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| Foto: ALAN RODRIGUES |
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| CONTÁGIO Diana
transmitiu o vírus da doença ao marido, Moraes. Ele ficou afastado
do trabalho por causa dos efeitos colaterais dos remédios |
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U T R I Ç Ã O
Epidemia Silenciosa
Sem alarde, a hepatite se espalha pelo
mundo e os cientistas se esforçam para conhecer melhor a doença
MARINA CARUSO
Cansaço exagerado, febre, enjôo, dores musculares e confusão mental
podem ser sinais de que o corre-corre da vida está prestes a se
tornar uma crise de stress. Mas, acrescentando-se a esses sintomas
fatores como urina escura, dores na região do fígado e icterícia
(pele amarelada), é grande a probabilidade de esse “stress” ter
outro nome: hepatite. A doença consiste na inflamação do fígado,
seja por conta de uma reação do organismo a alguns medicamentos
ou devido a infecções virais, a causa mais frequente do mal. Quando
surgem os sintomas, fica fácil diagnosticar. O problema é que na
maioria das vezes a hepatite é silenciosa e assintomática, podendo
terminar em cirrose (perda da função do fígado) ou até mesmo em
câncer nesse órgão. E aí está o perigo. Sem alarde, a infecção está
ganhando um tamanho assustador. Segundo o infectologista paulista
Vicente Amato Neto, as hepatites virais atingem mais de 700 milhões
de pessoas em todo o mundo. “No planeta existem pelo menos 300 milhões
de indivíduos infectados pelos vírus da hepatite B e 420 milhões
infectados pelo vírus da hepatite C”, diz o médico. Mas, apesar
da expressividade dos números, a Fundação Nacional de Saúde – órgão
do Ministério da Saúde – registrou em 1997 apenas 3.318 novos casos
de hepatite A, 2.902 de hepatite B e 1.311 de hepatite C. Essa discrepância
numérica acontece porque no Brasil – diferentemente do que ocorre
em outros países – a hepatite não é uma doença de notificação obrigatória,
ou seja, o governo não sabe ao certo o número de infecções que acontecem
a cada ano. “Com certeza a subnotificação é imensa, por isso não
temos como dimensionar que proporções a doença está tomando no Brasil.
Isso só retarda a evolução da medicina no combate à doença”, lamenta
o infectologista Antônio Coscina. “A hepatite por vírus está entre
os maiores problemas de saúde pública no Brasil e no mundo”, completa
Amato Neto.
Prevenção – Existem ao todo seis tipos de vírus que são
os principais causadores da hepatite. Cada um tem sua forma de contágio,
prevenção e tratamento (leia
quadro) e eles vão de A a G (pulando o F). Eles podem ser
mais ou menos nocivos de acordo com o tipo de infecção que desenvolvem.
“Chegou-se a acreditar que havia um vírus VHF (Vírus da hepatite
F) que causasse uma nova forma de infecção, mas os estudos não foram
suficientes e descartamos essa possibilidade”, explica Flair Carrilho,
professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
A hepatite A é a mais frequente. Mas é a menos grave e raramente
se torna crônica – hepatites crônicas são aquelas que se desenvolvem
silenciosamente e têm mais chance de provocar cirrose ou câncer.
Em outros tipos de hepatite, as crises agudas (com sintomas) podem
ser mais frequentes, embora isso não seja uma regra. “É possível
conviver anos com a doença sem se dar conta dela. O ideal é fazer
exames periódicos”, afirma Carrilho.
Se a hepatite A assusta pouco, o mesmo não se pode dizer da provocada
pelo vírus tipo C. De todas as hepatites, esse tipo é o que costuma
ter os sintomas mais fortes. Se a carga viral (quantidade de vírus
por milímetro de sangue) não for zerada e o vírus ficar por 30 anos
no organismo, há grandes chances de a doença se transformar numa
cirrose ou câncer. Esse tipo de vírus foi identificado há dez anos
e a descoberta considerada um grande avanço para a medicina. “Só
conhecíamos os vírus das hepatites A e B. Em 1989, foi detectado
o vírus da hepatite C, que passou a ser incluído em testes laboratoriais.
Até então, os exames se restringiam à identificação dos tipos A
e B”, informa o médico Coscina.
Avanços – Foi graças a esse avanço que a pedagoga Diana
Moraes, 45 anos, descobriu, em um exame pré-natal, o tipo de uma
hepatite que a havia incomodado na infância. “Só 23 anos depois
descobri que era hepatite C”, conta. Ela transmitiu a doença para
o marido, o geógrafo Antônio Carlos Mo-raes, 45 anos. Moraes ficou
um ano afastado do trabalho por causa do remédio que tomou para
combater a doença. “A droga mais recomendada contra as hepatites
B e C é o interferon, que às vezes provoca mal-estar”, explica Coscina.
“Ficava irritado com facilidade e tinha muita confusão mental, além
de sentir enjôos e febre de vez em quando”, lembra Moraes. O geógrafo
interrompeu o tratamento antes do tempo por não aguentar os efeitos
colaterais. “Agora ele terá de começar tudo de novo”, conta Diana.
Ela segue regularmente as prescrições médicas por já ter desenvolvido
um início de cirrose. No combate à doença, as pesquisas continuam.
Em 1997, uma equipe de cientistas japoneses identificou um novo
vírus, batizado de TTV, do inglês transfusion transmissible virus
(vírus transmissível por transfusão). O agente também estaria ligado
à hepatite por um mecanismo ainda não conhecido.
Os vírus da hepatite podem entrar no organismo por via fecal/oral
(ingestão de bebidas ou alimentos que tenham tido contato com fezes
contaminadas) ou parenteral (via relação sexual, sangue contaminado
ou transmissão de mãe para filho). Dentro do organismo, o vírus
se dirige rapidamente ao fígado e destrói as células hepáticas,
pois precisa delas para se multiplicar (leia
quadro). O álcool e a gordura contribuem para acelerar esse
processo de danificação do fígado e por isso devem ser evitados.
Drogas como o interferon agem inibindo a multiplicação do vírus
e, consequentemente, impedem a destruição das células, além de aumentarem
a defesa do organismo. Mas um dos problemas do interferon é que
ele deve ser aplicado via subcutânea, com injeções semanais. O estudante
de História João Renato Brajal, 28 anos, nunca se sentiu incomodado
com os efeitos colaterais da droga, mas reclama das picadas que
tem de tomar três vezes por semana para tratar da sua hepatite C
(em geral, o tratamento dura um ano e meio). “Cheguei a ter febre
algumas vezes, mas nada muito sério. O que realmente me incomoda
são as injeções”, diz. Para Brajal, pior que as agulhadas, só a
distância do álcool. “Adorava beber com os amigos, mas agora sou
obrigado a ficar na cerveja sem álcool”, lamenta.
Em alguns casos é possível se livrar da doença sem ter de recorrer
a remédios. Isso porque às vezes o próprio sistema de defesa do
organismo pode eliminar o vírus sozinho. Provavelmente foi o que
aconteceu com o estudante Ancelmo Portes, 20 anos. Ele não tinha
sintomas, mas começou a desconfiar do tom escuro da urina e decidiu
fazer exames, há sete meses. Diagnóstico: hepatite B. Portes não
sabe até hoje como contraiu a doença, mas já está com a carga viral
zerada. “Não precisei nem tomar remédios. Fiquei sem jogar bola
para evitar choques no fígado e parei de beber”, conta.
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