Ainda
dói
O
saldo do futebol brasileiro é positivo, mas os traumas das Copas
de 1950, 1982 e 1998 jamais serão esquecidos
Rodrigo Savazoni
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“Un,
deux, trois, zéro”: o goleiro francês Barthez voa
sobre Ronaldinho na final de 1998. As convulsões sofridas
pelo Fenômeno ajudaram a nocautear a Seleção |
O brasileiro não se cansa de relembrar as conquistas
do futebol pátrio. Nesta terra em que grande parte
do povo se vê representada, antes de tudo, pelo calção
azul e pela camisa amarela que vestem o selecionado canarinho,
isso funciona, em muitos casos, como afirmação
da identidade nacional. Por esses mesmos motivos, as três
grandes derrotas se transformaram em legítimas tragédias.
O gol do uruguaio Ghiggia a dez minutos da final de 1950,
em pleno Maracanã; o passe de Toninho Cerezzo nos pés
do carrasco italiano Paolo Rossi, em 1982; e o piripaque de
Ronaldo Fenômeno horas antes da decisão
de 1998 jamais serão esquecidos. Esses momentos estão
registrados, para deleite dos adversários, em videoteipes,
fotografias, crônicas e reportagens. Vez por outra,
os episódios voltam
à discussão. E ficam armazenados na memória
do torcedor, esse eterno guardião de
dores. No dicionário do futebol, não existe
a palavra esquecimento. Por causa do
trauma, os torneios de 1950, 1982 e 1998 são quase
tão lembrados quanto aqueles
em que o Brasil foi campeão.
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| O
segundo gol do uruguaio Ghiggia na final de 1950,
no Maracanã, concretizou a maior tragédia da história
do futebol brasileiro |
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E não se trata de fracassomania. Ao menos, é
o que pensa Edson Marini, vascaíno, 68 anos, uma das
testemunhas daquele fatídico 16 de julho de 1950, o
dia em que os uruguaios calaram o Maracanã. É
preciso lembrar os erros do passado para não repeti-los,
enfatiza o sexagenário torcedor Marini, que se mudou
de Três Rios (RJ) para o Rio de Janeiro em 1949. Chegou
para estudar no Colégio dos Franciscanos, estava proibido
de sair do internato, mas burlou a regra. Era a final
da Copa do Mundo. Eu, um menino do interior, não perderia
aquela chance por nada. Como fazia em dia de jogo do
alvinegro de São Januário, juntou suas tralhas
e seguiu ao Maior do Mundo para assistir à partida
entre Brasil e Uruguai. A nossa mentalidade era a de
que iríamos ganhar, só não sabíamos
de quanto.
Duzentas mil pessoas, alegria, cantoria, gargalhadas: o Maraca
era o palco perfeito
para a glória. Quando fizemos um a zero, no início
do segundo tempo, parecia que o
lugar ia explodir, recorda, 52 anos depois do gol de
Friaça. A festa do garoto e da
turma de fujões que o acompanhava durou até
os 22 minutos, quando Schiaffino empatou o jogo. Foi
uma estocada, relembra. Mas esse resultado ainda
nos garantia o título.
A igualdade sim, mas a derrota não. Assim, a exatos
dez minutos do apito final, Ghiggia silenciou o Brasil. O
camisa 7 celeste avançou pela direita da área,
chutou fraco, no
canto baixo do goleiro Barbosa, que aceitou a incumbência
do destino e deixou
a pelota passar sob o seu corpanzil.
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