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COPA DO MUNDO 2002
18/06/2002
Ainda dói
O saldo do futebol brasileiro é positivo, mas os traumas das Copas
de 1950, 1982 e 1998 jamais serão esquecidos

Rodrigo Savazoni

  Juca Rodrigues
  “Un, deux, trois, zéro”: o goleiro francês Barthez voa sobre Ronaldinho na final de 1998. As convulsões sofridas pelo Fenômeno ajudaram a nocautear a Seleção

O brasileiro não se cansa de relembrar as conquistas do futebol pátrio. Nesta terra em que grande parte do povo se vê representada, antes de tudo, pelo calção azul e pela camisa amarela que vestem o selecionado canarinho, isso funciona, em muitos casos, como afirmação da identidade nacional. Por esses mesmos motivos, as três grandes derrotas se transformaram em legítimas tragédias. O gol do uruguaio Ghiggia a dez minutos da final de 1950, em pleno Maracanã; o passe de Toninho Cerezzo nos pés do carrasco italiano Paolo Rossi, em 1982; e o piripaque de Ronaldo “Fenômeno” horas antes da decisão de 1998 jamais serão esquecidos. Esses momentos estão registrados, para deleite dos adversários, em videoteipes, fotografias, crônicas e reportagens. Vez por outra, os episódios voltam
à discussão. E ficam armazenados na memória do torcedor, esse eterno guardião de
dores. No dicionário do futebol, não existe a palavra esquecimento. Por causa do
trauma, os torneios de 1950, 1982 e 1998 são quase tão lembrados quanto aqueles
em que o Brasil foi campeão.

Prensa Três  
O segundo gol do uruguaio Ghiggia na final de 1950, no Maracanã, concretizou a maior tragédia da história do futebol brasileiro  

E não se trata de fracassomania. Ao menos, é o que pensa Edson Marini, vascaíno, 68 anos, uma das testemunhas daquele fatídico 16 de julho de 1950, o dia em que os uruguaios calaram o Maracanã. “É preciso lembrar os erros do passado para não repeti-los”, enfatiza o sexagenário torcedor Marini, que se mudou de Três Rios (RJ) para o Rio de Janeiro em 1949. Chegou para estudar no Colégio dos Franciscanos, estava proibido de sair do internato, mas burlou a regra. “Era a final da Copa do Mundo. Eu, um menino do interior, não perderia aquela chance por nada.” Como fazia em dia de jogo do alvinegro de São Januário, juntou suas tralhas e seguiu ao Maior do Mundo para assistir à partida entre Brasil e Uruguai. “A nossa mentalidade era a de que iríamos ganhar, só não sabíamos de quanto.”

Duzentas mil pessoas, alegria, cantoria, gargalhadas: o Maraca era o palco perfeito
para a glória. “Quando fizemos um a zero, no início do segundo tempo, parecia que o
lugar ia explodir”, recorda, 52 anos depois do gol de Friaça. A festa do garoto e da
turma de fujões que o acompanhava durou até os 22 minutos, quando Schiaffino empatou o jogo. “Foi uma estocada”, relembra. “Mas esse resultado ainda nos garantia o título.”
A igualdade sim, mas a derrota não. Assim, a exatos dez minutos do apito final, Ghiggia silenciou o Brasil. O camisa 7 celeste avançou pela direita da área, chutou fraco, no
canto baixo do goleiro Barbosa, que aceitou a incumbência do destino e deixou
a pelota passar sob o seu corpanzil.

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