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C R I M E
Defesa aberta
O serviço de inteligência do Palácio do Planalto e a polícia investigam envolvimento do ministro Élcio Álvares com o crime organizado
Andrei Meireles
Na manhã da segunda-feira 27, o delegado Francisco Vicente Badenes Júnior foi à Assembléia Legislativa do Espírito Santo para falar à CPI estadual sobre as investigações que comandou a respeito dos grupos de extermínio que transformaram os municípios da grande Vitória na área mais violenta do País. Levou uma pilha de documentos e se negou a responder às perguntas dos deputados alegando que dois integrantes da CPI pertenciam à Scuderie Detetive Le Cocq, sucedânea do esquadrão da morte capixaba. Em meio à papelada entregue por Badenes e que lhe valeu o Prêmio Nacional dos Direitos Humanos de 1996, há um organograma, encabeçado pelo ministro da Defesa, Élcio Álvares, que aponta as ligações do PFL do Estado com grupos de extermínio, corrupção, tráfico de drogas e jogo do bicho. O serviço de inteligência do Palácio do Planalto, comandado pelo general Alberto Cardoso, também está investigando as denúncias de que seu colega da Defesa teria envolvimento com o crime organizado. Na mira da polícia e dos arapongas do Planalto estão as ligações criminosas de juízes, parlamentares, empresários e policiais. As relações de Élcio com o presidente da Assembléia Legislativa, deputado José Carlos Gratz, dono de um império de jogatina, fazem parte da apuração. No organograma de Badenes, o nome de Gratz vem logo abaixo ao de Élcio. Nesta segunda-feira 4, o presidente do Tribunal de Justiça do Estado, desembargador Wellington da Costa Citty, decide o que fará com um pedido judicial para processar Gratz por pagamento de propina ao delegado Aristides Ferreira Lima em troca da liberação de máquinas de videobingo apreendidas no Bingo do Canto. Em depoimento prestado no final de junho na 7ª Vara Criminal de Vitória, o empresário Franklin Placido Campozana, sócio de Gratz no bingo, declarou que quem tomou a decisão de pagar ao delegado foi o deputado. Em sua defesa, o delegado alegou que não se tratava de propina, mas sim de um empréstimo. O deputado também se dá muito bem com o presidente do Tribunal de Justiça. “Com Gratz eu tenho uma relação especial. Se houver necessidade estou pronto para estar do lado dele. É um cara maravilhoso, um vencedor e eu o tenho como um irmão”, disse Wellinton Citty à revista VidaVitória em fevereiro deste ano. Mesmo com tantos amigos, a trajetória de Gratz impressiona. Ele conta com orgulho que catava caranguejos nos mangues para sobreviver. Sua vida começou a melhorar quando virou contador do bicheiro Jonathas Bulamarques. Mas Gratz queria mais. Uniu-se ao delegado Cláudio Guerra, acusado de pertencer ao Esquadrão da Morte, e ao ex-capitão Aílton Guimarães, que trocou os porões da repressão na ditadura militar pelo comando do jogo do bicho em Niterói, para destronar Bulamarques. O antigo bicheiro capixaba conseguiu sobreviver a um atentado à bomba, mas morreu metralhado em sua casa. Com a sociedade com o Capitão Guimarães, Gratz deu um grande salto e montou um império com bancas de bicho, cassinos clandestinos e casas de bingo. Há dez anos, sofreu um baque quando a Operação Dinossauro da Polícia Federal estourou seis fortalezas e uma central do jogo do bicho na Grande Vitória. Além de prender Gratz, a PF apreendeu documentos que relacionavam o jogo do bicho com roubo de carros, tráfico de drogas, crimes de mando e comprovantes de remessas bancárias para o Capitão Guimarães. Um ano depois Gratz se elegia deputado estadual. Até hoje o processo resultante da Operação Dinossauro aguarda no Tribunal Regional Federal no Rio de Janeiro que a Assembléia Legislativa responda aos pedidos de licença para que Gratz possa ser processado. Até agora, são sete ofícios sem resposta. Um deles é sobre a apreensão pela Polícia Federal de máquinas contrabandeadas no Castelo de Mármore, um cassino de Gratz no balneário de Guarapari. A denúncia do Ministério Público contra Gratz é de 2 de janeiro de 1990. Há um mês, o procurador-chefe Alcides Martins mandou um ofício ao desembargador federal Alberto Nogueira solicitando que os autos da ação penal contra José Carlos Gratz fiquem acautelados até que ele perca a imunidade parlamentar. “O Ministério Público Federal entende ser inócuo reiterar o ofício novamente, porque a Assembléia Legislativa não atende porque não quer. É de praxe, aliás, que os pedidos de licença para processar parlamentares nem sequer sejam colocados em votação.” Ligações perigosas – Além das campanhas políticas, o relacionamento de Élcio Álvares com Gratz e o prefeito de Cariacica, Dejair Cabo Camata –, terceiro nome no organograma de Badenes –, foi evidenciado num caso policial na Semana Santa do ano passado. Apontado em inquéritos policiais como um dos chefes dos grupos de extermínio no Espírito Santo, Camata foi preso numa blitz com um arsenal de armas contrabandeadas e privativas das Forças Armadas. Logo que soube da prisão, Élcio escalou a advogada Solange Rezende – hoje uma poderosa assessora no Ministério da Defesa – para pressionar o secretário de Segurança Adão Rosa. Adão negou-se a intervir, mas depois de receber um telefonema do próprio Élcio foi até a chefatura de polícia. Pouco depois, o então líder do governo no Senado também chegou ao local. “Vim prestar solidariedade a um amigo, um correligionário”, justificou. Apesar da pressão política, a polícia alegou que o crime era inafiançável para negar a saída de Camata da cadeia. Mesmo assim, os parceiros de Camata não desistiram. Às três horas da manhã, Gratz e o ex-governador Albuíno Azeredo chegaram em Guarapari e acordaram o desembargador Geraldo Correia Lima. Num papel sem timbre e com erros de datilografia, ele assinou o habeas-corpus. “Pelo sim, pelo não, eu achei melhor dar a suspensão da prisão, para depois ver como fica”, justificou à época. Rota do tráfico – Decano do Tribunal de Justiça, Correia Lima também é citado em outro organograma do crime organizado no relatório de Badenes sobre os assassinatos de políticos no Espírito Santo. ISTOÉ teve acesso a um relatório da PF que contém uma gravação feita pela Polícia Civil de uma conversa telefônica entre policiais em que Correia Lima, que antes de ser nomeado desembargador trabalhava no escritório de advocacia de Élcio, é apontado como sendo homem de confiança do crime organizado. “Todas essas coisas precisam ser apuradas com seriedade. Parece claro que o ministro Élcio Álvares tem servido de escudo para a quadrilha que tomou conta do Estado”, acusa o deputado Max Mauro (PTB-ES). As autoridades federais também estão de olho no Espírito Santo porque o Estado se transformou nos últimos anos numa das principais rotas no Brasil do tráfico internacional de drogas. “O tráfico acabou criando ramificações dentro da polícia e em vários outros setores. Existe uma certa promiscuidade com braços do Estado”, afirma o arcebispo de Vitória, Silvestre Scandian. Essa rede começou a ganhar corpo depois que remanescentes do Esquadrão da Morte, desmantelado no Estado no final da década de 60, criaram em 1985 uma sucursal da Scuderie Le Cocq. O que no começo se limitava à venda de proteção a comerciantes acabou virando instrumento para os mais variados crimes. Impunidade – Depois de uma exaustiva investigação registrada em 13 volumes com 5.297 páginas, nove fitas de vídeo e duas fitas casssete, em 20 de novembro de 1995, o delegado Francisco Badenes encaminhou ao Ministério da Justiça e à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão uma representação pedindo a dissolução da Scuderie Le Cocq. Em janeiro de 1998, o atual superintendente da PF no Espírito Santo, Armando Possa, encaminhou um relatório à Justiça que endossa as conclusões de Badenes. “O envolvimento de parte dos adeptos nos extermínios de menores, nos homicídios de mando, no furto e roubo de veículos, como também no narcotráfico, somente prospera em razão da certeza da impunidade”, diagnosticou Possa. O chefe da Procuradoria Geral da República no Estado, Ronaldo Meira de Vasconcellos Albo, também elaborou um relatório sobre as ligações do crime organizado com juízes, delegados, empresários e parlamentares. Esse relatório está com o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro. Mesmo com tudo isso, a Le Cocq capixaba ainda funciona. “Trata-se de uma instituição nefasta de triste memória que já deveria ter sido fechada há muito tempo”, diz o secretário nacional Antidrogas, Walter Fanganiello Maierovith. Colaborou Mino Pedrosa (DF) Leia também: A política bandida
A Resposta
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