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Sem cabeça e sem medalha
Com vários favoritos na delegação, Brasil perde pódios por falta de estrutura psicológica dos atletas

Por MÁRIO SIMAS FILHO E FRANCISCO ALVES FILHO - Enviados especiais a Pequim (China)

ROB CARR/AP/IMAGE PLUS
Diego erra e se desespera; Jade chorou até com o assédio da imprensa em Pequim

As imagens do ginasta brasileiro Diego Hypólito, bicampeão mundial, aos prantos em Pequim após cair na disputa final no solo correram o mundo. Mais do que ilustrar o gosto amargo da derrota, elas evidenciam o erro de menosprezar os aspectos emocionais em uma disputa olímpica. "Nunca houve tanto investimento. Tivemos estrutura, condições de treinamento adequadas e oportunidades para disputar as melhores competições do mundo. A ausência de bons resultados está ligada a fatores psicológicos", disse à ISTOÉ a chefe da equipe de ginástica do Brasil, Eliane Martins. Na China, sob seu comando, estiveram nove atletas, três favoritos ao pódio: o próprio Diego, Jade Barbosa e Daiane dos Santos. Nas finais, eles se apresentaram nervosos e fracassaram. "São atletas experientes, estavam tecnicamente preparados e mostraram desequilíbrio emocional na hora da disputa e na reação à derrota", diz Eliane.

Diego derramou lágrimas antes mesmo de deixar o tablado. Balbuciando diante da imprensa, pediu desculpas. "Foi uma reação anormal para um atleta acostumado a estádios lotados. Em ginástica se ganha ou se perde. Nem sequer existe empate. E errar um movimento faz parte do jogo", disse Eliane. Como sempre, também na China favoritos de diversas modalidades e nacionalidades não chegaram aos pódios. Expressaram tristeza e decepção. Muitos até choraram, mas não de forma compulsiva e implorando perdão.

Campeã de salto na copa do mundo na Rússia e medalha de bronze no Pan do Rio de Janeiro, Jade Barbosa mostrou nervosismo antes mesmo de a Olimpíada começar. Ao desembarcar na China, chorou diante do assédio dos jornalistas. "A Jade sentiu o peso da responsabilidade e ficou abalada", afirmou Eliane. "Preciso trabalhar melhor minha cabeça para enfrentar a pressão de disputar como favorita. Fiquei muito nervosa e isso atrapalhou", admitiu ela. Mesmo a experiente Daiane dos Santos se apresentou tensa e ultrapassou os limites do tablado, como em Atenas em 2004.

DANIEL RAMALHO/CPDOCJB/FOLHA IMAGEM

"Ainda não concluímos a análise sobre os Jogos de Pequim, mas é evidente que nas próximas disputas precisamos considerar a possibilidade de trazer psicólogos", diz o chefe da delegação brasileira na China, Marcus Vinícius Freire. Equipes de ponta como a chinesa, a americana e a alemã não abrem mão de psicólogos em suas seleções. No Brasil, durante a preparação, praticamente todos os atletas contaram com orientação psicológica, mas não em Pequim. No caso da ginástica, Eliane admite que foi um erro deixar a psicóloga Ruth Paula no Brasil. Em Curitiba, principal centro de treinamento dos ginastas, ela faz um acompanhamento sistemático dos atletas. "Achamos que seria dispensável a presença da Ruth nos Jogos, mas erramos", disse.

O desequilíbrio emocional de atletas brasileiros na China não se restringe aos ginastas. A saltadora Fabiana Murer ficou muito abalada quando uma de suas varas não foi encontrada na hora da final. Decidiu saltar com uma vara inapropriada, errou, perdeu o pódio e chorou. Terminada a disputa disse: "Não volto mais para a China." Também Renata, da dupla de vôlei de praia com Talita, mostrou descontrole após a derrota para as chinesas, que lhe tirou a chance do bronze.

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21/8/2008


 
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