50. O valor dos recursos a ser aplicados pela Petrobras no Rio corresponde a 41,5% dos investimentos da empresa para todo o País. Na casa dos milhões, a lista é enorme. Maior empresa brasileira na venda de porta em porta, com 600 mil consultores, a Hermes vai construir dois centros de distribuição no Estado, ao custo de R$ 350 milhões. “E vamos aumentar em 30%, pelo menos, o número de empregados no Rio”, diz o presidente Gustavo Bach. A João Fortes Engenharia fará este ano 24 lançamentos imobiliários no País, sendo dez no Rio. Um deles, o shopping center Park Lagos, em Cabo Frio, ao custo de R$ 130 milhões. “Os olhos do mundo estão voltados para o Brasil, com atenção especial para o Rio de Janeiro”, acredita Francisco de Almeida e Silva, presidente da João Fortes. Por isso, é tempo de o Rio reencontrar sua vocação para protagonista.

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Colaboraram: Eliane Lobato e Michel Alecrim 

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