Brasil
|  N° Edição:  2060 |  06.Mai.09 - 10:00 |  Atualizado em 31.Jul.14 - 01:18

O fator câncer

É difícil os políticos assumirem a doença, muito menos em público e durante uma campanha eleitoral. Mas a ministra Dilma Rousseff acredita que pode vencer esse estigma e convencer os eleitores de que tem condições de disputar a sucessão de Lula

Sérgio Pardellas

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MÃE DO PAC
Plano da ministra é seguir em ritmo acelerado


Em poucas áreas de atuação o estigma de uma doença pesa tanto como na política. Ao revelar que passa por um tratamento contra um linfoma, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff , aceitou se expor a uma dose dupla desse preconceito. Como se não bastasse estar doente, Dilma ousou assumir que sofre de câncer em plena pré-campanha à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas, mesmo em seu ato de coragem, no sábado 25, a ministra preferiu usar os termos "linfoma" ou "essa doença". Segundo especialistas em marketing eleitoral ouvidos por ISTOÉ, depois de ganhar a confi ança de Lula e vencer as resistências dentro do PT e entre os partidos da base governista, agora Dilma terá que superar o que poderá ser o seu maior obstáculo: o estigma político da doença.

"A saúde da ministra passará a ser permanentemente questionada, antes e durante uma eventual campanha, até porque um diagnóstico defi nitivo só pode ser dado em dois anos", avalia o cientista político Antonio Lavareda. "Ao mesmo tempo que a doença humaniza a candidata, a torna mais vulnerável porque vai sempre suscitar a interrogação na cabeça das pessoas sobre se ela tem condições de assumir o País." A primeira sessão de quimioterapia da ministra está prevista para o dia 9. Durante quatro meses, o procedimento será repetido a cada três semanas. Como o seu organismo irá reagir ao tratamento é uma incógnita.

No Brasil, é tradição os políticos esconderem uma doença grave antes das eleições. Tancredo Neves, por exemplo, escondeu até o fi m a existência de um tumor, devido ao impacto que a palavra câncer poderia provocar à época. De forma dramática, a doença o impediu de assumir a Presidência da República. O tucano Mário Covas, que morreu em 2001 com câncer na bexiga, afi rmou que descobriu a doença depois de reeleito governador de São Paulo, em 1998. Muitos políticos ainda passam por tratamentos de quimioterapia em sigilo absoluto. "Não conheço caso em que o fato de a pessoa ser doente a ajude a vencer eleição. Pelo contrário", disse à ISTOÉ o sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra. "Câncer não ajuda ninguém. É melhor não ter", afirma o ministro de Comunicação Social do governo, Franklin Martins.

NA POLÍTICA, UM TEMA DELICADO

TANCREDO NEVES

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Temia a divulgação de um tumor benigno porque poderia ser confundido com câncer e queria adiar a a primeira operação de diverticulite para depois da posse, com receio de uma crise institucional.

 

MÁRIO COVAS

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Revelou um câncer na bexiga em dezembro de 1998, ao ser reeleito governador de São Paulo. Depois de divulgada a notícia, passou a enfrentar a doença e pediu a assessores para não esconderem nada.

 

ROSEANA SARNEY

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Antes da reeleição ao governo do Maranhão, em 1998, revelou que tinha câncer no pulmão. Em 2002, durante campanha à Presidência da República, ela admitiu outro câncer, desta vez nas mamas.
 

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"Não conheço caso em que o fato de a pessoa ser doente a ajude a vencer eleição. Pelo contrário"

Marcos Coimbra, presidente do Instituto Vox Populi

 

Há exceções à regra. Moema Gramacho, prefeita reeleita de Lauro de Freitas (BA), enfrentou a campanha de 2008 com um câncer de mama e colheu dividendos eleitorais. "Tirei de letra porque tinha uma meta forte e motivadora que era vencer as eleições e dar sequência ao nosso projeto no município", conta a prefeita. Outro exemplo é o da então candidata do PFL à Presidência da República em 2002, hoje governadora do Maranhão, Roseana Sarney. Antes de ser abatida pelo caso Lunus, ela teve sua popularidade ampliada, quando revelou em programa de televisão ter sido vítima de câncer.

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   EM CAMPANHA O governador Eduardo Braga (AM), Dilma, Lula e operários, dois dias após ela anunciar seu diagnóstico


"Já é tempo de enfrentar esse estigma", afirma o diretor-geral do Inca, Luiz Antonio Santini. "A população precisa saber que o tratamento da doença evoluiu ao longo dos últimos anos. A doença não é mais sinônimo de morte", acrescentou. Na década de 1970, segundo o Inca, seis em cada dez pacientes com câncer morriam até cinco anos depois do diagnóstico. Hoje, o quadro é exatamente o oposto: 60% a 70% superam a doença. Há 15 anos, a detecção de câncer nos testículos era uma tragédia anunciada. Agora, resulta em cura em 95% dos casos. Na política, por exemplo, são vários os casos em que o presidente de um país enfrentou o problema no exercício do mandato. O presidente da França François Mitterrand passou oito dos seus 14 anos no poder se tratando de um câncer de próstata. Só morreu depois que deixou o cargo. Ronald Reagan, presidente dos EUA nos anos 1980, também sofreu de câncer de pele durante seu mandato. Morreu bem depois, de mal de Alzheimer.

É esse o recado que o governo Lula começa a disseminar. Ou seja, o de que Dilma não terá problemas em ser a candidata. Embora tenha concordado com a divulgação da doença e dito que será preciso "orar" pela ministra, Lula suavizou o discurso no fim da semana. No Acre, disse que o pior já passou. "Agora os procedimentos são para a manutenção do seu quadro estável", acrescentou o presidente, que foi informado da existência do câncer pela ministra um dia antes de a notícia chegar ao público. Alguns integrantes do governo deixaram escapar que a superação do problema poderia ajudar a campanha de Dilma. "A ministra tem uma trajetória de luta. Imagino que ela possa se fortalecer. Ela já venceu muitos desafios", disse o ministro da Educação, Fernando Haddad.

Marcos Coimbra alerta, no entanto, que não se pode confundir humanização da candidata com exploração política da doença. "Você humaniza uma candidata mostrando que ela tem sensibilidade social e preocupação com os problemas enfrentados pela população, não explorando uma doença. Senão fica apelativo e o povo percebe isso." Ainda segundo Coimbra, há o risco de a população não compreender o motivo pelo qual uma pessoa disputa a Presidência mesmo estando doente. "Vai ficar parecendo que ela quer se fazer de vítima, e isso é contraproducente."

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 "A doença humaniza a candidata, mas a torna
mais vulnerável, porque vai sempre suscitar
uma interrogação"

 Antonio Lavareda, cientista político

Dilma negou que esteja havendo uma exploração do tema. Em discurso, em Manaus, na segunda-feira 27, disse que seria de mau gosto tirar vantagem do seu quadro clínico. "Não vi, até agora, nenhuma conduta exploratória por parte de ninguém. Seria de muito mau gosto tentar, de uma forma ou de outra, explorar no sentido negativo ou positivo a doença", avaliou. Por enquanto, ela tem razão. Seus potenciais adversários tucanos trataram o assunto com respeito. "Considero até indelicado dar qualquer opinião sobre envolvimento eleitoral do problema por que passa a ministra", disse o governador de Minas Gerais, Aécio Neves. "Especular eleição com doença não é apropriado. Já desejei a ela pronto restabelecimento e ponto final", afirmou o governador paulista José Serra.

 




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