Em Busca do Tesouro Perdido
Adidos culturais chineses visitam museus em todo o mundo para recuperar obras de arte que pertenceram a seu país
Natália Rangel
Numa decisão sem precedentes na história da China, o comitê governamental destinado a promover políticas de incentivo e de preservação do patrimônio artístico do país lançou uma verdadeira ofensiva cultural internacional para o resgate do “orgulho patriótico” da nação. Segundo levantamento realizado por pesquisadores e historiadores de arte e agora divulgado pela Associação das Relíquias Culturais da China, há cerca de dez milhões de valiosas obras chinesas espoliadas durante as guerras coloniais, que ocorreram de 1840 até a criação da República Popular em 1949. Elas se encontram espalhadas pelo mundo em museus, bibliotecas e coleções particulares. Incentivada pelo crescimento econômico que lhe concede cada vez mais projeção no cenário internacional, a diplomacia chinesa nomeou 12 adidos culturais que estão viajando por museus e centros culturais internacionais para identificar, catalogar e, então, tratar da repatriação dessas peças. O ponto de partida eleito pelo comitê oficial para essa empreitada é a recuperação de um símbolo histórico, religioso e cultural da China: as 12 cabeças de bronze criadas durante o reinado do imperador Qianlong (1763-1795). Elas representam cada animal do zodíaco chinês e integraram a monumental fonte de Hayantang, no jardim do Palácio de Verão, em Pequim, incendiado e destruído durante as invasões coloniais ocorridas no século XIX. Essa fonte permaneceu no palácio imperial até o fim da dinastia Qing. Das 12 obras, apenas sete possuem paradeiro conhecido pelas autoridades chinesas. A maioria dos invasores eram europeus especialmente franceses e ingleses. A iniciativa, em princípio louvável, vem sendo recebida com resguardo tanto por autoridades internacionais quanto por experts e estudiosos chineses. Até o ano passado, marchands mantinham uma diplomática relação com as instituições de repatriação de bens originariamente chineses, cujo percurso não deixa dúvidas quanto a sua expatriação criminosa por roubo ou saque. O governo, porém, endureceu a negociação e recentemente pressionou a casa de leilões Christie’s a devolver esculturas do zodíaco que seriam levadas a leilão. O insucesso da iniciativa fez com que as autoridades chinesas enviassem um adido cultural à Christie’s para que ele arrematasse as duas peças – elas pertenciam à coleção particular do estilista francês Yves Saint Laurent. Quando as duas esculturas ultrapassaram a marca dos 15,7 milhões de euros, o representante presente recusou-se a cobrir o lance por motivos de ordem “patriótica”. Julgou imoral pagar tão caro por obras que pertencem ao seu país. O empresário Pierre Bergé, ex-companheiro e sócio do estilista francês Yves Saint Laurent, foi quem administrou os bens do parceiro após a sua morte, em 2008 eles viveram juntos por mais de 30 anos. Bergé entregou à Christie’s, para serem leiloadas, duas obras adquiridas por Saint Laurent de colecionadores chineses esculturas de bronze (o coelho e o rato) do zodíaco chinês. Pequim tentou proibir o leilão, e Bergé declarou ter sofrido ameaças de todo tipo, inclusive de morte, após o arremate final das preciosidades por um colecionador cujo nome não foi revelado.
SÍMBOLO Palácio da Cidade Proibida, na China: saqueado por europeus
ARTE DE ALTO RISCO
Pierre Bergé, ex-companheiro de Yves Saint Laurent, diz que Pequim quis matá-lo
SIGNOS Saint Laurent (de óculos) e Bergé: o rato e o coelho chineses foram a leilão
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