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HOME: ISTOÉ SP: DIA DAS MÃES 2004
Dárcio de Jesus  
Com afeto: o analista Sidney Fratucci, 47 anos, não vê desvantagens em morar com a mãe, Victória. Ao contrário, quando ela viaja, ele sente falta “até das brigas”. “Se não morasse com ela, acho que sentiria solidão”  

Filhos da mãe
Na barra da saia
Eles estão crescidinhos, mas não querem saber
de sair da casa dos pais. Saiba por quê
Juliana Villas

Com eles, não tem essa história de conflito de gerações. Os jovens dos dias de hoje não acham que sair logo da casa dos pais seja fundamental para conquistar autonomia e a auto-afirmação. Pelo contrário, valorizam – e muito – a relação familiar. De acordo com uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo, 43% dos jovens entre 15 e 24 anos não têm planos de sair da casa dos pais. Sinal dos tempos. Os pais de hoje também são bem diferentes dos de ontem. Muitos permitem que seus rebentos levem os parceiros para dormir em casa, não controlam tanto os horários e fazem questão de dar, quando podem, respaldo emocional e financeiro e liberdade para os filhos investirem na própria carreira. O mercado de trabalho cada vez mais difícil e inseguro é um dos motivos que levam os jovens a retardar a saída de casa, já que, enquanto moram com os pais, podem juntar dinheiro, estudar, viajar e alcançar uma situação estável antes de encarar, sozinhos, a manutenção da casa. “Os jovens não têm nada a ganhar saindo de casa, só aborrecimentos, responsabilidades, gastos e chatices. A casa da mãe é como um hotel cinco estrelas sem muitas restrições”, compara a psicóloga Magdalena Ramos, do Núcleo de Estudos da Família, da PUC-SP. A família Minami, composta de quatro filhas com idades entre 17 e 31 anos, ilustra bem essa tese. Os pais, Salete e Roberto, acham que as filhas só devem sair para a carreira solo com muito planejamento e depois de formadas, pós-graduadas e com a “vida ganha”. E jamais pagar aluguel. Elas não discordam. A dentista Roberta Akemi, 31 anos, vai casar daqui a alguns meses. Só está esperando terminar a reforma de sua casa própria, já quitada. “Pude juntar dinheiro, me planejar e não vou pagar aluguel, que é dinheiro jogado fora. Morando aqui, fiz duas faculdades e me estabilizei profissionalmente”, conta. Sua irmã, a advogada Flávia Tamiko, 29 anos, também está com o pé
no altar e procura uma casa para comprar, antes de juntar as escovas de
dentes com o namorado. “Meu pai ensinou a não dar um passo maior do que
as pernas, por isso eu não iria me comprometer com dívidas antes de ter uma
vida financeira estável”, conta.

Outro motivo que segura os filhos em casa é a tranquilidade de não se preocupar com responsabilidades domésticas. Sobra mais tempo para cuidar dos interesses pessoais. A fisioterapeuta Fernanda Naomi, 25 anos, nunca pensou em sair de casa, nem tem planos. Formada há três anos, já fez pós-graduação e abriu sua clínica. Namora há três anos, mas não pensa em casar. “Não estou preparada para lavar cuecas. Aqui, eu só arrumo minha cama e nada mais ”, brinca. A liberdade também é um fator importante para as irmãs. Apesar de não levarem os namorados para dormir em casa, todas têm liberdade para viajar e saem sem horário para voltar. Para a psicóloga Magdalena, “antes os filhos saíam de casa em busca de liberdade, sobretudo sexual. Mas, hoje, os pais não tiram a liberdade dos filhos. Eles têm tudo em casa, além da mordomia”, explica.

Dárcio de Jesus  
Economia: as irmãs Fernanda, 25 anos, Flávia, 29, e Roberta, 31, ainda estão grudadas em dona Salete. Para sair de casa, só quando estiverem com
a vida financeira estável.
A ordem é: “Nada de pagar aluguel”
 
Há um risco, porém, em manter o filho na barra da saia por muito tempo: ele pode se tornar acomodado e, muitas vezes, incapaz de gerenciar a própria vida. Para Magdalena, “o risco é criar um panorama perverso porque esses jovens amadurecem tarde e na casa dos pais não se confrontam com dificuldades, o que pode torná-los pouco ou nada ousados”, explica. Na prática, morar com os pais
tem lá suas desvantagens, como a falta de privacidade, por exemplo.

O analista de sistemas Sidney Fratucci, 47 anos, é o filho mais novo de uma família de quatro irmãos. Ele é o único que não se casou – porque ainda “não encontrou a pessoa certa” – e depois que o pai morreu ficou morando com a mãe, Victória, 80 anos. O elo emocional com ela, sem dúvida, é o que o mantém em casa até hoje. “Quando minha mãe viaja, sinto muita falta, até mesmo das brigas. Se não morasse com ela, acho que sentiria solidão”, conta ele, que não vê nenhuma desvantagem em morar com a mãe, já que sempre faz tudo o que quer. Magdalena explica que, no caso de pessoas com mais de 35 anos que ainda vivem com os pais, o vínculo é estritamente afetivo, ao contrário dos filhos mais jovens, que, quando demoram para sair de casa, é, muitas vezes, por questões financeiras. Os chamados “solteirões” geralmente não cortam os laços com os pais, que são muito fortes e, por isso, dificilmente podem ser superados por um novo núcleo familiar. Outro fator relevante na hora de deixar a casa materna é a solidariedade prática – o que, para quem vive numa cidade como São Paulo, é importante. Sidney leva dona Victória ao médico, faz compras e leva e pega a mãe no aeroporto quando ela vai ou volta das excursões com as amigas. Na casa dos Minami, Roberta pega o pai no trabalho, Flávia leva a mais nova para o colégio, que nas horas vagas ajuda a mãe a organizar a casa, Fernanda dá carona quando Roberta vai a algum lugar difícil de estacionar e assim vai. Mas, de todos os motivos que mantêm os filhos na casa dos pais, sem dúvida um é consenso: ter sempre por perto o acolhedor e insuperável colo da mamãe.