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Alan Rodrigues  
"Queria que ela aprendesse a fazer comida e arrumasse um bom casamento"  
Mãe de juíza
Apito final
por Alan Rodrigues

A filha da mineira Edna Massuia de Oliveira desfila entre uma multidão de homens vestindo um pretinho básico. Aos 40 anos, a loira de 1,74 m e 62 quilos, está sempre em ação com um figurino diminuto, uma blusa colada ao corpo e um short, que deixa expostas pernas bem torneadas. Nem assim agrada a todos. Ao contrário, sofre com xingamentos que fazem sua mãe se fingir de surda durante 90 minutos. Sílvia Regina de Oliveira, a filha de dona Edna, é juíza de futebol.

O apito inicial dessa história foi assoprado há 25 anos na estação de trem de sua cidade natal. Por Mauá, na região metropolitana de São Paulo, passa a estrada de ferro Santos–Jundiaí. No vagão de passageiros, uma dupla da família Oliveira, Sílvia Regina e seu pai, Luís Emílio, seguia rumo às tardes de futebol. Eles saltavam na parada da Mooca e chegavam ao destino final: a rua Javari, campo do Juventus. A adolescente gostava muito de ver aqueles 22 marmanjos correrem atrás da bola. “Queria ser jornalista esportiva”, conta Sílvia. “Mas, para não sair falando bobagens por aí, decidi aprimorar meus conhecimentos.” Um curso de arbitragem foi a pedida certa para conhecer as regras do esporte. A notícia quase matou sua mãe e dona Marieta Maciel, a avó materna, que vivia com eles à época.

Dona Edna bem que tentou dissuadi-la da idéia maluca de ser “juíza de futebol”. “Queria que ela aprendesse a fazer comida e arrumasse um bom casamento”, lembra. “Não acreditava que isso ia ter futuro.” Para tentar fazer valer seu projeto de vida para a filha, usou da autoridade materna: “Paralelo ao curso de arbitragem, pedi que ela fizesse corte e costura.” Mas havia uma barreira no meio do caminho: a falta de habilidade técnica. Manusear tesouras e linhas usando dedais nunca foi mesmo o forte da moça. “Fui descartada logo de cara”, recorda Sílvia. “Quebrava muitas agulhas e a própria professora aconselhou-me a investir no apito. Mesmo assim, consegui fazer uma saia”, consola-se.

Se, para a tristeza da avó e da mãe, a menina não dava mesmo para o bordado e a costura, ela pelo menos realizou um dos desejos da mãe: casou-se. Mas o matrimônio também foi colocado para escanteio. “Foi por culpa do ciúme do marido”, relata a mãe. E Sílvia continuava obstinada. No final dos anos 90, a turma de homens da Confederação Brasileira de Futebol reconheceu suas qualidades profissionais; logo depois foi a vez da Fifa, a entidade internacional da bola, dar a sua chancela. Mas só em 2000 dona Edna – mesmo sem ter ido uma única vez ao campo – entendeu que a filha tinha acertado na escolha da profissão.

Não tardou para que os pais assistissem à coroação profissional da filha. Tarde de domingo, 30 de junho de 2003, dona Edna era só alegria. Estádio Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas. Em campo, São Paulo e Guarani, momento histórico para o futebol nacional. Pisa o gramado, pela primeira vez, um trio feminino para comandar uma partida da Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro. A cena, mostrada pela televisão, acelerou os batimentos do coração de dona Edna e de seu Luís. Não eram só os tricolores que comemoravam o 1 x 0 e esperavam o apito final. Com o gesto de Sílvia, braços apontados para o centro do campo no final do jogo, as mulheres conquistaram mais um campo de trabalho, justamente no futebol, um esporte que muitos ainda teimam em considerar “coisa de macho”.