O trabalho sob outro prisma
Baseada em conceitos como autoconhecimento, tempo e liberdade, há uma filosofia que ganha cada vez mais adeptos no mundo profissional, indo na contramão da pressa exigida pelo mercado
Débora Rubin
A máxima dominante no mundo profissional de que o mercado é acelerado, intransigente e ultracompetitivo não encontra eco em um grupo cada vez mais crescente no Brasil: os profissionais antroposóficos. São professores, médicos, arquitetos, agricultores, administradores, entre outros, que compartilham a mesma visão de mundo. Para eles, a busca do autoconhecimento, a integração com o ambiente de trabalho e o entendimento sobre o outro, seja um colega, seja um cliente, são apenas alguns dos alicerces do dia a dia. Para esse grupo, não basta produzir, é preciso haver um sentido em tudo o que se faz. A antroposofia é um conceito criado pelo filósofo e educador austríaco Rudolf Steiner (1861-1925) no século passado, que engloba diversas áreas. É denominada uma ciência espiritualista, embora não seja religiosa. No Brasil, é conhecida especialmente por causa da pedagogia Waldorf – adotada por 53 escolas, que prega o “aprender fazendo” e trabalha o agir, o sentir e o pensar em todas as aulas – e também pela medicina antroposófica, que leva em consideração não só os sintomas físicos, mas os aspectos emocionais e espirituais do paciente. A novidade é que cada vez mais profissionais de outras áreas têm adotado a antroposofia. É o caso da consultora comercial Viviane Rocha, que se apaixonou pelo tema após ir trabalhar na Weleda, empresa farmacêutica que segue essa linha. Em seu contato diário com os franqueados, ela faz questão de aplicar os conceitos plantados por Steiner. Ouvir o outro com atenção, entender sua dinâmica e buscar as soluções individuais. “Vamos um pouco na contramão do que acontece hoje no mercado corporativo, que não espera nada nem ninguém”, acredita Viviane. O resultado, diz ela, é mais preciso. Seu interesse pelo tema cresceu tanto que ela decidiu fazer mestrado em administração antroposófica. Outra tendência são as consultorias que usam os preceitos da filosofia para treinar líderes, coaching e projetos de desenvolvimento dentro de grandes empresas, caso do Instituto EcoSocial, que atende Sadia, Odebrecht e Itaú, entre outros. Na arquitetura, o Brasil ainda dá os primeiros passos. Segundo o arquiteto Michael Emil Moesh, formado na Holanda, a chamada arquitetura orgânica ainda cheira a novidade como termo. Suas diretrizes, no entanto, são bem difundidas atualmente, como integração de ambientes, utilização de recursos naturais e sustentáveis e a consideração pelo modelo de vida do morador, pelas suas ideias e atividade profissional. “Hoje isso soa moderno, mas foi idealizado por Rudolf Steiner há quase um século”, diz Moesh. O próprio Steiner foi arquiteto. É dele o projeto do Goethenum, em Dornach, na Suíça, considerado o centro antroposófico do mundo e onde, na semana passada, foi dada a largada para as comemorações pelos 150 anos do nascimento do filósofo austríaco. “Os valores dessa ciência estão espalhados hoje em todos os setores da sociedade. Muitas vezes uma pessoa vive de acordo com eles sem saber que é antroposofia”, diz o filósofo Carlos Maranhão, da Editora Antroposófica. Para ele, as pessoas estão um pouco cansadas das respostas puramente materialistas, que já não dão conta dos anseios modernos. Daí a busca por uma compreensão maior do lado espiritual. O advogado André Hatoun passou anos separando sua simpatia pela antroposofia da vida profissional. “Achava que o direito e uma ciência espiritual eram conflitantes”, explica. Até perceber que podia adotar uma postura mais condizente com seus ideais também no escritório. Hoje, ele tenta ir além do problema levado pelo cliente, busca entender seu modelo de vida, sua forma de pensar e seu lado espiritual. “Agora consigo ver minha profissão como uma missão.”
RAMO
A consultora Viviane Rocha: tese sobre administração
antroposófica, e o arquiteto Michael Moesh


VARIEDADE
Da esq. para a dir: a agrônoma Andrea, a terapeuta Leila,
o filósofo Carlos, a terapeuta Elizabeth e a médica Ana Paula
Annete Faesarella
EM 07/12/2010 20:12:21
Parabéns à revista pela matéria. Minha filha estuda numa escola Waldorf, a Recanto do Jatobá, em Valinhos e posso afirmar que desde seu ingresso na escola, nossas vidas foram influenciadas de uma maneira muito especial, pelo carinho, atenção das professoras, pelo amor à natureza e respeito humano.
Carla H. Leder
EM 06/12/2010 11:18:57
Matéria nota10, fico feliz em ver que ela ultrapassa as salas de aula. Meu filho estuda em uma escola Waldorf em Valinhos (Escola Recanto do Jatobá 019-3881.1042) há dois anos e desde então tenho contato com a antroposofia, que é um tema realmente apaixonante...
Valdemar W. Setzer
EM 17/11/2010 11:15:41
Para maiores informações sobre Antroposofia, pedagogia Waldorf, medicina e terapias antroposóficas, agricultura biodinâmica, farmácia antroposófica, arquitetura orgânica, editoras antroposóficas, produtos e serviços antroposóficos, veja-se o site da Sociedade Antroposófica, em http://www.sab.org.br
Fernando Amaral
EM 09/11/2010 14:05:52
Perfeito, vivencio isso direcionando nas atividades de consultorias em agricultura biodinâmica, também dentro da mesma Ciência Espiritual. Parabéns pela matéria.
Alexandre Herculano
EM 09/11/2010 10:25:34
Realmente parece ser a teoria do que muitos hoje tem praticado sem mesmo saber que existe conceitos já tão bem definidos. Não há como manter ou apronfudar esse sistema irracional de degradação pessoal em busca de metas inatingíveis. Ótima matéria!!!
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