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|  N° Edição:  2164 |  29.Abr.11 - 21:00 |  Atualizado em 24.Out.14 - 06:46

A irmã fofoqueira de Fidel

Com sua língua afiada, Juanita Castro conta em suas memórias os bastidores da revolução cubana e como se tornou agente da CIA

Ivan Claudio

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AMERICANA
Juanita em Miami: brigas com Fidel Castro e antipatia imediata por Che Guevara
 

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A cena se passa no apartamento do ex-ditador cubano Fidel Castro, na cidade de Havana, em 1961. A sua irmã Juanita invade furiosa o ambiente e cobra uma posição enérgica de Fidel diante da difamação que vem sofrendo o primogênito da família, Ramón. A resposta vem ao estilo guerrilheiro: “Já estou farto. Você acha que eu ignoro o que você anda fazendo? Não me menospreze! Estou a par de todas as suas atividades, e a advirto: isso não vai acabar bem.” As atividades a que o chefe da revolução cubana se referia eram a ajuda que ela vinha dando às pessoas perseguidas pelo regime, prática que terminaria com a sua atuação como agente da CIA, a central de inteligência americana, com o codinome de Donna. Esse relato está no livro “Fidel e Raúl – Meus Irmãos” (Planeta), livro que Juanita Castro escreveu em parceria com a jornalista mexicana María Antonieta Collins. Juanita hoje tem 77 anos e vive em Miami, para onde foi “acabar bem” em 1965 sem nunca mais pôr os pés em seu país. Uma infinidade de livros já foi escrita sobre as lutas que instalaram o socialismo em Cuba, muitos deles em tom épico. Esse se vale de outra clave: aqui, se trata do lado pequeno, do detalhe de bastidor que merece a credibilidade por ser narrado por uma espectadora privilegiada. Ainda que pendente à fofoca: Raúl Castro, que a aconselhou férias no México, a chamava de “meio louquinha, com a língua solta”.

Eis como Juanita apresenta o mito Che Guevara, outro protagonista da revolução: “Sendo curta e grossa, nunca gostei e nunca tive simpatia por ele.” Quando foi à prisão de La Cabaña se apresentar ao argentino, ela reparou em seu desleixo: lhe pareceu sujo, como se não tomasse banho. Sentia arrepios ao ouvi-lo dizer que, na África, comeu crânios de macaco, quando ainda se retorciam. “Não merece mais que duas páginas em minhas memórias”, termina Juanita o capítulo sobre o guerrilheiro. Sua atenção, claro, está voltada para a sua família, especialmente para Fidel, com quem rompeu após a onda de delações, expropriações e “paredões” (execuções de dissidentes). Diz Juanita sobre a foto que entrou para a história, mostrando “El Comandante” rodeado de pombas brancas no antológico discurso de 8 de janeiro de 1959: “Não acho que elas estavam ali e sim que as colocaram. A multidão enlouqueceu.”

“A retirada dos mísseis de Cuba foi uma decisão de Kennedy e
Khrushchev. Fidel não foi chamado a participar. Ficou indignado”

Juanita Castro, irmã de Fidel Castro

Embora não pareça o objetivo, tais detalhes terminam por ter um humor involuntário. Ao narrar, por exemplo, o embarque dos guerrilheiros na embarcação Granma, que levou os militantes cubanos do México para Cuba, Juanita chama a atenção para o tipo de comida que Fidel pediu como provisão: presunto cru, laranja, pão de forma e água. E comenta: “Só a um filho de espanhol ocorre pedir presunto cru, com a sede que provoca.” Como se sabe, não foi apenas a sede que dificultou a travessia do golfo do México em direção à ilha. A tripulação, de 82 homens, quase afundou o pequeno barco.

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DESAFETOS
Juanita (foto de 1959) diz que Fidel era egoísta, mulherengo e explosivo

Outra passagem engraçada, para dizer o mínimo, foi o desaparecimento do revólver de Fidel, numa festa na embaixada do Brasil. Fidel tirou a arma no banheiro e a esqueceu lá. Quando deu por sua falta, foi um rebuliço. Até Che Guevara participou do inquérito. No dia seguinte, descobriu-se que a pistola estava com um dos últimos ricaços cubanos, José Ignacio Maciá Del Valle, que queria o objeto como suvenir. Juanita revela que foi a anfitriã dessa reunião – a embaixatriz brasileira Virgínia Leitão da Cunha – quem a indicou para a CIA. Ela chama a agência americana de “companhia” e ressalta o seu “trabalho humanitário”. Só não diz que a mesma CIA tentou matar seu irmão não uma, mas inúmeras vezes.  

 

Leia um trecho do primeiro capítulo:

 

NOVAMENTE EM CASA

Sentada naquele trem olhando vez ou outra os dormentes ficando para trás sob os trilhos, minha mente voou para as tantas vezes – na realidade, nunca soube quantas – em que minha mãe e eu fizemos juntas a mesma viagem de Havana ao Central Marcané para chegar à nossa casa de Birán. Eram sempre viagens de ida e volta, embora naquele 6 de agosto de 1963 a jornada fosse de todo diferente.

Meses antes, Lina Ruz, minha mãe, que tinha apenas 57 anos de idade, sofrera um infarto que a manteve por um bom tempo no hospital. Sempre achei que sua saúde se deteriorou tão cedo por ter tido de trabalhar no campo desde jovenzinha. Não só era mãe de sete filhos e cuidava da casa, como também fazia tudo sem descanso, embora durante muitos anos tenha sofrido de gravíssimos problemas respiratórios. Tinha varizes terríveis que a martirizavam; qualquer pancadinha que recebesse logo produzia uma úlcera, chegou mesmo a ser operada várias vezes para remediar o problema, mas, apesar de tudo, os médicos nunca conseguiram deter o avanço daquela doença.

Por causa dos problemas circulatórios, essa mesma viagem de trem, que durava mais de dez horas – sobretudo nos últimos anos –, ela fazia comprando dois assentos, o seu e o da frente, para poder descansar as pernas e evitar que inchassem e lhe provocassem mais problemas.

Não importava como se sentisse, em cada uma de suas viagens minha mãe levava todas as coisas de que os filhos gostavam; assim, toda vez 22 Fidel e Raúl, meus irmãos que vinha da fazenda para minha casa de Havana – que para ela era sua casa –, sempre chegava carregada de carne, queijos e tudo aquilo que ela mesma fazia e que nós desfrutávamos desde crianças.

Mas naquele  6 de agosto de 1963 tudo era diferente, porque minha mãe não ia em dois assentos acompanhada de alguém, como costumava fazer, ela descansava numa salinha, e o trem inteiro estava à sua disposição. Dessa vez os que iam com ela eram muitos: meu irmão Raúl e sua mulher, Vilma Espín; Angelita, minha irmã mais velha; e eu. Agustina, a mais nova, não pôde ir porque estava prestes a dar à luz; Ramón e sua esposa, Sully, estavam na casa do Central Marcané com tudo pronto, esperando por ela.

Na verdade, o trem estava abarrotado de gente, e os vagões se dividiam em várias categorias de passageiros, o que nessa ocasião não tinha nada a ver com o preço da passagem, mas com algo mais forte. Estavam os que eram amigos de verdade, os que faziam a viagem por compromisso e nós, que formávamos seu cortejo fúnebre.

Para minha grande tristeza, minha mãe morrera de repente em minha casa havia poucas horas, mas tudo se dera tão rápido que não tivemos tempo para nada. Eu vivia no bairro de Miramar, mas tinha uma hospedaria na J 406, no bairro do Vedado. Embora desse abrigo a estudantes naquela casa, aquilo era só uma fachada, porque, na realidade, era o refúgio de muitos que chegavam ou buscando esconder-se ou esperando sair de Cuba para o exílio.

Eu passara aquela tarde fazendo diligências na rua, acompanhada de Tito Rodríguez, um dos hóspedes que sempre me ajudavam. Enquanto ia de um lado para o outro, parei um instante em minha casa para ver minha mãe, que estava com a saúde abalada nesse dia, e então encontrei minha irmã Agustina, que fora visitá-la. – Estou bem – disse-me minha mãe, tranquila. – Não se preocupe, que você já tem encargos demais, além disso, estou aqui conversando toda contente com Agustina, então vá fazer suas coisas em paz e nos vemos à noite.

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EM 23/01/2014 06:36:43

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