Artes visuais
|  N° Edição:  2069 |  08.Jul.08 - 10:00 |  Atualizado em 24.Abr.14 - 07:19

Nova safra argentina

Panorama da arte contemporânea argentina elege a figuração como principal tendência da produção atual

Paula Alzugaray

SANTA CEIA Nicola Constantino dá interpretação erótica a cena tradicional

O pintor e engenheiro Prilidiano Pueryrredón (1823-1870) teve na Argentina importância semelhante a Almeida Júnior (1850-1899), no Brasil. Um foi pioneiro em documentar nas telas a figura do gaúcho argentino, a vida nos Pampas e nas margens do Rio de La Plata; outro foi o primeiro artista plástico brasileiro a retratar o homem da roça. Pueryrredón teve enorme influência sobre o desenvolvimento da arte na Argentina e nomeou sua Escola Nacional de Bellas Artes, onde diversas gerações de artistas tiveram sua formação.

O pintor foi fundamental para traçar as diretrizes que acompanhariam a produção daquele país durante todo o século XX: o figurativismo e a narratividade. Até hoje, pelo que atesta a mostra "Argentina Hoy", esses valores determinam uma boa parte da produção artística do país. A exposição traça um panorama da arte contemporânea argentina, mas elege a figuração como seu partido principal.

Tradicionalmente, a figuração divide-se em três grandes eixos: a paisagem, o retrato e a natureza morta. Na exposição, nota-se uma predileção especial pelas paisagens (urbanas e rurais) e pelos retratos. Como a pintura e a fotografia são os meios que dão melhor resolução à expressão da figura, é natural que elas sejam preponderantes na exposição do CCBB. Artistas como Nicola Constantino, RES e Constanza Piaggio usam a fotografia para questionar alguns pressupostos da perspectiva e da pose.

Na fotografia "La Dama" (2005), RES e Constanza Piaggio re-encenam uma tela de Leonardo da Vinci, pintada entre 1483 e 1490, na tentativa de desmantelar alguns mitos gerados pela perspectiva renascentista. Em "La Cena" (2008), a artista Nicola Constantino dá um tratamento erótico a uma cena com enquadramento tradicional de uma "Santa Ceia".

Entre as figuras de "Argentina Hoy", encontra-se de tudo, mas muito pouco relacionado à vida da Argentina campestre, tão bem representada pelo mestre Pueryrredón. Sinal de que a produção do país abre-se para o contexto internacional, assim como acontece com a arte brasileira. Entre os 33 artistas presentes na mostra, há desde Jorge Macchi, Tomás Saraceno e Leandro Erlich, de grande projeção internacional, até os jovens talentos Ariel Cusnir e Mariana López, que ainda não fizeram 30 anos.

Com obras na coleção Daros Latinamerica e individuais no PS1-MoMA de Nova York e no Museo Nacional Reina Sofia, em Madri, Erlich é considerado, mais que argentino, um artista internacional. Mesmo com a lamentável ausência de artistas de enorme representatividade como Guillermo Kuitca, Roberto Jacoby, León Ferrari e Liliana Porter, a exposição é uma ótima aproximação a uma produção que infelizmente ainda nos é desconhecida e distante.

Roteiros

Moby Dick paulistano

JOÃO LOUREIRO: BLUE JEANS/ Pinacoteca do Estado, SP /até 23/8

Melville não acreditaria. Uma baleia encalhada na Pinacoteca do Estado de São Paulo é uma ficção de tamanho peso, quase tão grande quanto a mais célebre baleia da literatura de todos os tempos. A instalação "Blue Jeans", de João Loureiro, que ocupa o espaço octógono do museu, é uma baleia em escala real, feita de uma tonelada de isopor e revestida com 200 metros de jeans. O tecido, segundo o artista, é fundamental porque representa a cultura de massa e contribui com sua intenção de discutir as relações entre arte e entretenimento, consumo e natureza.

foto : Isabela Matheus (Roteiro )

"A baleia é um animal que conhecemos mais pela imagem que pela presença, o que a torna um ser meio mítico", explica Loureiro, que já havia trabalhado com instalações de animais em tamanho real na exposição "Zootécnico", que esteve na Galeria Vermelho até o fim de semana passado. Na Pinacoteca, "Blue Jeans" faz parte do Projeto Octógono Arte Contemporânea, em que projetos dialogam com o espaço. "Essa instalação é uma resposta ao espaço monumental do octógono, que permite o tamanho colossal de uma baleia. Além disso, a Pinacoteca tem uma variedade de exposições de arte contemporânea, arte tradicional, botânica, arqueologia... achei interessante dar a impressão de um museu de história natural no meio disso tudo", diz Loureiro.

Fernanda Assef

 




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