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| Mary Caitlin, ao lado da "mãe", Lídia, e
dos "irmãos", Lana e Luiz Fabrício: aulas de português e adaptação
perfeita |
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| Mundo afora |
| Sem fronteiras |
Os intercâmbios criam vínculos estreitos
entre a mãe postiça e seu "filho" estrangeiro,
que se prolongam pela vida toda |
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| Felipe Gil |
Brasileiros na Dinamarca e nos Estados Unidos, americanos e alemães
no Brasil. Todo ano 1,9 milhão de estudantes estudam fora
de seus países, segundo estudo da Organização
das Nações Unidas para a Educação, a
Ciência e a Cultura (Unesco). As empresas brasileiras de intercâmbio
esperam receber, neste ano, cerca de 400 estrangeiros para cursarem
aqui o ensino médio. Os objetivos são conhecidos.
Aprender in loco uma língua estrangeira, além da convivência
com gente de culturas diferentes. Nenhum dos programas oferece,
e nem poderia, uma nova mãe. Em alguns casos, porém,
a relação entre o estudante e sua família postiça
é tão forte que permanece viva por décadas.
Em janeiro de 1972, Marcos Cardoso Alves chegou, então
com 15 anos, a uma fazenda na pequena Doland, na Dakota do Sul,
Estados Unidos, em meio a uma tempestade de neve noturna e sabendo
apenas o parco inglês da escola. O que começou em cenário
de fita de terror se tornou um filme família de final feliz.
Jo e Harry Wood, os “pais” americanos, decidiram receber
um estudante para ocupar a casa após a ida de Steve, seu
filho mais velho, para a faculdade de medicina e a morte do filho
do meio, Chris, em um acidente. Em pouco tempo, Marcos passou a
ajudar Jo nas tarefas da fazenda, todas as tardes depois da escola.
Foram momentos de muita conversa, sobre assuntos diversos. “Ela
é uma pessoa muito receptiva, extrovertida e alegre. Nos
momentos de solidão, conseguia brincar, me entreter”,
lembra o brasileiro, que se identificou muito com os valores do
casal, especialmente a dedicação ao trabalho.
No mesmo período, Marisa – sua namorada na época
e hoje mãe dos três filhos
de Marcos – fazia intercâmbio na Califórnia,
mas não com a mesma sorte. “Minha mãe americana
era muito autoritária. Não queria que eu me relacionasse
muito
com a filha dela nem me correspondesse com o Marcos.” Como
a família californiana não permitiu que Marisa visitasse
o namorado em Dakota, o que
fora autorizado até por seus pais naturais, Jo Wood resolveu
organizar uma viagem pela Califórnia para Marcos.
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| Marcos, os filhos, a esposa, Marisa, e o
quadro com a foto da família americana. Abaixo, Jo, a mãe estrangeira,
faz um curativo em sua cabeça |
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O contato entre Marcos e os Wood, mesmo abalado na década de
1980 devido a uma viagem frustrada, permanece até hoje. Jo
e Harry mandam cartões-postais em todos os aniversários,
inclusive os dos “netos” também postiços,
Joana, Marcos e Paulo. Encontraram-se pela última vez em 1999,
nos Estados Unidos, e não vêem a hora de estarem juntos
de novo. “Quando nos falamos por telefone, sempre perguntam
quando podem vir, e eu digo que não tem hora, estamos sempre
prontos a recebê-los”, diz Marcos.
Lídia Stella Brandão está criando essa relação
com Mary Caitlin Straight, estudante americana de 15 anos que mora
em sua casa desde o final de janeiro. Mesmo com as diferenças
iniciais, Caitlin não desistiu da experiência. “Passeamos
juntas, vamos ao shopping, ao cinema, dou aulas de português”,
diz Lídia, que faz de tudo para a completa adaptação
de sua nova filha. A estudante decidiu vir ao Brasil depois que
Lana, filha de Lídia, passou um ano em sua casa, nos Estados
Unidos. A relação criada entre as irmãs estendeu-se
aos pais: “Ela é minha filha, não sei nem se
vou deixá-la voltar para os Estados Unidos”, brinca
Lídia.
O filho alemão de Susan Fregonesi – Matthias Shurig
– voltou, mas deixou enorme saudade. Enquanto seu filho Marcelo
estava na Dinamarca, Susan, que resistiu à idéia de
receber um estrangeiro por medo que a experiência não
desse certo, se surpreendeu com a força do vínculo
formado com Matthias. “Parecia que ele já era da família,
tudo se encaixou de forma muito natural. Nunca pensei que tudo isso
fosse acontecer.” O alemão passou um ano com a família
de Americana, no interior de São Paulo. Quando o programa
terminou em 2002, Susan sentiu muito a partida de Shurig, e ainda
se emociona ao lembrar que o filho não está mais com
ela.
Seja através da conversa, do contato anterior com outros
familiares, ou de uma afinidade quase inexplicável, as relações
de Marcos, Lídia e Susan com estrangeiros mostram que o afeto
é a melhor forma de derrubar barreiras culturais.
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