Nº 1581 – 19 de janeiro de 2000

Na boléia do caminhão

Foto:MAX PINTO
O assunto ecopirataria demanda cada vez mais atenção, tanto no Brasil quanto internacionalmente. Quando a repórter de ISTOÉ Luiza Villaméa me contou uma história, concordamos imediatamente: alí estava uma grande pauta.

Índios brasileiros e guianos, todos da etnia Waipixana, tiveram pirateados (leia-se patenteados) os princípios ativos de duas plantas que, já há muitas gerações, faziam parte do seu uso cotidiano. Usavam suas qualidades medicinais e práticas para a pesca, como cicatrizante de cortes, anticoncepcional, tratamento de feridas, etc...

Mas grandes pautas de ecopirataria demandam, além de muita atenção, muito trabalho operacional. Precisa-se vencer as grandes distâncias, a dificuldade de acesso, as barreiras da língua (índios não falam o português!), e, se você conseguir chegar lá, aí sim começar a trabalhar.

Foram quase 7 horas de vôo (duas escalas) de São Paulo a Boa Vista, no estado de Roraima. Mais 2 horas de carro até a fronteira com a Guiana Inglesa. Uma travessia de balsa, mais 20 minutos até Lethem. Após obtermos autorização com a polícia local e transporte poderíamos começar as 4 horas de estrada de terra bem esburacada até Sand Creek, aldeia de índios waipixanas no interior da Guiana. Na boléia de um velho caminhão militar inglês.

Sob o céu estrelado da Guiana, era quase meia noite quando, na travessia do segundo rio, o motorista errou o caminho sobre as lajes de pedras e o caminhão, naquele escuro, no meio da água, começou a virar. Todos na boléia corremos para o outro lado. Graças a Deus o caminhão estancou. Chegamos à pé, com nossos calçados molhados, a um grupo de casas, próximo a Sand Creek. Uma boa noite de sono em rede nos separava de nossa matéria. Tudo isso para voltar no dia seguinte.

MAX PINTO
Repórter fotográfico

 
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