Brasil
|  N° Edição:  2144 |  10.Dez.10 - 21:00 |  Atualizado em 20.Nov.14 - 12:19

A nova diplomacia do Brasil

Dilma troca o comando do Itamaraty, ataca o Irã e sinaliza como conduzirá a política externa

Claudio Dantas Sequeira

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Na tarde do sábado 25 de novembro, a presidente eleita Dilma Rousseff retornou o telefonema de Marco Au­rélio Garcia. O assessor internacional da Presidência estava a caminho de Georgetown, na Guiana, para participar da cúpula da União das Nações Sul-Americanas, na qual seria indicado o novo secretário-geral. Sondado para o posto, Garcia precisava do aval de Dilma para entrar na disputa oficialmente. A presidente, no entanto, pediu que a decisão fosse adiada e marcou um encontro na Granja do Torto para dali a uma semana. Numa caminhada pelos jardins da residência oficial na quinta-feira 2, Dilma comunicou a Garcia que não iria liberá-lo para o órgão multilateral. “Quero você no meu governo”, disse. Em seguida, comentou que nomearia o embaixador Antonio Patriota ministro das Relações Exteriores e revelou sua diretriz para a diplomacia nos próximos quatro anos. “Vamos dar lastro para o que o presidente Lula criou”, disse.
A conversa entre Dilma e Garcia se deu poucos dias após a presidente eleita ter afirmado que discordava da posição do Brasil em relação ao Irã. Para ela, o País não deveria ter se abstido na votação do Conselho de Segurança da ONU que condenava o país asiático pela prática do apedrejamento. “Não posso concordar com uma prática medieval como essa, discordo da posição do Brasil”, disse Dilma, em uma entrevista ao jornal americano “The Washington Post”.

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PUPILO
Patriota vinha sendo preparado
por Amorim para sucedê-lo desde
o início do governo Lula


O convite a Garcia para permanecer no cargo que ocupa há quase uma década mostra que a divergência no caso iraniano se resume a uma questão isolada. Dilma, ao contrário de Lula, defende princípios, mas está disposta a manter as linhas mestras da política externa adotada por Lula e, por isso, decidiu turbinar a Assessoria Internacional da Presidência. Sua meta é pelo menos duplicar o staff do gabinete e ampliar suas atribuições. Já pediu a Garcia que produza dossiês sobre as relações do Brasil com seus principais parceiros e sugestões de consolidação dos grupos e fóruns criados na última década. Dilma quer que a diplomacia brasileira funcione como uma espécie de indutor no processo de institucionalização desses diversos organismos que têm muita pompa no nome e pouca estrutura operacional e burocrática. Na visão da presidente eleita, entidades como a Unasul, os Brics, o Mercosul e mesmo grupos de menor expressão, como o Ibas, carecem de uma estrutura própria e não podem ficar relegados apenas aos raros encontros entre os presidentes e ministros das Relações Exteriores dos países que os compõem.

No caso da Unasul, há um projeto de constituição de uma série de coordenações para impulsionar os entendimentos nas áreas de energia e infraestrutura, nos temas ligados ao Conselho de Defesa Sul-Americano, ao Conselho de Combate às Drogas e na articulação das políticas educacionais e de saúde. “Resolver esses gargalos da integração depende em grande medida de um fortalecimento institucional”, justifica Garcia. Outra proposta, que já está na mesa de Dilma, prevê a criação de uma Alta Autoridade no Mercosul. Na prática, esse organismo funcionaria como um comitê executivo do bloco, com presidente e demais integrantes de um alto escalão responsável por gerir e implementar as decisões tomadas pelos países-membros. Ao dar mais autonomia funcional ao bloco, a região segue o modelo europeu. Para a presidente eleita, segundo Garcia, “não se pode pensar que os problemas da integração serão resolvidos exclusivamente por uma reunião semestral de ministros.”

Esse entendimento será aplicado para outras iniciativas em processo de consolidação como o G 20, que deu voz às potências emergentes e pôs uma pá de cal no G 8. Se depender do Brasil, os BRICs também deverão deixar de ser apenas uma sigla. Já há uma iniciativa de estímulo do comércio em moeda comum em contraponto ao dólar. Também ganharão musculatura institucional o Ibas, fórum que reúne Índia e América do Sul, e o diálogo entre a América do Sul e os países árabes, lançado na cúpula de Brasília em 2005.
Em termos gerais, o que se espera é o aprofundamento do que já vem sendo feito. “Não há razões para achar que a diplomacia de Dilma será diferente da atual. Não vejo nenhuma chance de grandes guinadas”, avalia o cientista político Gilberto Sarfati, da FGV. Segundo ele, seguem na pauta do Itamaraty a aproximação Sul-Sul, a construção de laços com outros países em desenvolvimento, a consolidação do Brasil como um jogador global de peso e a busca por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Questões como as negociações da Rodada Doha devem ficar em suspenso, por causa da crise cambial e do protecionismo crescente. “Alguma novidade pode surgir na relação com os EUA, já que o presidente Barack Obama deve se dedicar mais à diplomacia para melhorar sua imagem nos EUA”, afirma Sarfati.

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Dentro do Itamaraty, a pergunta que vem tirando o sono dos diplomatas é se a Assessoria Internacional – leia-se Marco Aurélio Garcia – com mais poder criará problemas para o futuro chanceler Antonio Patriota. Tudo indica que não. Patriota e Garcia se conhecem desde o início do governo Lula e trabalharam juntos em crises como a de Honduras e do Haiti. Aliás, desde o primeiro mandato o ministro Celso Amorim decidiu preparar o pupilo para sucedê-lo ou pelo menos para assumir maiores responsabilidades. Patriota compartilha das visões de mundo que aproximaram Amorim de Garcia. A diferença é que o futuro chanceler, com 54 anos, é de uma geração posterior à de Amorim e Garcia, e, portanto, não se prende ao velho embate quase dogmático entre Norte e Sul. Adepto das novas tecnologias, não desgruda do telefone BlackBerry e costuma se comunicar diretamente com seus pares em outros países. “Um dia desses ele queria falar com o subsecretário americano, William Burns. Pegou o celular e ligou”, relata um assessor.

Pesam a favor de Patriota seu refinamento intelectual e a memória acurada, além de rara habilidade política. Interlocutores mais próximos comentam, inclusive, que o embaixador consegue transitar sem constrangimento tanto no governo como na oposição. “Ele é sobretudo um operador”, afirma um diplomata próximo. Espera-se, portanto, que a combinação entre a experiência de Garcia e a jovialidade de Patriota dê um perfil mais ágil e eficiente para a diplomacia no governo Dilma Rousseff.

“Os EUA descuidaram da região”

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FORÇA
Assessoria internacional comandada por
Garcia terá sua estrutura duplicada no governo Dilma

ISTOÉ – O que muda na política externa com Dilma?
Marco Aurélio Garcia – Bem, o Lula tinha um lado meio imprevisível na sua intervenção internacional e que causava resultados surpreendentes. É o efeito Garrincha. Dava um drible que deixava as pessoas meio estarrecidas. A Dilma vai ter uma conduta menos intuitiva, mais racional. Vai amarrar e institucionalizar as coisas.

ISTOÉ – A nomeação de Antonio Patriota sinaliza uma reaproximação com os EUA?
Garcia – Antes de tudo, significa que o Itamaraty é um grande celeiro de funcionários com capacidade de condução da política externa. O Antonio é um diplomata jovem, com um portfólio respeitável. Sobre os EUA, gostaríamos de ter uma interlocução mais forte, sim. Se isso não ocorreu com Lula não foi porque o Celso Amorim é antiamericano, mas por questões objetivas. Os EUA descuidaram da região.

ISTOÉ – O que pode mudar, então?
Garcia – De nossa parte, queremos debater a relação bilateral, temas continentais e mundiais. Só que a relação com os EUA não pode ocorrer em detrimento da política externa como um todo. Não vamos abandonar a política de aproximação com a França, por exemplo,
só por que isso incomoda Washington.

ISTOÉ – Dilma Rousseff criticou a abstenção brasileira sobre violações de direitos humanos no Irã. Haverá mudança nessa relação?
Garcia – A abstenção respondeu a uma posição histórica do Itamaraty, que se recusa a individualizar essas violações publicamente. Mas não somos indiferentes. Em gestões discretas, conseguimos libertar a professora Clotilde Reiss e um dos alpinistas americanos. Nossa aproximação com o Irã não é uma aliança, mas uma ação conjunta para obtermos um acordo no âmbito da Aiea. É preciso entender que ninguém bebeu demais e resolveu se meter ali. Detectamos uma zona de alto risco e propusemos uma alternativa.

Rafael Alexandre

EM 23/02/2012 08:31:19

O Ibas não "reúne Índia e América do Sul", senão Índia, Brasil e África do Sul.





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