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Os meus, os seus, os nossos
Constituir um novo lar com os filhos de outros casamentos exige muita paciência e disposição, mas o casal não deve desanimar

Pisco del Gaizo/Fotosite
Hélide e o marido, Salvia, tiveram de encomendar projeto especial para a casa abrigar os enteados e o único filho do casal

Depois que um sonho familiar acaba, é preciso olhar para a frente e traçar planos para o futuro. Se a meta é casar mais uma vez, o recomeço talvez seja mais complicado. Mesmo assim, não há nada melhor do que um novo amor para curar outro. As pessoas que pensam dessa forma e alimentam o desejo de selar outra união costumam se colocar à frente das mais intensas intempéries com uma grande vantagem: dificilmente os erros do primeiro casamento vão aparecer no segundo. Pelo menos, é o que os especialistas esperam.

A psicóloga Rosane Mantila, professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, é especialista em divórcio e em famílias decorrentes da separação. Ela acredita que é possível tirar proveito das histórias vividas no primeiro casamento na hora de constituir um novo lar. “A experiência da relação passada ajuda a próxima a ser construída com melhor comunicação entre os parceiros, assim como garante maior preservação da autonomia e manutenção da qualidade de vida conjugal”, garante. Esses pontos selaram a união do músico Vicente de Paula Salvia, 58 anos, com a psicóloga Hélide Gonçalves, 49, moradores de São Paulo. O casamento, que já dura 11 anos, reúne dois filhos dele, três filhos dela e um filho do casal. Resultou também na construção de uma casa especialmente projetada para abrigar toda a turma.

Os filhos dos outros casamentos transmitem ao lar de Salvia e Hélide um ar de constante festa. Mas nem sempre foi assim. O casal viveu maus bocados até que a turma inteira finalmente conseguisse se entender. “Quase todos os filhos eram adolescentes quando passamos a viver juntos e tínhamos de conversar muito para chegar a acordos simples”, lembra Hélide, que esteve casada por 12 anos na primeira vez. O casamento acabou seis anos antes de a psicóloga se unir ao atual companheiro. “Hoje, estou muito feliz, mas houve um momento em que precisei recorrer a sessões de terapia com um dos meus filhos para segurarmos a barra”, completa o marido, sobrevivente de dois casamentos.

É comum dificuldades como as atravessadas por Salvia e Hélide minarem as perspectivas de progresso das novas uniões. É o que diz a socióloga e escritora Maria Helena Matarazzo, de São Paulo. “Uma pesquisa americana revelou que há umíndice de 50% de separação no segundo casamento. Acredito que a média brasileira seja semelhante”, afirma. A empresária Lica Ribeiro, 44 anos, que o diga. Um ano após encerrar um casamento de uma década, ela tentou partir para outra relação. Moraram sete anos juntos com dois filhos do primeiro casamento dela, um filho dele e mais uma criança nascida da nova união. “Minha convivência com o filho dele não foi fácil, pois havia muita pressão da mãe do rapaz, que sempre que podia o jogava contra mim”, conta. “Essa foi uma das principais causas da minha segunda separação”, completa Lica.

Discussões – Para a psicóloga Rosane Mantila, o diálogo é a melhor forma de fazer com que novo casal encare bem as dificuldades. Marido e mulher devem tentar estabelecer, logo no início do relacionamento, como cada assunto deve ser tratado. “É preciso ter calma e disposição, mesmo que seja inevitável terminar a conversa com discussões desagradáveis sobre os desaforos dos enteados”, explica Rosane. Uma dica simples é a mulher sugerir aos filhos do companheiro que a chamem pelo nome ou mesmo por um apelido. As palavras “padrasto” e “madrasta”, de acordo com os especialistas, não são as mais apropriadas porque ainda hoje designam pejorativamente os comandantes da casa. E podem causar estranhamento.

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