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|  N° Edição:  2138 |  29.Out.10 - 10:00 |  Atualizado em 23.Nov.14 - 04:12

A história contada pelos poderosos

Livro revela como líderes políticos manipularam fatos para tentar apagar os seus erros e construir uma imagem de herói

Natália Rangel

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O ditador russo Josef Stalin apagou arquivos oficiais, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill omitiu fatos de sua biografia política, Adolf Hitler encampou o mito nacionalista da raça ariana e o ex-presidente americano George W. Bush associou sua imagem à de um admirado chefe de Estado do passado para derrubar os altos índices de rejeição ao seu governo. A história está repleta de episódios distorcidos ou manipulados por grandes líderes políticos e alguns desses casos são analisados pela pesquisadora canadense Margaret Macmillan em seu livro “Usos e Abusos da História” (Record). O passado pode condenar e por isso tantos poderosos decidem adulterá-lo; outros preferem dar um jeito de encostar o seu nome na fama de algum antecessor. Foi esse, por exemplo, o estilo de Stalin. Ele conquistou o poder e a confiança dos russos tomando como fiador o imenso carisma de seu antecessor, Vladimir Lenin, a quem apresentava como aliado – o que nunca de fato fora. Em 2004, Bush também recorreu à gloriosa sombra do passado, enquanto sua popularidade despencava. Passou a se comparar ao ex-presidente americano Harry Truman (1945-1953), cujos desacertos iniciais na administração de conflitos (Vietnã e Coreia) lhe renderam o rótulo Errar é Truman (To err is Truman), embora a história o tenha depois redimido. Suas ações são consideradas hoje pedras fundamentais no enfrentamento da Guerra Fria. Bush busca o mesmo tipo de redenção, mas não faz referência a duas diferenças significativas: a primeira é que Truman foi um democrata; o segundo ponto é que ele atuou em todos os conflitos em sintonia com as diretrizes da ONU.

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“Lidar com o passado e decidir que versão dele se quer recordar
ou se deseja esquecer pode ter um preço político muito alto”
Margaret Macmillan, autora do livro “Usos e Abusos da História”

 

 

O admirado premier Winston Churchill omitiu episódios que não lhe convinham (sua desastrosa atuação no conflito envolvendo a disputa do estreito de Dardanelos, durante a Primeira Guerra Mundial) e tergiversou sobre o fato de, no ano da tomada da França pelos nazistas (1940), ter negociado um acordo de paz com a Alemanha por intermédio do líder fascista Benito Mussolini. Churchill sempre negou ter existido essa secreta reunião que mais tarde foi revelada. Muitas vezes, a onipotência dos líderes os leva a tentar reescrever a história de suas nações. O revolucionário Robespierre, na França, e o sanguinário ditador Pol Pot, no Camboja, cada um a sua maneira, foram radicais na reforma da história de seus respectivos países – e decidiram criar um novo “Ano Zero” em seus calendários. Mao Tsé-tung incentivou os jovens guardas vermelhos a destruir objetos que remetiam ao passado imperial e a matar professores e intelectuais que pudessem transmitir essa cultura às novas gerações.

Entre os russos há uma antiga anedota que diz: “A Rússia é o único país cujo passado é imprevisível.” Stalin providenciou para que todas as referências ao seu inimigo Leon Trotski fossem apagadas dos arquivos soviéticos e Nikita Kruchev fez o mesmo em 1954 com a biografia e os registros oficiais de um poderoso chefe de segurança que trabalhara para Stalin. Em anos mais recentes, o presidente russo Vladimir Putin demonstrou estar afinado com seus antecessores. Ele defendeu que os livros didáticos possuam um conteúdo “patriótico” e apresentem uma nova visão de Stalin. Segundo ele, Stalin foi um ditador, mas isso teria sido “necessário” naquele momento para “salvar a Rússia” de seus inimigos. E justificou: “A democratização não era uma opção viável.”

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 Leia um trecho da introdução do livro  “Usos e abusos da história”, de Margaret MacMillan :

Todos nós fazemos história, mesmo que como aquele homem que descobriu que escrevia em prosa, nem sempre nos tenhamos dado
conta de ter essa capacidade. Queremos dar sentido às nossas vidas e muitas vezes nos perguntamos qual o lugar que ocupamos na sociedade em que vivemos e como chegamos até ele. Com isso, criamos histórias sobre nós, nem sempre verdadeiras, na tentativa
de buscar respostas satisfatórias. Tais histórias e questionamentos inevitavelmente nos levam ao passado. Como foi que cresci e me
tornei a pessoa que sou? Quem foram meus pais? Meu avós? Ainda que, de maneira parcial, como indivíduos sejamos todos produtos
de nossa própria história, o que inclui nossa origem geográfica, nossa época, nossa classe social e o histórico de nossas famílias.
Nasci e fui criada no Canadá, onde desfrutei um período extraordinário, raro na maioria dos lugares, de paz, estabilidade e prosperidade.
Com certeza isso teve influência na construção da forma pela qual desenvolvi minha visão de mundo, talvez com mais otimismo sobre a melhoria das condições de vida do que se eu tivesse crescido no Afeganistão ou na Somália. Além disso, sou produto da história de meus pais e de meus avós. Cresci com algum conhecimento, embora incompleto e fragmentário, sobre a Segunda Guerra Mundial, na qual meu pai lutou, e sobre a Primeira Guerra Mundial, que levou embora meus dois avós.
Usamos a história para entender a nós mesmos e devemos usála para compreender os outros. Se tomarmos conhecimento de que
alguém conhecido passou por uma catástrofe, tal informação nos ajudará a evitar que lhe causemos mais sofrimento. (Se, por outro
lado, descobrimos que ele tirou a sorte grande, isso poderá afetar a maneira como o trataremos daí em diante!) Não devemos supor
que somos todos iguais, e isso serve tanto para nossa atuação nos negócios ou na política quanto nas relações pessoais. Como nós,
canadenses, poderemos entender os sentimentos quase sempre apaixonados dos nacionalistas franceses de Quebec se não soubermos algo acerca do passado em que foram, e ainda são, moldadas suas atitudes, com as lembranças da conquista pelos ingleses em 1759 e a impressão de que seus descendentes de língua francesa são cidadãos de segunda classe? Ou a mistura de ressentimento e orgulho que muitos escoceses têm em relação à Inglaterra agora que a Escócia encontrou petróleo? Se não soubermos nada sobre o que as perdas da Guerra Civil e a reconstrução significaram para os brancos do Sul dos Estados Unidos, como poderemos entender o que sentem em relação aos ianques até hoje? Sem conhecer a história da escravidão e da discriminação, da violência sofrida pelos negros mesmo depois da abolição, não podemos compreender a complexidade da relação entre raças nos Estados Unidos.

Sharky

EM 29/03/2014 05:56:39

This is way better than a brick & mortar estbilashment.


ronilce

EM 31/10/2010 20:02:12

Muito bom





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