| Gastronomia |
| Lembranças, codornas
e caçarolas |
Dois chefs revivem os paladares da infância e confessam
que boa parte
do que cozinham tem enorme influência de suas mães.
De quebra, revelam
as dicas e receitas maternas que adotaram em seus restaurantes |
 |
| por Luciana Sgarbi |
Lembra daquela massa que sua mãe fazia aos domingos? E do
arroz soltinho com aquele peixe suculento? E do perfume daquele
bolinho que invadia a casa toda? Ou do que você comia quando
chegava da escola, sentado em frente da televisão? Você
consegue imaginar que, em restaurantes sofisticados, muitas daquelas
iguarias nada mais são do que a velha e boa comida da mamãe
disfarçada? Pois é, qualquer semelhança com
o temperinho caseiro não é mera coincidência.
Mas será que todas as relações entre mães
e filhos são amenas? “Quando cozinhamos juntos, é
sempre uma discussão tremenda. Minha mãe quer impor
sua forma de cozinhar e eu quero preparar as receitas ao meu modo“,
desabafa o chef Douglas Santi, do Dressing. Em Milão, Santi
formou-se pela Escola Federico Artusi em 1993. Sua estréia
foi na Sardenha, no restaurante Statzzu Purchetto, passando também
pelo Temperanza, em Milão, e pelo Enoteca Pincciorri, em
Firenze. No Brasil, passou pelas cozinhas do Laurent, Fasano, Terraço
Itália, L’Hotel, Cantaloup e Glass até chegar
ao Dressing. Mesmo com esse currículo de dar inveja a muitos
chefs, sua mãe ainda dita as regras nas caçarolas:
“Tento mudar a forma de elaborar o prato ou mesmo acrescentar
um tempero, mas ela sempre me convence de que a maneira de ela fazer
o prato é a melhor. Eu às vezes frito o alimento em
vez de assar. Já ela é contra frituras. Ao final acabo
fazendo o que ela quer, mesmo porque a maioria das receitas é
dela mesmo. O melhor é que não existe competição,
e sim muito respeito entre nós. Ela sabe que sou profissional
e tenho a minha personalidade para cozinhar. Além disso,
sou fiel a suas receitas e tenho sempre em mente a maneira de cozinhar
da minha mãe. Foi a forma que encontrei de estar sempre próximo
e sentir o carinho dela. Até hoje procuro dentro da minha
cozinha o mesmo perfume que existia em minha casa, durante minha
infância.”
Sua família é de origem italiana, mais especificamente
da região de Lucca, Toscana. Já cozinhou para o tenor
Luciano Pavarotti e para Ayrton Senna, entre outros famosos. Como
sua mãe, ele é incansável na cozinha. Roberto
Ravioli, do Empório Ravioli, teve uma infância repleta
de carinho, com a presença dos pais e avós. “Quando
meu pai voltava de caçadas com o ‘pinduricchio’
cheio de codornas , perdizes, pombas e marrecos, era uma verdadeira
festa. Nos reuníamos para depenar as aves, e minha mãe
e a nona preparavam enormes assadeiras para serem servidas com polenta
e muito vinho.” Havia ainda os quitutes para algumas datas
festivas. “A Páscoa era um caso à parte: reuníamos
para fazer os famosos tortellis. Tudo começava no dia anterior,
na compra das carnes, pelo meu pai. Grande supervisor, ele não
deixava passar nada. Minha mãe, ao temperar, marinando as
carnes, dizia sempre: ‘Para pêlo, alecrim; para penas,
sálvia. Não faltavam alho, limão, cebola e,
claro, um vinho de garrafão do qual na verdade não
sei a origem. Seguramente era de terceira, claro que seco. O bom
vinho era bebido nas refeições com um pouco de água,
para não subir muito.” O relato de Ravioli é
de dar água na boca. “O ritual da preparação
da massa começava no dia anterior. Moía-se toda a
carne, fazia-se o empasto e começava-se a maratona de se
confeccionar um a um os 2.500 tortellis. Minha mãe na cozinha
era incansável. Levantava-se cedo e cuidava de tudo. Nós
todos em casa temos esse maravilhoso costume. A preguiça
nunca foi parceira na família Ravioli”, conta Roberto,
que lembra também das lições de vida que aprendeu
com a mãe: “Herdei da minha mãe alguns medos,
mas, acima de tudo, herdei a consciência de que devemos ter
uma parcela de sacrifício, que ao cortar uma fatia de queijo
você deve levar junto também a casca correspondente,
não deixando para outros o que é seu. Que os sabores
são definidos e que ao se levar algo à boca é
importante perceber o que se está degustando. E o mais importante
é que ‘tutto que ci metti lo ritrovi’, isto é,
tudo o que juntares vais encontrar. É importante não
perder o aroma, o sabor de nenhum componente da receita.”
|