Viagem afetiva
David Lynch troca seu estilo bizarro por uma narrativa simples e comovente
Celso Fonseca
Ao longo de sua polêmica carreira de cineasta, David Lynch tornou-se um notório investigador das mais recônditas perversões humanas. Notabilizou-se por filmes estranhos e incômodos como Veludo azul, Twin Peaks ou Coração selvagem até aprimorar-se no bizarro A estrada perdida. História real (The straight story, Estados Unidos, 1999) – em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro na sexta-feira 18 – representa uma mudança radical no estilo escandaloso do diretor, que é um dos fortes concorrentes ao Oscar de 2002 com Mulholland drive, filme com o qual volta à sua antiga linha de filmagem. Em História real é como se ele não focasse mais a doença americana e sim a sua cura. Espécie de roadie movie da terceira idade, o filme emociona ao desvendar um país cordial e solidário. Lynch reconta a saga verdadeira de Alvin Straight, notavelmente interpretado pelo veterano Richard Farnsworth, que ganhou uma indicação ao Oscar de 2000 e se suicidou no ano passado, depois de padecer de um câncer. O canto do cisne de Farnsworth não poderia ser mais digno ao emprestar uma grandeza homérica à viagem feita em 1994 por Straight, na época com 73 anos, em busca da reconciliação com o irmão doente. O percurso de 700 quilômetros realizado pelo ex-combatente da Segunda Guerra – que não enxergava bem e usava duas bengalas – foi feito num pequeno trator, que alcança apenas sete quilômetros horários. O trajeto de seis semanas é revivido de forma comovente numa aventura obviamente penosa e recheada de grandes ensinamentos. Ninguém poderia imaginar que David Lynch fizesse tanta concessão ao sentimentalismo. Ainda bem que fez.
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